quinta-feira, 7 de novembro de 2013

VIAGENS EXTRAORDINÁRIAS-NOVELA UTÓPICA DE FICÇÃO CIENTÍFICA





 









VIAGENS  EXTRAORDINÁRIAS










NOZES  PIRES























 















 
 
Aviso ao leitor incauto

Esta não é uma novela de ficção-científica. É o relato de uma viagem a JANO, o deus de todas as portas, das partidas e das chegadas, e das características da “idade de ouro” : honestidade perfeita, abundância e paz profunda;  um dos artífices da criação do mundo; o senhor das duas caras, aquele que vigiava o dentro e o fora, com os olhos bem diante do passado e do futuro.
Se mesmo assim a quiseres ler, lembra-te que o tempo é uma série infinita de cordas. O que existe verdadeiramente é o futuro.
Que é um dia de vida senão a rotação de um corpo sobre si próprio?






           











































O relatório


             - Esta agora! Esperava tudo menos isto!
 Chamo-me Francis Bacon e sou eu que vou contar-vos esta história extraordinária.
 Levanto-me, puxo de um charuto e acendo-o com vagar propositado. Cofio a barba rala enquanto fixo o olhar no ângulo direito do poster que cobre boa parte da porta do amplo gabinete, fotografia por satélite da Amazónia dizimada. Lanço mão a todos os truques para me acalmar. Entretanto, vou pensando que tenho de mandar para o lixo este poster.  Vou trazer qualquer coisa mais divertida, por exemplo a Vénus, do Velasquez.
              Acabo de ler o relatório enviado pela nave Quimera. Imprimo três cópias e guardo a gravação no cofre do Directório. O triunvirato responsável pelo Programa Quimera, cujo coordenador sou eu próprio, será a única entidade a tomar conhecimento. Não há maneira de localizar imediatamente o lugar exacto onde se encontra agora o autor do relatório, apesar das coordenadas que este forneceu noutras ocasiões com precisão. Terei de aguardar várias horas até que os computadores do Instituto construam no mapa celeste o itinerário provável da nave. Emito a ordem, com prioridade máxima e que a resposta seja destinada exclusivamente a mim. Não me resolvo informar por agora os restantes membros do Directório. Dallowey e Scroger são dois idiotas, patifes e sabujos, às ordens da Liga dos Accionistas.
 O Programa Quimera iniciou-se há muitos anos, por volta de 2.050, com sondas automáticas e a seguir com naves tão rudimentares que não regressaram nunca; novos protótipos foram sendo fabricados, navios espaciais cada vez mais velozes e melhor equipados; esta astronave pertence à penúltima geração, classificada como A, ou seja a primeira capaz de mover-se a uma velocidade próxima da velocidade da luz, e de utilizar pela primeira vez os túneis do tempo, “buracos de verme” na gíria antiga, fenómeno estudado apenas teoricamente, pelo qual se “atalhava” caminho, e até se poderia provavelmente “saltar” de uma galáxia para outra, ou mesmo deste universo para outro.
O Governo da Liga dos Accionistas desde há algum tempo para cá que anda a pressionar o directório do programa a apresentar-lhe resultados palpáveis, ou seja, calculáveis em metal sonante. A verdade é que nem sequer foi a Liga, com este Governo ou qualquer outro, que investiu no programa inicial, na exacta medida em que a nave Quimera partiu para o espaço muitíssimo antes da Liga se haver formado. Fora na Era que antecedeu a última Guerra Mundial, quando ninguém previa os terríveis acontecimentos que haviam de verificar-se. No decurso de uma período muito prolongado não houve interesse em lançar naves tão dispendiosas; ou bastante mais, porque aquela ou aquelas que se lançassem em busca das riquezas que a Quimera anunciara, teriam de ser necessariamente maiores e equipadas para a extracção e transporte das tais riquezas. Nada disso esteve até agora ao alcance dos Governos da Terra, que se confrontavam entre si em lutas inúteis e desastrosas. Entretanto, os navios galácticos deixaram de ser tripulados por seres humanos de carne e osso, os computadores e a robótica substituem-nos com vantagem. A Quimera foi a última das grandes missões que sujeitaram pessoas a desafios insuportáveis. As máquinas não comem, não dormem, não amam, não sofrem de alucinações.
Passei boa parte da minha vida a acompanhar a epopeia da Quimera, a protegê-la do desinteresse, da indiferença, que os sucessivos donos do planeta demonstraram. Toda a gente fazia pela vida, uns tantos pelos lucros rápidos, não se reuniam vontades e recursos para missões de tamanho calibre. A investigação científica não parara certamente, mas, em muitas ocasiões, os orçamentos eram desviados para outros fins. Entretanto, os recursos da Terra esgotaram-se, o planeta ficou dividido em blocos completamente hostis, e ultimamente a Liga reformulou o Programa e nomeou um novo directório com metas precisas e pragmáticas: tirar proveito imediatamente. Este imediatamente é relativo: as duas naves que foram enviadas na direcção do primeiro planeta descoberto pela Quimera, apenas há pouco tempo haviam lá chegado. As primeiras informações e os primeiros resultados ainda vinham a caminho. Alimentava poucas dúvidas de que os estragos já deviam ser assustadores, pela quantidade de artilharia que transportavam.
O tempo decorrido no nosso planeta multiplicou-se várias vezes, comparativamente com o tempo decorrido no interior da nave; por conseguinte, eu sou, agora, um homem muito idoso. Vinte anos sobre mim se passaram e apenas cinco para os viajantes. Durante esse tempo a humanidade tem vindo a receber poucas notícias da soberba astronave Quimera. O mundo conhece algumas das extraordinárias descobertas que os seus tripulantes já realizaram, mas não conhece tudo e, muito menos, o termo da viagem. Digo o mundo, mas não é o mundo todo. Uma parte dele, bem maior, encontra-se completamente cortada deste lado onde vivo. Não sabeis, mas os vossos descendentes hão de saber um dia, o nosso planeta sofreu uma espiral de violência, que culminou num cataclismo ambiental de devastadoras proporções. A humanidade ficou cortada em duas partes desiguais em tudo. Deste lado governa o despotismo absoluto da Liga dos Accionistas.
Activo o holograma do comandante da Quimera. Em três dimensões é mais real, e estou a precisar de rever este indivíduo franzino, todo ele nervos, olhar inteligente e franco, com um sorrir quase infantil que gerava imediatamente confiança nos seus interlocutores de boa fé. Se em algum instante hesitei em escolhê-lo, foi com certeza pelo receio de que a sua ingenuidade fizesse dele um alvo fácil para os mais astutos. Contudo, o seu temperamento simultaneamente activo e reflexivo, fazia dele uma opção adequada. Tenho sob as minhas ordens pilotos excelentes que não sabem, porém, comandar uma pequena equipa de seres humanos, quanto mais a equipa numerosa e diversificada que habita a Quimera.

   Aliso novamente a barba, e isso sempre assinala em mim uma profunda indecisão. Pela enorme janela que separa o meu gabinete do exterior, vejo como a cidade se vai iluminando ainda em pleno dia. O tecto denso de nuvens cinzentas, feias, obscurece-a permanentemente. Nem uma ave, sequer solitária, passa nas alturas. Ponho-me a andar de um lado para o outro do compartimento, esfregando os olhos que me doem. Sinto-me muito fatigado, embora perfeitamente lúcido.
O relatório recebido é verdadeiramente insólito, provoca-me uma tal sensação de estranheza que me interrogo se estou realmente acordado. Certamente que encaro as mensagens de astronautas que rumam para o desconhecido com uma abertura de espírito quase total. Posso dizer que pouco me surpreende já, neste serviço que coordeno. Umas vezes são viagens com metas minuciosamente precisas, que resultam em coisa nenhuma; outras, resultam em perdas totais, tripulações que morrem subitamente ou desaparecem para nunca mais, tragadas por abismos sem retorno, esmagadas por meteoritos, queimadas vivas por radiações fulminantes. Homens e mulheres altamente treinados, seleccionados física e mentalmente com rigor, ou, raramente, viajantes intrépidos, informam de coisas e acontecimentos os mais incríveis, muitas notícias estão mesmo para além das previsões mais ousadas e, é claro, muito acima da compreensão do indivíduo comum; apesar disso, este relatório suscita-me uma inusitada inquietação, como se um engenheiro, um “prático” como eu próprio gosto de me apresentar, visse abanadas de repente as suas convicções. E sempre são oitenta anos de caminhada! Sinto uma mistura intensa de incredulidade e compaixão perante aquela visão fantástica de mundos contraditórios que coabitam no mesmo espaço-tempo contínuo mas, simultaneamente, colidem como se fossem frutos díspares e desavindos da mesma árvore misteriosa. Como se na realidade não existisse um único espaço-tempo, mas vários. Ou ainda, quem sabe?, como se não existisse nenhum. Nem sequer a própria realidade da qual apenas vejo códigos e símbolos matemáticos.
O estilo em que vem redigido o relatório, denota as certezas factuais do seu autor, mas contém, ao mesmo tempo, perplexidades, porque, se não revela dúvidas sobre os factos em si, transmite, porém, uma visível confusão de sentimentos: estupefacção, ansiedade, cólera e tristeza, estados de uma felicidade serena e rara, que se transformam, sem mediações, em pessimismo irrefutável. São, porém, as palavras finais que me perturbam.
Recebo a chávena de cevada que o robô confeccionou para mim, reclino-me confortavelmente, dirijo a mão para o intercomunicador com intenção de chamar o secretário e ordenar-lhe que envie imediatamente as cópias aos restantes directores, mas hesito, avalio as consequências e desisto definitivamente. Terei de aguardar mais umas horas, por isso coloco sobe os ombros o blusão standard que me identifica, cerro o gabinete com o código pessoal, percorro o longo corredor com passo lento mas tranquilo, respondo com cordialidade formal aos cumprimentos que me fazem os meus subordinados, meto-me no elevador que, em poucos segundos, desce cinquenta andares, e saio para a ampla praça que circunda o Instituto.
A atmosfera pesa como chumbo. Árvores mirradas lutam com dificuldade para se conservarem vivas. A relva, pelo contrário, reverdece e reverbera com um brilho desagradavelmente metálico. Escassos transeuntes atravessam a praça rapidamente, curvados e absortos.
Dirijo-me para o café mais próximo, com uma esplanada triste, um empregado que parece do outro mundo, e um enorme televisor que transmite um concurso idiota que oferece um lote de acções a quem engula uma mão cheia de moscas. Deixo-me ficar no exterior, bebericando um martini e folheando os jornais e revistas que ali mesmo se vendem. Sinto fome e peço uma sanduíche com queijo. Sabe a plástico, desde que extraíram toda a gordura ao queijo. Gorduras só de contrabando.
Por fim, consulto o relógio, pago e regresso ao gabinete.
    Leio novamente o longo texto, agora com atenção redobrada, procurando quaisquer sinais que, à primeira leitura, me houvessem escapado, daquelas tristemente célebres alucinações de que eram vítimas as tripulações submetidas a longas viagens. Tudo na biografia do comandante da nave, porém, me incutia confiança. John Dos Santos, de origem portuguesa e que  tinha precisamente trinta anos quando fora escolhido para aquela missão, fora  o mais brilhante dos jovens oficiais aviadores da sua geração. Além de qualidades indiscutíveis de comando, possuía já uma extensa informação em diversas áreas, e uma têmpera moral que conciliava perfeitamente a disciplina com a liberdade de decisão. Não encontro motivos para suspeitar da credibilidade do relatório: o meu subordinado participara evidentemente em tudo aquilo que descrevia. No entanto, a chegada já pouco provável da nave e a escassez de provas concludentes anexas ao relatório, tornavam muito difícil a tarefa de convencer também os outros membros do directório. É certo que Dos Santos não envia, ou não enviava, um apelo de auxílio , contudo o silenciamento súbito do computador, e o mistério por revelar da travessia do "túnel” do tempo, impõem medidas urgentes. Por conseguinte, ordeno, por minha conta e risco, ao pessoal do cosmódromo, para preparar imediatamente a melhor das naves para uma missão de longo curso. Não sei ainda o que irei fazer, mas, nesta altura, não congemino outra atitude senão efectuar uma missão de resgate da nave Quimera.
 O relatório do comandante Dos Santos foi-me chegando por partes; a cada viagem, digamos assim, corresponde um relato, de cada vez ele enviava um. No entanto, o texto que passo a transcrever é mais que um mero um somatório de todos eles, correspondendo o último àquele que acabei há poucas horas de receber: o autor enviou-me um relato completo e pormenorizado, em linguagem codificada, cuja chave apenas eu conhecia, porque exactamente fora combinada entre nós os dois há cerca de dez anos atrás, quando a Terra se encontrava em plena convulsão. O Directório, isto é, o actual, conhece somente uma pequena parte, já interpretada por mim, ou seja, apenas aquilo que eu achei conveniente. Refiro-me, por exemplo, às reflexões pessoais do comandante e às peripécias da sua vida íntima.
Ei-lo na íntegra:

       “ O que passo a relatar, o mais rigorosamente possível, irá constituir com toda a certeza uma dos mais prodigiosas revelações observadas pelas naves Quimera, se não mesmo a mais assombrosa. Informo, desde já, que perdemos metade da tripulação, nove homens e cinco mulheres; quatro  faleceram em acidentes ou por doenças para as quais não se encontravam imunizados e cujas causas não conseguimos sequer diagnosticar; os restantes resolveram permanecer em alguns dos planetas visitados e não houve maneira de dissuadi-los.  Não penetrámos ainda no “túnel” que permitirá (?) atingir a Terra praticamente num instante; verificaram-se consequências imprevistas, que eu classifico de dramáticas, passam-se ainda fenómenos insólitos e perturbadores, tanto no interior da nave como no espaço-tempo circundante; apesar de não conhecer ainda as causas e ignorar quando e como as venceremos, julgo com certeza absoluta que estão relacionadas com a proximidade do “túnel”. Entretanto, enquanto aguardo, utilizarei extractos do diário de bordo. Se acaso nos salvarmos, não virá a ser por meios próprios, pois que, de certeza absoluta, não os possuímos. A salvação só poderá vir deles. Se eles o quiserem.









Primeira Viagem - O Planeta cortado ao meio


  Como é do vosso conhecimento o nosso destino principal era a estrela binária Alfa de Centauro, a 4,3 anos-luz de distância , embora levássemos ordens no sentido de viajar até um máximo de dez parsecs.
O primeiro planeta visitado foi descoberto dois anos antes. Possui três vezes o diâmetro da Terra, um oceano apenas, embora de vastíssimo comprimento pois que divide este mundo em dois continentes, fechando um círculo completo. O continente “Ibéria” ( atribuímos este nome porque se assemelha em certos aspectos à nossa Península Ibérica) é acentuadamente menos povoado que o outro, o qual designámos por “Ameríndio” pelas suas semelhanças com as terras dos nossos antigos ameríndios – aproximadamente dez milhões de indivíduos no primeiro, sendo que o segundo é habitado por cerca de vinte milhões. O clima de “Ibéria” é mais seco do que o “Ameríndio” e, em nenhum deles, se conhece formação e queda acentuada de neve, excepto nos picos das mais elevadas montanhas. Quando, porém, nós fabricámos artificialmente gelo e neve, para os impressionar, eles riram-se, informando que há milénios que transportam neve para as cidades ( adoram gelados!).
De facto, ambas as civilizações, da “Ibéria” e da “Ameríndia”, existem há um milhão e meio de anos. Corrijo: segundo os nossos cálculos (tarefa de que se incumbiu o antropólogo e o nosso computador Jacques) o planeta é habitado por vida inteligente há dez  milhões de anos, pelo menos, e por duas etnias que derivaram de uma única matriz, há nove milhões e meio de anos (medidas em anos terrestres, claro está): a etnia azul que habita a “Ibéria” e a outra, roxa, que ocupa a “Ameríndia”; sucederam-se, todavia, diversas civilizações, sempre muito semelhantes entre as duas margens do oceano Kómos ( como é designado), que alcançaram há um milhão de anos aproximadamente um alto grau de desenvolvimento, quando ainda na Terra não haviam emergido os primeiros humanos! Poucos vestígios desse tempo restam, excepto ruínas cobertas de vegetação silvestre, pois que há quinhentos anos atrás quase todos os habitantes, de ambas as margens, foram dizimados por uma pandemia. A seguir a uma profunda estagnação, recuperaram uma indústria artesanal, limitada à produção do estritamente básico. Nos últimos tempos,  porém, e foi esta a situação que encontrámos, a vida de ambos os povos tem passado a pautar-se por regras diametralmente opostas.
O “iberos” não fabricam armas, sendo mesmo punido com escravatura todo aquele que as comercialize. Os “iberos” ( que na realidade se designam por Alkómos, o povo- do- mar) vivem em uma dúzia de cidades, e têm como capital uma importante urbe de um milhão de habitantes, Liskómos, ou seja “cidade do mar”; os “ameríndios” ( designados por AlKómor, que traduzimos por povo-do-monte-Kómor, o mais elevado, com cerca de quinze mil metros), pelo contrário, agrupam-se, ou amontoam-se,  em miríades de aldeias miseráveis e em duas grandes urbes, com palácios sobre as colinas e bairros insalubres em baixo; as habitações dos “iberos” são individuais, cada indivíduo possui a sua própria casa, não se constituindo em casais estáveis ou famílias; os outros, residem cada vez mais em enormes habitáculos comuns, abandonando gradualmente as suas residências individuais.
Os “iberos” envergam indescritíveis vestuários, tal é a sua extrema variedade, no corte e na cor; os “ameríndios”, pelo contrário, tendem cada vez mais a vestir-se por igual, servindo-se em grandes armazéns públicos, onde em lugar de moeda utilizam uma espécie de fichas rudimentares, nas quais as despesas se vão abatendo do montante que elas comportam ( deste modo são perfeitamente vigiados); os “iberos”, pelo contrário, esbanjam dinheiro ( uma espécie de contas de vidro) sem qualquer apego e contabilidade.
O povo da “Ameríndia” é profundamente religioso, praticando uma única religião, caracterizada pela crença num Deus que tomam como criador e Rei, do qual aguardam a todo o momento a chegada ao mundo para oferecer-lhes mil anos de felicidade, mas após uma apocalíptica guerra santa; no outro continente, porém, todas as crenças são permitidas, encaradas mais como jogos de imaginação, visto que competem entre si, com grande entusiasmo, pela fábula mais bem conseguida.
 Não é difícil agora perceber, ou começar a perceber, que os “ameríndios” desprezam e odeiam mesmo os indígenas da outra margem, e durante as primeiras semanas depois que chegámos à terra dos segundos, fomos por estes informados de determinados actividades conspirativas por parte dos “roxos”, que indiciavam preparativos secretos para uma invasão através do oceano– já integrada neste propósito, assistimos à difusão de estranhas doenças que passamos a descrever: ataques de melancolia aguda, surtos de atitudes de contemplação apática ( cretinice, julgamos nós, com paragem do fluxo da consciência), indivíduos que, subitamente, pareciam adormecer com a cabeça sobre o umbigo, sem que nada os conseguisse fazer acordar de novo; outros, sem aviso, irrompiam a cantar com os olhos em alvo e as mãos abertas, ou então, rojavam-se no solo e beijavam o pó com aparente delícia, e esforçavam-se por lamber os sapatos dos transeuntes que os olhavam estupefactos; finalmente, e isto é encarado como um dos piores males, um número crescente de “iberos” recusava teimosamente praticar o coito, sob qualquer forma, deambulando completamente tapados; por enquanto, pelo menos no período em que lá estivemos, não se verificava diminuição na vontade e na capacidade de trabalho, embora as reivindicações de alguns pela introdução de intervalos sucessivos para “meditar”, começassem pouco a pouco a produzir prejuízos. Estas doenças, ainda sem carácter epidémico, são causadas por insectos que transportam substâncias tóxicas– moscas, abelhas e, sobretudo, mosquitos.  As suspeitas conduziam claramente para a responsabilização dos “ameríndios”, na medida em que estes consideram sagrados estes animais, cuidando deles em locais reservados dos seus templos e andando sempre acompanhados por um enxame de moscas ( é claro que os suspeitos negam qualquer intenção criminosa, desculpando-se com o facto de os enxames poderem atravessar perfeitamente o oceano; os “iberos” argumentam que tal seria impossível por causa dos violentos ciclones que varrem o mar). Pelo nosso lado, admitimos sem hesitação que a hostilidade dos “roxos” esteja a traduzir-se por ataques cada vez mais agressivos, não através de armas convencionais ( que eles não sabem produzir) mas por meio de animais treinados, por exemplo as tais famosas “moscas de Deus”.
  Quando “aterrámos” no planeta o que mais nos surpreendeu foi a organização anatómica dos indígenas, que são de elevada estatura, completamente calvos ( excepto as “fêmeas” que exibem umas trunfas no cocuruto dos crânios), dispondo, aliás, de mui rara pilosidade mesmo nos órgãos sexuais; estes localizam-se na zona do que é em nós o ânus ( este, por sua vez, situa-se na zona dos nossos órgãos genitais, em ambos os sexos, pois as “mulheres” não urinam pelo orifício vaginal mas, antes, pelo “ânus”); as nádegas são à frente, correspondendo ao nosso baixo ventre, os órgãos mamários por cima da vagina, o  correspondente à parte superior das nossas. Os aborígenes ( referimo-nos apenas aos Alkómos) praticam o coito deste modo: o “macho” senta-se literalmente sobre o baixo dorso da “fêmea”, a qual se coloca em posição completamente horizontal, e assim permanecem longo tempo, grande parte do qual em imobilidade quase total, excepto no clímax. Este povo é muitíssimo liberal. Amiúde, pelos jardins e parques públicos, ou no espaço relvado em frente das vivendas individuais, topam-se com casais nessas posturas, sem que os outros prestem a mínima atenção, excepto os garotos que desatam a rir sem malícia.
  Tendo pousado na faixa litoral da “Ibéria”, fomos recebidos por uma pequena multidão que já nos aguardava. Como souberam?
 Uma delegação composta por dois “homens”, chefiados por uma “mulher”, dirigiu-se-nos com gestos descontraídos e cordiais. Não entendendo a língua local, começámos por utilizar a “linguagem universal”, fabricada, como sabe, para estas eventualidades; entretanto, o computador analisou a estrutura da linguagem indígena e, rapidamente, podemos passar à comunicação real. A delegação encaminhou-nos tranquilamente para uma esplêndida carruagem, um coche melhor dizendo, atrelada a um par de extraordinários animais apoiados em seis patas cada um, de caudas felpudas enormes e magníficas, ajaezados de ouro e prata. Aliás, o nosso espanto começara logo quando enfrentámos, no solo, a aparência física dos nossos hospedeiros. A “mulher”, sobretudo esta, deixou-nos uma impressão agradável, pela sua elevada estatura, olhando-nos de cima com os seus três olhos imensos e rasgados, as íris muito negras, brilhantes como carvão incandescente, uma estreita faixa de tecido cor de ouro envolvendo-lhe os rins, os longos e rijos mamilos soerguendo-se a cada movimento, as coxas monumentais esbeltas, o sexo resguardado por uma espécie de biquini todo feito de rendas ( o estilo e a cor variam muito); a voz, que saía de uma boca relativamente pequena cujo lábio superior é mais grosso do que o outro, era deveras melodiosa, assemelhando-se a uma área de Verdi. Toda a tripulação da Quimera ficou completamente fascinada por tal soberba criatura. Beatriz, por exemplo, mostrar-se-ia inibida, quase que intimidada, na presença dela, durante o tempo em que permanecemos neste planeta.
  Atravessámos uma extensa avenida, ladeada de árvores semelhantes a faias. De quando em vez um casal de namorados acenava para nós com tranquila confiança. Separaram-nos, à chegada, cada um numa vivenda ; não encarámos isso como uma ameaça. Eram casas com tectos bastante altos, de tamanhos muito idênticos, embora de arquitecturas diversificadas ( consoante o gosto de cada um), dispondo de todo o conforto, um mobiliário semelhante àquele que os nossos antigos romanos usavam. Aconselharam-nos a comer nos restaurantes públicos, tecendo destes os mais rasgados elogios; se preferíssemos cozinhar nada faltava naquelas cozinhas, sobretudo peixe, ovos e queijos genuínos e variegados. O oceano é rico em pescado, principalmente em determinadas espécies muito procuradas, muito semelhantes umas com os nossos polvos e chocos mas de dimensões avultadas e, outras, por exemplo, a lembrar os nossos bacalhaus e atuns ( vimos “atuns” de cinco metros de envergadura!). O oceano é o reino de espécies extremamente agressivas, como iríamos ter oportunidade de verificar, mas igualmente doutras muito dóceis.
  Após repousarmos uma noite e um dia reuniram-nos e fomos conduzidos a um dos muitos espaços cívicos de convívio: edifícios amplos de madeira envernizada, com cúpulas elevadas de vidros multicolores, aprazíveis e mui agradáveis à vista, recheados de conforto, divãs de diversos tamanhos, balcões compridíssimos onde os utentes se serviam de bebidas, quadros de cores muito fortes figurando o corpo e o oceano, esculturas por todo o lado. Aquela gente mostrava uma curiosa adoração pelo corpo, isto é, pelas representações do corpo, sendo o nu um tema muito recorrente. Não deparámos nunca, nesse tempo, com multidões compactas, excepto aquela que nos recebeu ou aquela outra que festejou o nosso ulterior e aventuroso regresso  da terra dos “ameríndios”, um mês terrestre depois. Naqueles centros escutava-se música, tocada com instrumentos muito curiosos ( fabricados com madeiras preciosas, peles, ossos e tendões de animais, conchas e búzios marinhos, de tamanhos variados - alguns deles , parecidos com as nossas trompas, mediam vários metros de comprimento), toadas muito harmoniosas que provocavam neles, e até em nós, sensações, tanto de serena quietude como de apetite de dançar, canções alegres ( cujas letras, quando mais tarde as conseguimos entender, eram muito engraçadas, quero dizer pícaras, embora com estilo nem sempre cuidado), cantigas ao desafio que arrebatavam plateias entusiásticas, improvisações ao vivo de composições ( atracções muito procuradas naquele povo que tão alegre nos pareceu sempre). Apreciavam também muito o teatro satírico e burlesco, ao ar livre em largos anfiteatros.
Convidaram-nos a sentar à volta de uma enorme mesa de mármore (um belo mármore rosa), ofereceram-nos uns gelados absolutamente divinais, enquanto fomos escutando as explicações dos nossos hospedeiros.
- Bom, falemos então dos nossos mundos! – Julgo que foi mais ou menos isto que disse a ministra Thuulipa. O som da sua voz era quase inaudível, doce e suave como de uma harpa, era o seu olhar luminoso que se cravava fixamente em nós, que tudo dizia. Aqui e acolá conseguimos entender que a população trabalhava apenas da parte da manhã todos os dias da semana ( evidentemente que o calendário deles é bem diferente do nosso! Desconhecem, por exemplo, os nossos fins-de-semana, sendo que os dias dividem-se em semanas “úteis” seguidas de semanas de lazer, sempre assim, ininterruptamente; um dia deles corresponde a dois dos nossos; não fazem férias por ano), ocupando-se na agricultura, na pesca e no artesanato.
 Após um lauto almoço ( eles, pelo contrário, alimentam-se muitas vezes por dia, transportando sempre alimentos consigo ou servindo-se do que quer que encontrem pelos campos ou nos quintais individuais, onde cada um deseja que os vizinhos apreciem as suas culturas imaginativas) levaram-nos a visitar a província. Várias quadrigas bastante confortáveis rodavam em fila. As estradas não são alcatroadas mas de terra amarela e poeirenta ( nas cidades utilizam a pedra).  As pontes são rústicas, de granito e madeira. Os terrenos são divididos por muros baixos de pedra cobertos de silvas, a propriedade é individual mas administrada cooperativamente, a produção é recolhida através de carroças gigantescas puxadas por mulas colossais. Digo que a propriedade é individual no sentido da palavra, ou seja, não é “familiar” como costumamos dizer, visto que aqui não se constituem famílias, nem nucleares nem muito menos alargadas, cada um, “homem” ou “mulher”, possui uma parcela, seja de terra, seja de uma oficina; a comunidade vigia para que esta distribuição, que remonta há um século atrás, se conserve intacta e obrigatória, nem mais nem menos. Determinadas terras aguçaram-me a atenção e tendo-os interrogado responderam-me que pertenciam às vilas, para nelas os seus habitantes pastorearem os seus gados em conjunto.
Não pude resistir ( a temperatura era tão amena, a estrada poeirenta trazia-me lembranças de tempos longínquos...) a observar de esguelha a bunda saliente da minha hospedeira-chefe, os seios mal disfarçados sob uma estreita faixa de seda, a pilosidade rala, as coxas esplêndidas, os pés muito longos mas muito finos, calçando sandálias de tiras, os lábios vermelhos grossos e tão sensuais que me faziam evocar a boca de certas mulheres africanas. Ela respondeu-me com os três olhos incandescentes, sorrindo, como se adivinhasse os meus pensamentos. Nesse instante percebi que ela era telepata! Surgiu-me de repente esta hipótese como uma mera intuição, e mais tarde pudemos investigar esses formidáveis poderes.
  As culturas são muito variadas: pomares breves, nas traseiras das habitações, ou extensos campos de trigo, de milho, de arroz em zonas inundadas. Parámos mais do que uma vez, para admirarmos abóboras, melões e melancias rotundas, cerejas gostosas e pêras, pêssegos nas terras altas e, junto ao litoral, laranjas e limoeiros, enfim abrunhos, uma espécie de ananases minúsculos, aos molhos, saborosos. Via-se pouca gente àquela hora da tarde, labutavam de manhã muito cedo: então a água correndo festivamente pelos regos e canais trazia para as nossas narinas uma frescura bucólica que somente um poeta poderia reproduzir adequadamente. O gado muar pastava pacificamente e corpulentos felinos domésticos corriam atrás de perus do tamanho das nossas vitelos, incapazes de voar.
As estradas litorais ( refiro-me ao oceano, pois que existem também muitos e grandes rios e lagos; este povo habita quase somente nas zonas ribeirinhas) são deslumbrantes: correndo sobre terra firme ou serpenteando entre as dunas, sem fim, percorrendo todo o círculo longitudinal do planeta, oferecendo constantemente praias espectaculares, providas de portos  repletos de gente e de mercadorias. Assustámo-nos um pouco quando assistimos, da praia, à emersão de autênticos gigantes do mar, da altura de um prédio de vinte andares, mamíferos de cabeças mui pequenas, quase pueris, num pescoço incrivelmente elevado, com uns tranquilos olhos bovinos fixados em nós... “ Temos de ter muito cuidado com os Brufos quando navegamos!”, disseram-nos, “ E com os Najos! Um pequeno barco pode ficar gravemente danificado se chocar com eles, além dos ferimentos que causa no pobre animal!”. Estes animais marinhos, ou melhor, anfíbios, são compostos de uma cabeça semelhante a um hipopótamo num corpo de cachalote com quatro patas com membranas; são também herbívoros e tanto pastam no fundo oceânico como nos pântanos do litoral; são tão pacíficos que os indígenas levam os seus filhos a passear sobre eles .
  Nos portos maiores recolhem-se navios colossais, embora primitivos comparados com os nossos, tanto de pesca e transporte, como de cruzeiro – os indígenas adoram fazer cruzeiros. São construídos de madeira com velame de tela grossa. Pelas manhãs bem cedo, a azáfama é intensa à chegada do pescado: gritam, barafustam, regateiam, protestam, mas acabam por comprar e todos ficam satisfeitos - há qualquer coisa de pueril naquele povo! E que risadas, que graça semeiam , contando anedotas cujo humor lamentavelmente não captávamos! As cenas que eles adoram representar no dia a dia superam as nossas melhores comédias.
  Quase todo o mundo sai à noite. O costume deles de se deitarem tarde e levantarem-se cedo ia arrasando comigo. Regulavam-se por uma moral absolutamente hedonista. Pareciam haver descoberto o ponto de gravidade entre o código civil e o código natural. Todas as actividades iniciam-se pela madrugada nas semanas úteis. Não possuem satélites, giram mais lentamente, e não dividem o tempo como nós: “ficcionam” um período que corresponde a dois anos dos nossos aproximadamente. Os invernos são curtos ( na outra “margem” em lugar deles existe uma época de chuvas abundantes). O divertimento nocturno que eles preferem é um género de ópera: sobre grandes palcos circulares  ao ar livre, colocados no centro de uma vasta multidão, desenvolvem cenas do quotidiano, utilizando intercaladamente o canto e a récita como se faz em algumas óperas de Mozart. Escutei sopranos e tenores que em nada ficavam a dever aos nossos mais lendários, sendo apenas diferentes os libretos, pois que não abordavam temas como os nossos Rigoletto, Aida ou Otello, os assuntos das nossas óperas oitocentistas em geral eram-lhes completamente alheios. Quando dei a alguns oportunidade de escutarem gravações de óperas célebres, como  a de Nabucco, ficaram autenticamente em êxtase, embora as grandes cenas nelas narradas não lhes tocassem particularmente a sensibilidade – não conheciam a escravatura ( em rigor já não se lembravam!), os abusos caprichosos de nobres ociosos ou os tormentos de uma Madame Buterfly...O mais característico naquele povo é uma espécie de adoração que manifestam pelos sentidos, o ouvido particularmente é cultivado com desvelo ( como costumam dizer: “As orelhas também aprendem!”).
Todos se passeiam pelas alamedas arborizadas, emolduradas de bancos de madeira, param aqui e acolá escutando as cantigas ao desafio, as prédicas de oradores inflamados que os admoestam pelos actos considerados mais nocivos à sociedade, ou apelam, com grandes doses de retórica, a produzirem mais filhos ou a diminui-los pelo contrário. Não existe povo tão libérrimo, tudo se permite, e quem discorda pode exprimi-se à vontade, ali ou nas casas de cultura. Os restaurantes enchem-se ( os indígenas parecem aborrecer-se de comer sozinhos, embora sejam individualistas com a habitação), bebe-se muito, sobretudo uma espécie de sumo de ananás alcoólico que nos permite esquecer completamente um dia menos feliz. Nos relvados, por entre variedades exóticas de faias e ulmeiros, repousavam lavradores, artesãos, pescadores ou marinheiros, casais faziam amor, as “mulheres” com os ventres sobre mantas muito finas que lembravam capulanas, os “homens” como que sentados em cima...aves pululavam nos ramos, bebericando nos lagos artificiais, gatunando pedacinhos de biscoitos de arroz, pardais, pombas e rolas, toutinegras e melros.
As indígenas não pareciam mostrar especial interesse por nós humanos do sexo masculino, deviam achar-nos demasiado pequenos, demasiado frágeis nos nossos fatos militares de verão, demasiado feios com os nossos dois olhos e as nádegas traseiras, embora retribuíssem os cumprimentos e parecessem agradadas com a presença da nossa “ministra”. Ela era, de facto, a responsável principal pelos programas de cultura e lazer públicos, e era muito bela... As indígenas praticam o sexo indiferenciadamente com “eles” e “elas”; os “homens”, para além das suas conterrâneas femininas, namoram os adolescentes ( nos recantos dos jardins encontrávamos amiúde pares de adultos e de efebos, de mãos dadas), como na antiga Grécia.
  Este povo possui os mais variados templos de culto para as mais variadas crenças, sejam pequenos edifícios de mármore circulares com cúpulas em forma de funil, de cujo orifício cimeiro sai constantemente um fumo de um azul celeste cheirando a flores silvestres, sejam imponentes construções cobertas cada uma por um terraço horizontal que servia para um jardim suspenso, numa rica paleta de cores e intensamente odorífero. Nestes terraços existem altares ao centro sobre os quais fazem libações e cantam odes muito brejeiras dedicadas aos sátiros. No interior dos primeiros as mulheres prestam culto à divindade do Perfume; nos últimos, homens e mulheres veneram e agradecem às divindades da Natureza. Existem ainda templos dedicados ao Amor, mais exactamente ao Prazer e menos à procriação; aí os amantes confessam o seu amor por alguém a uma matrona muito qualificada, que se esforça por orientá-los nos doces e dolorosos meandros desse sentimento. Apercebi-me, porém, que se praticam muitas outras religiões, digamos populares, nas quais a telepatia é utilizada como instrumento de adivinhação do futuro; nestes locais muito reservados o serviço é bem pago por quem dele necessitar.
 Não sei se é pelo facto de serem extremamente individualistas em determinados aspectos, mas o certo é que recusam falar na morte, exorcizam-na de todos os modos, pelo silêncio, pelo esquecimento, ou por complexos mecanismos de sublimação. Os funerais são basto tristes, embora sem carpideiras e ladainhas e procura-se que passem completamente desapercebidos.
  Reconduziram-nos às vivendas respectivas.
Nessa noite, quando me preparava para me deitar, calmo e quase feliz, tive a grata surpresa de ver entrar pela porta dentro ( não existem fechaduras) a “ministra” da cultura! Tentei imediatamente oferecer-lhe uma bebida ou uma ceia se ela desejasse provar os nossos petiscos, mas ela recusou amavelmente, prometendo que prová-los-ia com certeza muito em breve; não sou propriamente um ingénuo, por isso rapidamente apercebi-me que outro objectivo a conduzia aos meus aposentos...provavelmente movida pela curiosidade feminina, que parece ser universal. Suspeito que ela descobriu facilmente, por telepatia, que Beatriz ainda não tinha regressado de uma tertúlia. Em suma, e para encurtar o relato de episódios deste género, mas para que sejam registados – nenhuma informação relevante deve ser omitida – digo que Thuulipa ( assim se chama, assemelhando-se no som à palavra portuguesa “túlipa” e que, na língua local, significa Thuul - o nome da estrela maior- e iipá, que se pode traduzir por “inteligente”)- me envolveu, após uma breve troca de gestos expressivos como se perguntasse se eu me encontrava “disponível”, nos seus longos braços de medusa, acariciou-me com os seis dedos de cada mão, fixou-me com a sua belíssima trindade de olhos negros e atirou-me literalmente, embora com suavidade ágil, para cima do seu dorso. A visão da sua peça de roupa íntima, de rendas sedutoras, foi mais forte do que qualquer resistência que eu pudesse oferecer ( é evidente que “em Roma sê romano”). Foi nessa altura, ou a seguir ao acto, que me espantei ao verificar que “elas” possuem um clitóris pelo qual sai uma substância licorosa e deliciosamente perfumada! Por outras palavras: elas são, quando querem, hermafroditas! Mais um elemento a juntar aos outros que revela como elas dispensam os “homens” sempre que querem, ou seja praticam o coito umas com as outras. Informaram-nos que, todavia, os filhos são gerados por meio de acasalamentos “normais”.
Para finalizar este episódio devo afirmar que a “ministra” era tão sensual como qualquer das mulheres, humanas ou não, que conheci: qualquer intervalo durante o trabalho servia-lhe para o efeito. Talvez isto explique porque razão elas são visivelmente tão serenas, suaves, autoconfiantes. É essa, pelo menos, a opinião da nossa psicóloga, Sânia. Adianto a propósito que a Sânia mostrou-se à altura dos acontecimentos. Aprendeu, por exemplo, os mecanismos psíquicos da telepatia e a praticá-la com eficácia. Aceitei docilmente ser a primeira “vítima” da sua manipulação telepática. Eu próprio exercitei com ela e tenho prosseguido os meus exercícios durante esta longa viagem de regresso. É perfeitamente possível “lermos” alguns pensamentos, no meu caso talvez os mais óbvios mas, no caso do povo que descrevo, é notavelmente fácil para este adivinhar os conteúdos das nossas motivações e atitudes. Registo, a título de exemplo, que, numa certa ocasião, podemos evitar uma atitude tresloucada por parte de um dos nossos tripulantes (omito o nome porque o caso foi ultrapassado), quando ele se preparava para ripostar a tiro contra um aborígene que pretendeu “violá-lo”; foi a nossa Sânia que lhe retirou imediatamente a arma. Só lamento que haja sido ela uma das que decidiu residir na “Ibéria”...tanto quanto adivinho julgo conhecer a razão. Enquanto nós utilizamos sensores sofisticados para detectar as motivações de um indivíduo, e nem todas evidentemente, aquela gente, ou uma boa parte dela pelo menos, realiza esse procedimento quase por instinto, e com eficácia mil vezes superior. Não apenas “lêem” o nossos interior, como comunicam enter eles por esse meio; isto é, enquanto nós utilizamos telemóveis, eles comunicam telepaticamente.
A máquina do Estado é constituída por uma imperatriz com poucos poderes, por um Senado ( utilizo estas designações porque me parecem mais compreensíveis) cuja maioria é composta por mulheres, representando as diversas cidades ( única organização administrativa), por tribunais e por um corpo de “vigilantes”- desarmados- que velam pela segurança pública. Grande e belo é o edifício do Senado, localizado na capital sobre uma formosa colina. Em todo o tempo em que lá estivemos, não chegámos a pôr os olhos em cima da imperatriz, provavelmente por ser muito idosa, recebendo dela apenas alguns recados de circunstância através de mensageiros muito bem engalanados.
  Durante o longo período de estagnação que suportaram antes, limitaram-se ao estritamente necessário para sobreviver; destruída toda a organização antiga, falida a economia, ameaçados pelas epidemias, dispersaram-se pelas zonas costeiras, para evitar a propagação das doenças, tornando-se pouco a pouco ferozmente individualistas, as mulheres principalmente, visto que dispensam os homens se o quiserem. Agarraram-se às courelas ou aos barcos que sobraram da hecatombe. Deste modo conservam ainda a pequena propriedade, a habitação individual. Quando a ameaça desapareceu e as cidades recomeçaram a erguer-se , decidiram evitar os custos medonhos do modo de vida antigo. Estabeleceram um pacto entre eles, através de grandes concílios, algo a que poderíamos chamar de “contrato”, cujas cláusulas são mais ou menos as seguintes:
“ Art.º 1º -  O contrato social que os cidadãos de Alkómos decidiram estabelecer, através de consulta directa, é uma forma de associação que protegerá de todo e qualquer tipo de força a pessoa e os bens de cada associado.
Art.º 2º -  A propriedade dos cidadãos deve ser tão pequena e tão fraca quanto possível; o Estado vigiará para que os limites não sejam ultrapassados. Os cidadãos, porém, podem, sempre que o entenderem, colher e recolher em comum os frutos do seu trabalho, mantendo-se porém intacta a propriedade individual. O Estado representa a vontade geral; aquele, todavia, não pode expropriar os bens dos cidadãos, excepto quando algum não respeitar o contrato social que jurou. No caso dos cidadãos se unirem para o fim específico acima definido, não podem utilizar, pela força ou por compra, o trabalho de cidadãos que não pertençam à união específica referida.
Art.º 3º - Ficam estabelecidos pela lei os limites impostos à dimensão das oficinas e à quantidade dos combustíveis que consomem. As oficinas ficam sujeitas ao regime específico das uniões agrícolas e piscatórias, para efeitos de trabalho empregue. A finalidade deste contrato é impedir que haja gente opulenta e gente andrajosa e dominada.
Art.º 4º -  O contrato não prevê a necessidade de forças armadas permanentes de qualquer género. É a própria comunidade que se levanta em armas quando necessário e que se constitui como milícia.
Art. 5º -  O órgão supremo, o Senado, não admitirá jamais senadores, ou outros cargos, de carácter vitalício. O dito senado, composto por delegados das cidades com mandato de um ano não prorrogável, obriga-se a consultar periodicamente todos os cidadãos através de referendos. Os tribunais deverão punir com prioridade absoluta qualquer senador que transgrida as cláusulas deste contrato. A imperatriz, com direito a sucessão dinástica, não detém poder algum sobre o Senado e os tribunais, cingindo-se aos deveres honoríficos de representar nela o respeito devido às cidadãs do sexo feminino.
Art. º 6º - A administração do Estado não pratica nenhuma confissão religiosa, e a formação de uma crença religiosa particular com poderes políticos, culturais e territoriais, não será permitida.
Art.º 7º -   É ao Senado que incumbe escolher o governo e a restante administração do Estado, excepto os tribunais cujos juizes são eleitos pelos cidadãos da cidade em consulta directa. Os senadores são eleitos por sufrágio universal; dos candidatos é eleito aquele que tiver maior número de votos. Os cidadãos para a votação determinam-se, em primeiro lugar, pelo grau de satisfação que lhes causar aquele projecto e aquele candidato, que melhor resistirem às sátiras levadas ao palco no decurso do período de campanha eleitoral consignado pela lei.
Art.º 7º - Não existe coisa alguma intocável pelo teatro satírico, ideias, pessoas, instituições. A sátira é elevada à categoria de modalidade artística suprema, merecendo todo o apoio do Estado, a quem cabe o sustento de autores e actores. O melhor autor será consagrado como herói de Alkómos durante o período consignado entre dois concursos. O herói e os melhores actores, quando morrem, são enterrados na colina do Panteão nacional, em Liskómos.
Art.º 8º - Todo o cidadão que reagir com brutalidade a um sátiro será punido nos termos da lei.
Art.º 9º -  Tudo o mais que não for expressamente proibido é permitido, nos termos deste contrato e conforme as consultas directas periódicas aos cidadãos de Alkómos.
Art.º 10º -  Este contrato não pode ser revisto no todo ou em parte excepto por vontade expressa das assembleias populares.”


A “Ameríndia”


  Ao fim de algum tempo resolvemos viajar até à outra banda, à “Ameríndia, ou terra dos “roxos”. A nossa decisão foi compreendida pelos nossos hospedeiros, mas avisaram-nos de alguns cuidados a tomar. Assim sendo, precavemo-nos: a nave-mãe, Quimera, ficou em alerta máximo para nos prestar socorro imediato, com ordens para disparar se necessário, e servimo-nos de uma cápsula de transporte.
 Partimos numa fria madrugada. A cápsula atravessou vagarosamente as duas margens, sobrevoando numerosas ilhas, a maioria de pequenas dimensões, abrigo temporário de pescadores. Estacionámos aí por um dia deles, ou seja dois dos nossos ( servia-nos de preâmbulo para o que quer que viéssemos a encontrar no continente). Esse tempo bastou para que nos apercebêssemos das diferenças que começavam a cavar-se entre aqueles povos, ou etnias. Os “iberos” continuavam ali a conduzirem-se como na terra de origem; os outros, pelo contrário, labutavam todo o dia e dividiam-no em períodos para rezas, afluindo em grandes procissões aos templos ; construíam as suas casas comuns sempre viradas na direcção da cidade santa , caminhavam pelas ruas com o livro sagrado na mão, parando constantemente para o lerem em silêncio ou declamarem-no; dedicavam-se principalmente ao comércio, muito embora o dinheiro seja entre eles proibido, excepto as tais fichas que depositam em bancos, emprestam-nas com juros (sobre outras fichas), vendem-nas no mercado negro, onde também especulam sobre tudo e mais alguma coisa. Não usufruímos do mínimo de simpatia, as mulheres escondiam os rostos em espessos véus negros e apenas um ou outro carregador ou moço de fretes, nos prestava alguma atenção disfarçada.
 Chegados ao continente, estas características repetiam-se: as “mulheres” vestem-se da cabeça aos pés, sendo as cores escuras as mais comuns, e usam sob os rostos uma espécie de lenços ; apesar disso, muitas exibem três olhos negros muitíssimo belos e os pés nus em sandálias de tiras tornam-nas bastante apetecíveis. Ninguém nos recebeu, nem com honras nem sem elas. Tivemos de nos desenvencilhar sozinhos. O pior, no início porque aconteceriam depois coisas mais graves, foi com o alojamento: nas casas comuns, habitadas por numerosas famílias, nessas não nos deixaram penetrar ; por fim, servimo-nos das nossas tendas portáteis. Os transportes eram insuficientes para uma população que crescia a olhos vistos: atingira já os vinte milhões, partindo de um milhão, num período de apenas trinta anos! A causa desta elevadíssima taxa demográfica encontrava-se numa ruptura com os padrões dos “iberos”: aqui era estritamente proibido o sexo sem reprodução, as mulheres estéreis eram muito mal vistas, e a formação de famílias obrigatória, “conforme a vontade de Deus”, segundo dizem; de facto, não vimos par algum praticar o coito às claras, como na “Ibéria” ; seria absurdamente nas casas comuns? Viemos a descobrir que existiam locais reservados para esse efeito, nos quais os casais, obrigatoriamente casados pelos ritos religiosos, se esforçavam, a gosto ou contragosto, para “oferecerem filhos ao Senhor”. Vimos mulheres serem açoitadas sob a acusação de prostituição, o que significava que as desgraçadas haviam mantido relações extraconjugais.
  Despertávamos, nas nossas tendas, geralmente cercados por bandos de garotos que, a princípio receosos, pouco a pouco nos incomodavam deveras, tentando roubar-nos peças do equipamento e até mesmo as próprias tendas. Éramos obrigados a desmontá-las todos os dias ( ou seja, ao fim de cada oito horas, pois conservávamos os horários terrestres: 12 horas diurnas e oito nocturnas, embora a noite deles se seguisse a quarenta horas diurnas das nossas) e a transportá-las connosco para todo o lado. Escondíamos a cápsula em locais diferentes, completamente cerrada, isto é, apenas dois de nós poderiam abri-la utilizando as vozes respectivas. No seu interior guardávamos as armas mais pesadas, levando connosco somente as micro armas de laser, que ocultámos no tacão das botas, assim como micro telefones, disfarçados em botão das roupas. O seguro morreu de velho e foi isto que nos auxiliou.
   Nos primeiros dias a população não nos incomodou particularmente, votando-nos mesmo a um certo desprezo, excepto os garotos. Desprezo que parecia disfarçar o medo, mas não por nós.
   Vimos edifícios gigantescos de pedra, em forma de pirâmides, uns tantos de faces lisas e outros tantos com uma plataforma no topo, para a qual se subia por uma elevadíssima escadaria rude talhada na argila. Vimos torres esguias, de tijolo cru, com mais de cinquenta metros de altura, do cimo das quais se propagavam a toda a hora súplicas e graças. Vimos esculturas monumentais, em forma de cone, aí para cima de trinta metros, levantadas sobre tudo que fosse colina, penhasco ou monte. Vimos povoações constituídas por três ou quatro extensos armazéns cobertos de colmo, dos quais saíam cortejos infindáveis de indivíduos que lá pernoitavam, e templos austeros. As mulheres mantinham-se nas proximidades de choupanas paupérrimas, cuidando das proles numerosas, carreando águas em bilhas, lavando as roupas em charcos, cardando a lã, fiando, tecendo, parlando sem cessar, ou interrompendo amiúde para rezar.
Vimos as oficinas de olaria, de metais, de mármores, e muitas outras, pequenas, inumeráveis, onde indivíduos esquálidos seminus trabalhavam bem mais de doze horas, coadjuvados por crianças de ambos os sexos; tudo miserável, primitivo, manual, sujo. Quando passeávamos no litoral acercámo-nos de uma praia, infecta, onde milhares de criaturas desmontavam pedaço por pedaço enormes navios que ali tinham dado à costa; nas enseadas, outras filas, semelhantes a formigas, dedicavam-se aos trabalhos da pesca, puxando os barcos para terra  a pulso com cordas ou por meio de juntas de animais poderosos, que classificaríamos de “bois” não fosse terem a forma das nossas baleias mas com patas. Vimos como eram profundas as desigualdades sociais : por exemplo, os “desmontadores” de navios constituíam uma massa de autênticos escravos famélicos, dominados por um punhado de comanditas gordos e déspotas, que os vigiavam do alto das falésias, e os pescadores diferenciavam-se conforme os seus barcos eram puxados a pulso ou por meio das baleias-boi.
    Ao quarto dia fomos presos. Caminhávamos por uma viela onde lojistas se amontoavam uns sobre os outros e as pessoas se acotovelavam, éramos obrigados a dispersar-nos, tentando abrir caminho. Cometemos um erro crasso, reconheço. Subitamente cada um de nós foi puxado para dentro das lojas cobertas de lonas e vimo-nos, cada um por si, no meio dos mais variados e indescritíveis objectos: tapetes, roupas, loiça. Pelas traseiras juntaram-nos novamente, na sombra pois que a luz não entrava ali, e enfiaram-nos brutalmente numa carroça que parecia cair aos bocados. Não vimos absolutamente nada do percurso, apenas tentávamos concluir alguma coisa através dos sons. Tínhamos saído da povoação e atravessámos depois durante muito tempo algo que deveria ser uma planície; a seguir, exaustos e atordoados, apercebemo-nos de que a carroça rodava aos tombos num empedrado tosco. Quando estacou, abriram a jaula e empurraram-nos para fora. Vimos então as altas muralhas daquilo que viria a ser a nossa prisão durante duas semanas das nossas.
Os calabouços eram medonhos, húmidos, gelados, imundos, com grades de ferro, os tectos baixos, mesmo para nós, uns buracos na parede a servirem de respiradouro. Os carrascos ( “legionários de Deus” como se auto intitulavam) deixaram-nos conservar a roupa e o calçado, de modo que comunicávamos uns com os outros e sentíamo-nos, apesar de tudo, relativamente seguros, pois que usaríamos as nossas armas ocultas logo que necessitássemos. O que veio acontecer inevitavelmente.
  Abandonaram-nos até à noite seguinte sem comer nem beber. Ao fim desse tempo, arrancaram-nos das celas e conduziram-nos através de corredores pavorosos de granito escorrendo humidade, até um amplo espaço abobadado, iluminado por archotes fedorentos. Por detrás de uma mesa estavam postados três indivíduos, todos eles barbudos e com farripas enormes sobre as orelhas pontiagudas e uns chapéus negros em cone. Visivelmente um deles chefiava o trio,  era muito alto e magro, a sua voz era pausada e grave, quase amigável, em contraste completo com o brilho metálico, cínico e cruel, dos seus olhos.
Durante um par de horas interrogaram-nos, repetindo as perguntas constantemente, sem que nós houvéssemos respondido a alguma, fingindo que não conhecíamos a língua local. Já entendíamos o suficiente, porém, para perceber que andavam sempre à volta do mesmo : “ Quem sois, donde vindes, que sabem os “infiéis” sobre nós, preparam-se para a guerra? Que armas possuem e onde as escondem?”. Evitaram desde o princípio aplicarem-nos qualquer castigo físico, empenharam-se mesmo em convencerem-nos de que agiam em plena legalidade. Afinal de contas nós éramos estrangeiros, éramos sobretudo completamente estranhos. Sabiam perfeitamente que chegáramos do espaço, que um veículo formidável estacionava na outra Margem. Uma notícia fantástica como esta corria depressa naturalmente, e tinham, de resto, espiões que os mantinham informados sobre as nossas entusiásticas deslocações no outro continente. Apesar de compreendermos, de algum modo, a atitude defensiva deles, qualquer um de nós esteve à beira de sacar da arma. Todos os demais olhavam para mim e esperavam que ripostasse. A uma ordem seca os guardas conduziram-nos novamente para os calabouços, onde nos esperava uma terrina comum contendo alimentos razoavelmente comestíveis.
Estávamos a perder a paciência, como é de calcular. Pelo intercomunicador eu avisava de vez em quando para que não agíssemos, que ninguém agisse sem minha autorização, e fui estabelecendo um plano em contacto permanente com os meus camaradas. O sinal para o desencadear das operações seria dado, conforme o combinado, se os torcionários de chapéu em cone nos aplicassem a telepatia, porquanto nessa altura estaríamos em maus lençóis. Se soubéssemos, porém, que eles não o sabiam fazer, não teríamos tido esse receio, nem esperado tanto tempo.
   No mesmo calabouço encontravam-se outros prisioneiros, tanto “iberos” como “ameríndios”. Estes eram de idade indefinida, mas os primeiros aparentavam visivelmente uma idade provecta – os “iberos” podem atingir os duzentos anos, enquanto os outros viviam até aos setenta anos no máximo, a maioria até aos cinquenta. Porque se encontravam presos os “ameríndios”, visto que dos outros era fácil perceber a razão? Soubemo-lo pelos próprios. Rapidamente confiaram em nós. Relacionavam-se com os da outra etnia com uma cordialidade um pouco forçada. Um deles, que se conduzia como um verdadeiro líder do grupo, um indivíduo inteligente e corajoso que não parecia ter mais de quarenta anos, relatou-nos então que o país era dominado por uma classe sacerdotal que havia tomado o poder um século antes ( o que já sabíamos) por meio de um golpe violento, a tal Revolução Santa; chacinaram os opositores e romperam com todas as leis, isto é com os costumes dos “iberos”, em nome da pureza da “Antiga Tradição”, da “Palavra De Deus”, dos “Livros Sagrados”, etc., em suma: a casta sacerdotal passou a perseguir com ódio todos os chamados comportamentos “corrompidos”, “libertinos”, ”ibéricos”, “estrangeirados”, etc. Tudo aquilo me fazia lembrar tempos já sofridos pelos  terrestres. Bem, se tiveram tanto apoio é porque os iberos não eram bem vindos por outras razões. Das duas uma: ou os ameríndios cobiçavam as terras dos iberos, ou defendiam as suas da cobiça destes. Por outro lado, a descrição correspondia àquilo que eu sabia estar a acontecer: perseguição e repressão dos hereges, trabalho infantil brutal, submissão das mulheres, haréns para os nababos, miséria geral e profundas desigualdades; enfim, império sinistro do clero, recrutamento maciço de jovens para as fileiras do “exército de Deus”, investigações secretas sobre as virtualidades mortíferas dos insectos. A perseguição dos hereges era contumaz, disfarçando mal a cupidez e a ganância de riquezas; a competição tribal e a cobiça entre os chefes mascaravam-se com o rigor da ortodoxia e a retórica de “povo eleito”. Os pregadores encarnavam as piores tradições dos tribunais inquisitoriais; qualquer um podia denunciar o vizinho ou um parente. O despotismo clerical no seu melhor.
Os “ameríndios” prisioneiros não comungavam, portanto, da doutrina opressora. Quanto aos “iberos”, estes estavam condenados por espionagem. Aguardavam o dia do enforcamento. Calculámos que alguns deles teriam já denunciado outros camaradas, mas a nós isso pouco importava. De resto, as torturas deveriam ser necessariamente de provocar pavor. Segundo nos disse Yasser, o “ameríndio” de estatura meã, cara escanhoada, faces magras, sobrancelhas muito negras sobre uns olhos que irradiavam uma inteligência arguta e um carácter audaz e determinado, as torturas mais usuais iam desde o espancamento puro e simples, com tábuas, até ao requinte de lhes cobrirem as plantas dos pés com mel para que as abelhas os ferrassem sem parar; aquele que denunciasse apenas pelo efeito da tortura mais violenta era depois enforcado, um outro que delatasse por decisão própria ganhava um posto de guarda ou “bufo”. Para Yasser, a força da ditadura não assentava exclusivamente nas armas,  nem mesmo na intoxicação das mentes, assentava sobretudo na indescritível desigualdade social, na tremenda miséria que açulava como um cão raivoso o carácter cobarde de muitos que não hesitavam em denunciar os parentes, os amigos, os vizinhos, em troca de um emprego ou do cargo cobiçado que o denunciado ocupava, da sua loja, da sua casa, da modesta mobília. A ditadura havia convertido aquele país e aquele povo num inesgotável potencial de delatores. Tive ocasião de contar a Yasser como na minha terra natal e no meu planeta se passavam as mesmas coisas e como era esse comportamento tão vulgar na nossa História; tão vulgar que agora me interrogava, assistindo ao mesmo a tão grande distância, a que se deviam tais factos. E ele, que não possuía o conhecimento que eu possuo, comparativamente, respondeu com estas palavras que eu não esqueço: “ Meu amigo, se queremos que uma árvore cresça torta batemos nela com um pau, se queremos que uma laranjeira de frutos amargos produza laranjas doces, enxertamo-la”.
   No dia aprazado resolvemos acabar com aquilo. Já haviam enforcado três dos condenados, no pátio em frente. Obrigaram-nos a assistir em formatura sob uma chuva gelada. Os desgraçados, dois da etnia local e um “ibero”, ficaram ali pendurados como carne no fumeiro. Heroicamente não soltaram lamentos, excepto as rezas que um ofereceu pateticamente a um céu mudo coberto de nuvens negras. Um sacerdote de chapéu em cone abençoou o carrasco e recitou uma ladainha tocando com uma cruz nos capuzes que cobriam as cabeças dos infelizes.
  Emiti a ordem ao computador da cápsula para que a fizesse levantar voo e a dirigisse para o local “farejando” o meu sinal de rádio. Sacámos as armas, a uma ordem minha, de dentro dos tacões das botas, depois de aplicarmos uns valentes empurrões nos guardas. Disparámos com precisão eliminando quase todos. Saltei sobre o sacerdote-chefe que procurava escapar-se, agarrei-o fortemente e chamei dois dos condenados. Entenderam imediatamente as palavras que lhes dirigi : colocaram a corda na garganta do indivíduo e enforcaram-no entre grandes exclamações que significavam :” Viva a liberdade !”. Os guardas escapuliam-se para todos os cantos e recantos do monstruoso cárcere. Fomos eliminando-os tantos quanto pudemos. O terror estava-lhes estampado nas caras roxas, nos três oculares escancarados, fugindo com aquelas indumentárias compridas e escuras a dar-a-dar. Tenho disparado sobre muita coisa viva, durante as muitas viagens de exploração, sempre em legítima defesa, raramente gostei desse acto, contudo naquela escassa meia hora não pude proibir-me uma certa satisfação por assistir àquele terror.






A Santa Cruzada


      Regressámos à “Ibéria”. Ao sobrevoarmos o continente dos “servos de Deus”, os altares gigantescos ao seu triste e severo Pai, vimos procissões sombrias carregando fachos e círios, escoltadas por guardas e um extenso muro contra o qual pobres diabos batiam com os crânios pelados, lamentando-se e suplicando perdão pelos seus pecados.
   Na “Ibéria” fomos recebidos entre ovações e larga alegria: haviam tido conhecimento da nossa prisão e afiançaram-nos até que se preparavam para intervir de qualquer modo, tendo enviado, de resto, uma embaixada plenipotenciária a exigir a nossa libertação.
  Fomos obrigados a permanecer muito mais tempo do que eu calculava, porquanto decidimos assistir à reacção dos indígenas contra os sucessivos ataques de que foram alvos da parte dos seus vizinhos. A arma principal destes apresentava-se como sendo o maior número deles e a utilização dos insectos assassinos. Não foi de admirar, portanto, que iniciassem a tentativa de invasão abrindo caminho por meio destes animais. Antes que estes tivessem sido completamente exterminados, ainda fizeram grandes estragos na população: desencadearam-se surtos de misticismo paranóico, de alucinações esquizofrénicas, de pânicos paroxísticos, manipulados imediatamente por gurus ou chefes dementes que brotaram como cogumelos quando a chuva cai.
Numa primeira fase parecia que “Ibéria” se desmoronava, varrida por ventos de pestes e epidemias. Os sobreviventes, porém, souberam inventar engenhosas defesas contra os insectos : protegeram-se com capas rijas dos pés à cabeça, reuniram habilmente os loucos em vastos recintos fechados onde os submeteram a desintoxicações, por meio de antídotos cujo segredo haviam extraído a prisioneiros “ameríndios”. Depois, mobilizaram todas as embarcações velhas ou sem préstimo, e conduziram-nas até ao alto mar, dispuseram-nas em fila de norte a sul, e pegaram-lhes fogo; as embarcações continham do tal antídoto; assim varreram dos ares, fosse pela fumaça fosse pela antídoto, enxames espessos de abelhas, moscas e mosquitos. Ao mesmo tempo, esta táctica auxiliou-os na formidável batalha naval que travaram contra os vizinhos.
Assisti então a batalhas que foram vulgares em tempos recuados do nosso planeta. Navios contra navios, arpões e longas lanças, soldados-marinheiros uns contra os outros, armados com barras de ferro, pedras escaldantes lançadas por fundas, machados, tochas ardentes que inflamavam as velas, os cordames, os mastros. O mar cobriu-se de sangue e madeiros flutuantes, monstros marinhos digladiavam-se sob o comando de uns e outros, estripando-se reciprocamente, combatiam homens, mulheres e jovens quase garotos. Somente na Terra, aquando da última guerra, vi tanta dor e tanto sofrimento: aqui não havia, é certo, o cheiro da pólvora, o fedor abrasador do napalm, o crepitar das armas automáticas, era antes tudo primitivo, rostos esfacelados pelos chuços, aquele ali segurando as tripas com as mãos, os olhos suplicantes, aquela outra fugindo enlouquecida com o cadáver do filhinho agarrado ao peito, um jovem imberbe decapitando um adversário que podia ser seu avó, com um rito de nojo e medo, a catana rubra e gotejante.
Escrevendo, como escrevi, que “tudo ali era primitivo”, interrogo-me se é legítimo distinguir nas formas de matar algumas mais “primitivas” do que outras...quem mata pode, é certo, proceder de forma “cirúrgica”, disparando do ar observando apenas um monitor, ou executar o adversário com um cutelo – quem mata assim pode julgar-se menos assassino -, quem morre, morre na mesma, trucidado, esquartejado, com as tripas ou os miolos ao sol.
Apesar de sofrerem algumas derrotas por causa do número dos adversários, os “iberos”, povo de marinheiros hábeis e astutos, esmagaram o inimigo numa batalha final gloriosa: atacaram a frota adversária por uma noite de nevoeiro mais cerrado, utilizando embarcações mais pequenas, extremamente rápidas e fáceis de manobrar, que furaram o bloqueio e esburacaram os cascos dos enormes e pesados navios, apanhados de surpresa. Desbaratados, os sobreviventes tentaram refugiar-se nas suas fortalezas, mas foram recebidos por uma corajosa guerrilha de rebeldes que os foi dizimando.
  Se a guerra continuasse por mais tempo, tanto uns como outros acabariam por inventar armas cada vez mais sofisticadas: calculo mesmo que pouco faltou aos “iberos” para redescobrir a pólvora.
Thuulipa, a ministra, a generala, ela mesma realizara esboços geniais de máquinas e artefactos de guerra. Lutando contra a escassez dos meios e de tempo, logrou dirigir a construção de pontes levadiças movidas por engrenagens, e fortificações que se aproximavam do betão armado, e arpões para os navios disparados por bestas enormes ou catapultas; descobriu inclusivamente o princípio do navio movido a vapor, idealizando um sistema de caldeiras que expeliam o ar aquecido através de tubagens submersas.
A verdade é que fomos obrigados a intervir com firmeza contra os “iberos”, quando estes passaram a chacinar os vencidos. São estas transformações, como outras a que assisti noutros locais, que me deixam espantado ainda agora. É difícil entender como é que um povo extremamente pacífico, alegre, prazenteiro, se converteu numa horda de assassinos, de guerreiros sanguinários. A guerra instalou neles o medo, e o medo modificou-se em ódio, o ódio em vontade de extermínio. O prazer de vida, anterior, modificou-se em prazer de tirar a vida a outros.
 Mas enfim, falemos um pouco mais de Thuulipa. A  “ministra” da Cultura correspondia grosso modo a um senador da nossa antiga república romana. Esta esplêndida criatura continuou a acompanhar-me sempre, melhor dizendo eu é que a acompanhei no decurso das reuniões, em que ela participou, dos comandos militares. Mulher (se assim posso exprimir-me) de notável inteligência e vontade indomável! Nas horas livres quando fazíamos amor, eu congratulava-me por ter nos braços ( ou melhor: ela é que me tinha nos braços) um ser daquela categoria. É evidente que mantive esta relação por razões diplomáticas. Quem não entendeu assim foi a Beatriz.
   Na noite mais difícil dos combates, Thuulipa disse-me então o seguinte:
   “ A causa verdadeira, meu amigo, deste antagonismo mortal entre os Alkómores e nós, tu não a sabes mas vou dizer-te qual foi: antes da civilização que ora temos tivemos outra; há milénios atrás havíamos desenvolvido todas as técnicas possíveis e imaginárias, incluindo naturalmente armas formidáveis por terra, mar e ar.” - Abri a boca até às orelhas quando escutei estas palavras- “ Impelidos pela cobiça dos lucros, o saque e a exploração dos nossos vizinhos era uma constante desse sistema. O outro continente foi pura e simplesmente uma colónia nossa, subjugada até à escravatura. Em suma, arribávamos aí armados até aos dentes, impúnhamos monoculturas convenientes, explorávamos a mão de obra, exportávamos as nossas mercadorias ( confeccionadas quantas vezes com as matérias primas saqueadas a eles mesmos) e retirávamos de lá o nosso dinheiro bem gordo! Fomos nós, aliás, que os obrigámos a assimilar alguns aspectos das suas actuais crenças religiosas. É conveniente esclarecer-se que exportávamos, por meio da mentira ou por meio da força, não somente mercadorias mas também uma determinada cultura, conjuntamente com governos locais fantoches e corruptos. Quando essa civilização terminou aqui, também terminou lá por consequência. Ignoramos a causa real desse tremendo acontecimento. Perdemos tudo, incluindo registos e memórias. Sobrevivemos na extrema escassez vários séculos; gradualmente progredimos, uns e outros, ambos em um clima de relativa paz e boa-vizinhança. Até que recentemente, talvez por causa da diferença de ritmo do desenvolvimento, uma casta de sacerdotes tomou o poder na outra Margem, a tal “Revolução Santa” de que eles falam, impôs uma tirania sob o pretexto da “Lei de Deus”, semeou ódios ancestrais contra nós, servindo-se sobretudo da descoberta que fizeram entretanto, não se sabe como, de antigos livros, que julgávamos desaparecidos, contendo relatos das atrocidades que nós lhes havíamos infligido. Aqui tens.”
   Somente no fim fechei a boca, tal era o meu espanto. Tudo se esclarecia agora.

               A nossa partida transformou-se num acontecimento glorioso, inesquecível. Realizaram-se festejos em todas as grandes cidades. As mulheres, que lá são muito consideradas, juntaram-se em grandes multidões, caóticas e alegres, presenteando-nos com danças e cantares muito belos, comoventes de harmonia e amor pela vida, os jovens mancebos fizeram outro tanto, desfilando pelas larguíssimas avenidas agitando folhas de palma e ramos de oliveira. Em todas as praças tocaram orquestras, entoando o esplêndido hino composto para aquela ocasião e intitulado “ Viva o Prazer!”, ou seja “Ma Zil ! Ma Zil!”. Organizaram em nossa honra um grandioso baile. A alegria era esfuziante para quem no dia anterior tanto havia chorado os seus mortos. As mulheres, autênticas heroínas desta guerra, jovens generalas de peitos ao léu ou matronas robustas e indomáveis, foram quem mais bailou. A “ministra” superava toda a gente, e obrigou-me a dançar levantado do chão nos braços dela. Trazemos connosco inúmeros presentes oferecidos à Terra, simbolizando a vontade de que venha a construir-se um Acordo Universal.
  A situação nas duas metades, isto é, no planeta “Cortado ao meio”, pareceu-me sustentável a médio prazo. Consultei o nosso especialista em prognósticos que me facultou, após um exame minucioso de todos os dados disponíveis, o seguinte cálculo de desenvolvimento: Enquanto os “ameríndios” se pacificam, ensaiando uma aproximação com a “outra metade” (embora os dois países estejam com a economia de rastos, os “iberos” possuem grandes reservas) através de um processo de democratização que as camadas burguesas mostram apoiar e para o qual determinados sectores da igreja revelam grande capacidade de adaptação, nos “iberos”  indiciam-se já os germens da acumulação capitalista, na medida em que a guerra e as suas sequelas provocaram a concentração da propriedade fundiária, a especulação com os bens, a corrupção e o mercado negro, o fortalecimento de uma casta militar e o endurecimento das leis. Os chefes militares, detêm uma grossa fatia do poder e opor-se-ão ao Senado. O desenvolvimento das cidades, onde se instalam cada vez mais os artesãos e os comerciantes, conduzirá a que estas se oponham ao campo, atraindo os pequenos proprietários das terras menos férteis e os mais endividados; o aumento do consumo e do comércio implicará a procura de novos mercados, a desigualdade no desenvolvimento dos dois continentes provocará desigualdade nas trocas, e tendência crescente para importar matérias-primas de um lado e exportar produtos e capitais para o outro. A constituição política de Alkómos começará a abrir fendas. Por este caminho depressa instaurar-se-á uma economia mercantil. Interrogo-me se tal processo conduzirá ao capitalismo, tal como sucedeu connosco. Ora, se as leis fundamentais da física, etc., apresentam-se idênticas em toda a parte, serão também universais as tendências dos organismos sociais? Então a orientação da mente assemelhar-se-á em todo o lado? Pelos muitos mundos que percorri depois, procurei uma resposta. Sabendo de antemão que o bem e o mal, o belo e o feio, não são mais do que valores comparativos e infinitamente variáveis. Todavia, assisti a tanto sofrimento, paredes meias com tanta alegria, que já não sei mesmo se não existe um padrão, um denominador comum.
     Na realidade o processo político decorreu, desde logo, de uma forma ligeiramente diferente. Durante o mês que ainda lá estacionámos, aconteceram duas coisas decisivas: em primeiro lugar, a “ministra” levou com ela o meu único exemplar de “O Príncipe”, de Maquiavel, aquando de uma das suas visitas discretas; em segundo lugar, pô-lo em prática; ou seja, à questão “Como conservar a paz depois da guerra?”, respondeu do seguinte modo: manobrou o espírito débil da imperatriz, desfiou discursos inflamados no Senado, agitando o espantalho do caos, manipulou uma dúzia de senadores influentes, atraiu para o seu lado um dos cabos-de-guerra mais prestigiados, reuniu um poderoso exército e lançou-o contra os “senhores da guerra”, isto é, contra os chefes militares que não queriam abandonar os territórios onde se aquartelaram. Derrotou-os um a um, com a mesma astúcia e valentia com que manobrava politicamente. Fez-se receber por uma população em delírio, uma entrada triunfal em Liskómos, e apelou num extraordinário discurso para a “imperiosa unidade nacional”, para o “trabalho em paz”, para o “prestígio do Estado”. Conseguiu o apoio, por interesse ou por cobardia, da maior parte dos senadores, fez aprovar novas leis e reformou as instituições de acordo com os desejos da classe dos comerciantes, organizou uma máquina tentacular de organismos e de funcionários públicos, burocratas bem pagos e com autoridade, que decapitaram a arrogância dos “príncipes feudais”, e defendeu os “municípios” contra o arbítrio dos classe castrense.
 Quando levantámos âncora do planeta do planeta, deixámo-lo nas mãos férreas de um possante e eficaz Estado, no topo do qual se agigantava a figura fascinante da minha outrora doce “ministra”. Grande parte dos seus dotes e dos seus sucessos dever-se-iam seguramente à sua destreza com a telepatia. Ou seja, adivinhava perfeitamente as fraquezas dos outros, adversários ou apoiantes úteis, satisfazia-lhes as ambições ou antecipava-se às suas manobras. Impressionante espectáculo de psicologia das massas.
 Reservei para o fim deste relato, uma informação pouco mais do que curiosa para si, nesta fase do meu relatório, e no entanto para mim muito importante, visto que redijo estas linhas muitos anos depois destes acontecimentos. Antes da batalha final entre os dois continentes, numa determinada ocasião em que visitei a ministra nos seus aposentos pessoais, descobri um estranho pergaminho, ou uma cópia do original, guardado numa pequena vitrina, como um relicário. Redigido, obviamente, na língua desse povo, li as seguintes palavras : “ Ó gentes indómitas! A vossa salvação está próxima: quando o céu se romper e dele jorrar a luz de um amanhã solar, ascendereis à Casa Comum!”. Esta mensagem haveria de acompanhar-me no decurso destas viagens extraordinárias. Na primeira vez que me defrontei com ela, não lhe prestei muita atenção, excepto por um desenho que a acompanhava.




Segunda Viagem - Outros mundos


  A caminho do destino final encontrámos, neste período de tempo que decorreu até ao envio desta mensagem, novas e diferentes formas de vida ( todos os astros estão devidamente identificados e localizados no fim deste relatório): um astro do tamanho da nossa lua apresentava-se coberto em dois terços por um oceano de águas açucaradas, habitado por criaturas anfíbias que detestam o sal e que se dividem em tribos conforme o número das suas patas – como consideram a locomoção muito útil, ridicularizam-se uns aos outros pelo facto de uns possuírem meia dúzia de membros ou apenas um par: foi engraçado assistir aos seus rituais de acasalamento, , durante os quais os machos exibem perante as fêmeas a quantidade adequada de patas, todas elas idênticas aos dos nossos pelicanos. É um autêntico desfile naíve de inocentes.
Ao redor de um planeta estéril rodava um satélite tão modesto que possuía um único vulcão, que o ocupava por metade, adorado como uma divindade simultaneamente criadora e destruidora, por um clã de indivíduos que se dedicavam exclusivamente à cultura da vinha e à criação de uma espécie de galinholas. Nunca conheci gente tão alcoolizada. Eram peludos e possuíam cascos, como as cabras. Julguei-me dentro de um terrível sonho infantil. Gastavam o tempo a assar galinholas e a emborrachar-se. Talvez por causa disso eram particularmente estúpidos. Lembrei-me a propósito que os antigos gregos construíram uma brilhante civilização a partir da vinha e da oliveira. Tive de usar de disciplina severa porque alguns membros da tripulação deram em abusar da bebida, um vinho tinto que devo reconhecer que era bem encorpado. Metade da minha tripulação apanhou um pifo de todo o tamanho. Três delas, pois eram mulheres, incluindo a Beatriz, tiveram de voltar de padiola.

      Mais tarde precisámos de aterrar num outro planeta com o fim de renovarmos os nossos víveres. Este, por sua vez, havia gerado duas tribos que se digladiavam constantemente, sendo uma constituída somente por machos e a outra por fêmeas; segundo o calendário cumpriam-se determinadas datas sagradas, ou tréguas, durante as quais fornicavam sem parar, em grandes festins reprodutivos, após as quais as fêmeas retiravam-se imediatamente para procriar ; se os filhotes se revelassem fêmeas ficavam a cargo das mães, se não eram entregues aos machos, que os iam buscar a grutas que nós designaríamos  como “lugar dos expostos”, mas para os quais as fêmeas aplicavam um termo pejorativo que se poderá traduzir livremente como “cloacas”. O desprezo recíproco era tão intenso e manifesto que no resto do tempo as tribos sexuais insultavam-se sem descanso uma à outra. Dir-se-ia que, mais do que o trabalho, o desporto favorito daquela gente era o chiste grosseiro e o menosprezo das diferentes anatomias. Desconfiavam e receavam-se uns aos outros mas, na realidade, passavam muito tempo a cobiçarem-se mutuamente. Voltou-se a exigir do meu comando novas medidas drásticas, pois que um engenheiro de máquinas e um químico passaram-se para o lado das fêmeas rudes e foi tremendamente difícil arrancá-los dos quatro braços destas, dos quatro membros e do resto. Trouxemo-los lívidos e exaustos.



  Num outro planetazeco, caímos em cheio numa guerra que se desenrolava entre ele e a lua que o orbitava. Com mais propriedade não era uma guerra de dois mundos, mas uma acção punitiva prosseguida por um governo imperial contra uma rebelião. Ali, a Terra, era um minúsculo astro, e a Lua, um ainda mais pequeno. Eram de compleição diferente: os “terráqueos” possuíam o tamanho de piolhos, um pouco mais, e semelhantes na forma; os “selenitas”, também pequenitos, possuíam duas cabeçorras e uma perna, ou haste, em forma de ventosa, que lhes permitia permanecerem indefinidamente seguros e quietos como lapas. A bem dizer eram lapas, fora de água. De um lado, piolhos grandes, do outro, lapas com cabeça dupla. Nutrimos automaticamente repugnância pelos primeiros, simpatia pelos segundos. A uns apetecia-nos esmagá-los com o tacão das botas, aos outros apeteceu-nos abaná-los, para ver se despertavam da sua letargia. Na realidade os piolhos eram feios, sujos e maus, as lapas aparentavam ser desprovidas de emoções.
Os habitantes da lua, isto é de Malhor, que eram todos sábios, opunham-se ao regime que classificavam como corrupto, que lhes impunha mercadorias idiotas e uma sub-cultura. O governo dos piolhos, por seu lado, difundia contra eles uma intensa propaganda em nome da defesa do “mundo livre”, da “livre iniciativa”, do “mercado livre” e outras coisas livres, incluindo a decisão “livre” de organizar uma intervenção punitiva sobre a lua minúscula com a missão “irrecusável” de “salvar milhares de refugiados desalojados pelos lunáticos” ( é claro que na língua deles “lunáticos” se dizia de outra maneira).
Tendo estacionado ao redor (visto que não havia espaço suficiente para a Quimera), analisámos a situação e chegámos às conclusões seguintes: os habitantes da lua eram constituídos exclusivamente por descendentes de cientistas (uma espécie que nada tinha de comum com os “piolhos”, e que, por isso, eram marginalizados). Haviam sido enviados para a lua onde se estabeleceram, acabando por transformar as condições inóspitas em cidades agradáveis (cobertas com cúpulas de vidro), extraíram minérios, aproveitaram o gelo subterrâneo dos pólos, irrigaram vastas estufas.
Em determinada altura, porém, o Governo imperial de Rhor (era este o nome do planeta principal), decidiu anexar completamente a sua lua, convertendo-a em estâncias de turismo (bordéis, disseram logo os habitantes desta). Os habitantes da lua, gente (?) de grande cultura científica, rebelaram-se, nacionalizando tudo que, afinal, era deles. O que se seguiu foi o resultado lógico. O principal líder da revolta era um físico reputadíssimo, que todos consideravam unanimemente , tanto em Malhor como em Rhor, como um dos maiores génios de todos os tempos; pareceu-me, todavia, um bocado excêntrico e sobretudo com um discurso demasiado exotérico. A diatribe que ele parecia preferir nas suas intervenções públicas era, mais ou menos, a seguinte: o reino de Rhor é um prostíbulo, usa a prostituição como sistema; os governantes vendem-se aos financeiros, os governos nacionais vendem-se ao governo imperial, os povos vendem-se aos donos do dinheiro e aclamam os políticos mais aldrabões. Assim, este sistema faz com que cada cidadão não seja mais do que uma prostituta. Uma piolheira completa. Segundo os sábios da lua, a moral racional correspondia à ideia da Virtude, esta equivalia à posse da ideia da Verdade, e esta, por sua vez, equivalia à ideia do Bem. Munidos desta doutrina, os malhoritas avaliavam Rhor muito negativamente, segundo um conceito muito próprio de Razão. A Razão, que só podia ser uma e una, segundo a perspectiva deles, não era distribuída por toda a gente, somente uma minoria a possuía (ou seja, eles mesmos). Eternas apenas as Ideias, porque eram puras.
Esta doutrina não parecia comover as mulheres dos sábios.
Os piolhos, por sua vez, desprezavam os sábios, não só porque eram fisicamente anormais, degenerados, mas também porque não tinham utilidade alguma, as suas teorias especulativas não valiam um centavo.
Fosse como fosse e independentemente destas diatribes, a justeza das reivindicações dos malhoritas era tão evidente, e os piolhos tão repugnantes, que, depois de consultar toda a tripulação, decidimos tomar o seu partido num momento assaz difícil para estes: interpusemo-nos entre Rhor e a sua lua e aniquilámos todas as naves enviadas contra Malhor. Sofremos poucos danos, excepto ferimentos ligeiros em dois tripulantes, pois as naves, ainda que muitas, eram primitivas, em mau estado e do tamanho de bolas de futebol. O nosso artilheiro principal pontapeou uma chusma delas e esmagou com as botas, com manifesto entusiasmo, dúzias de piolhos. Bem que eu o tentei impedir, pois, apesar de tudo, os piolhos falavam.
 Apreciámos com agrado e admiração a cultura que haviam desenvolvido em condições peculiares: dedicavam a maior parte do seu tempo à investigação científica pura, sobretudo os seus astrofísicos eram notáveis, especulando com arrojadas teorias sobre a origem do universo, da vida, o Amor ideal, etc. No entanto, e porque todos precisam de comer, experimentavam um sem número de híbridos, por exemplo cereais particularmente resistentes e fecundos, com os quais se alimentavam e poderiam alimentar grande parte de Rhor se este mundo se dispusesse a isso, cultivavam extensos viveiros de árvores capazes de resistir ao fogo e às secas ( evidentemente que as árvores, e tudo o mais, eram minúsculas), pomares fornecendo dois a três ciclos anuais de frutos, sistemas simples, baratos e eficazes para converter o gelo dos pólos em água potável e para regadio, enormes painéis ( para as dimensões daquele pequeno mundo) solares de produção de energia, e até um extraordinário equipamento de extracção do hidrogénio depositado pelo vento solar.
Estes e outros inventos, porém, não haviam cativado os príncipes de Rhor, que achavam inúteis e ridículos todos os artefactos engenhosos fabricados pelos malhoritas. Por exemplo elegantes cadeiras assentes num só pé, mesas convexas, canais de televisão dedicados exclusivamente ao ensino da filosofia e da virtude, prémios  prestigiosos aos melhores trabalhadores de todos as áreas, aos artistas, aos altruístas, que transmitissem uma lição de moral ou de serviço público desinteressado; veículos movidos a hélio-3; cronómetros para bloquear todo o discurso que ultrapassasse os dez minutos; um gramaticógrafo para detectar os erros gramaticais proferidos pelos jornalistas; câmaras ocultas de vídeo nos confessionários e analisadores de sinceridade na voz dos sacerdotes quando proferem as homilias; transmissão radiofónica obrigatória em directo das reuniões dos directores e administradores públicos e privados; robôs treinados para farejar corrupção nos presidentes das câmaras, nos chefes dos organismos de obras públicas, nos presidentes dos clubes de futebol ; um sistema fiscal que obrigava os mais ricos a pagar e, principalmente, a pagar mais; habitações a preço módico que se podiam deslocar para onde quer que o proprietário desejasse ; sistemas incrustados nas armas de caça, que travavam o disparo sempre que o seu possuidor estivesse bêbado ou enlouquecido ; registos vídeo transmitidos em pleno julgamento que permitiam comparar todas as sentenças anteriormente proferidas por um juiz ; painéis de luzes que vigiavam o discurso eleitoral dos políticos, acendendo a luz vermelha sempre que estivessem mentindo ; dever dos militares a prestarem serviços à comunidade sem direito a quaisquer privilégios; investimento na investigação, controlado por comissões independentes, avaliação contínua dos professores catedráticos, edição de todas as obras académicas de mérito. Nada disto interessou aos habitantes de Rhor. E menos ainda o registo público das falsidades proferidas sucessivamente pelos chefes dos dois partidos que se alternavam no governo, o qual seria oferecido a cada eleitor em forma de agendas sonoras, ou engenhos que permitiam analisar o grau da hipocrisia, da canalhice, da ambição calculista e sem escrúpulos, da traição, do desprezo pelo povo, expresso pelos “heróis”, vivos ou mortos, pelos reis, presidentes, ministros, caudilhos, generais, bispos, bastando para isso apenas um simples cabelo, ou um dente, ou um pedacinho de pele, ou uma tíbia, ou a mera impressão digital deixada nos livros que escreveram.
Os cientistas eram quase somente do sexo masculino, particularmente aqueles que se dedicavam à ciência pura; consideravam que os “homens” possuem mais tendência natural para estas actividades. ( Digo “homens”, mas na realidade eram lapas com cabeça). Sendo estas, como eram, a sua distracção favorita, entrementes as mulheres ocupavam-se consigo mesmas, ou seja, visitando-se umas às outras, cumprindo com muita regularidade o ritual do chá, que habitualmente terminava com sessões mais íntimas. De resto, os grandes sábios serviam-se das mulheres uns dos outros, sem parcimónia, existindo para tanto locais reservados para os rendez-vous. Não me pareceu que fossem muito frequentados.
O último projecto  dos sábios foi espectacular: quiseram separar-se para sempre do planeta imperial. Tencionavam construir uma série de grandes propulsores, colocados em pontos estratégicos do eixo ligeiramente inclinado da lua, e realizarem deste modo a partida em grande escala. Porque talvez não o conseguissem jamais, e porque bem mereciam o que desejavam, resolvemos dar-lhes uma ajuda. A Quimera encostou a longa e aprumada proa à superfície do satélite e empurrou-o . O pequenino corpo celeste estremeceu, oscilou, depois inclinou-se perigosamente, como se fosse tombar no abismo; por fim, lentamente de início, a seguir mais depressa, afastou-se majestosamente em direcção à estrela mais próxima.
Escolheram um outro planeta, árido e aparentemente incapaz de vida, e colocaram-se ao redor dele. Suspeito que já não se encontrem aí, visto que os sábios são pessoas muito descentradas, curiosas e individualistas.



Terceira viagem - O Planeta das comunas


A estrela binária Alfa, da constelação Centauro que investigávamos, surgiu, por fim, no nosso caminho após um largo desvio, pois que tivemos de evitar a atracção de grandes massas de gases e poeiras. Alfa havia sido escolhida no nosso itinerário, como sabeis, como escala obrigatória, visto que sobre ela têm-se tecido as mais diversas fábulas e hipóteses. Sabíamos há muito que possuía pelo menos um planeta e, embora nunca houvéssemos recebido quaisquer sinais via rádio, considerámos a hipótese de existência de vida.
À distância de aproximadamente um ano-luz, a nave Quimera detectou sinais suficientes de que assim acontecia. Transmitimos mensagens de paz conforme nos aproximávamos, mas nada recebendo em resposta, preparámo-nos para um encontro, mais um entre outros que estabelecemos, com um astro infecundo quanto àquilo que definimos como “vida inteligente”: organização social capaz de produzir os seus próprios artefactos e comunicar entre si por meio de símbolos abstractos. Qual não foi o nosso espanto quando, por fim e a uma distância relativamente curta, recebemos resposta via rádio! Utilizando símbolos complexos que os nossos especialistas precisaram de algum tempo para descodificar, transmitiam-nos saudações e um convite.
Depois de atravessarmos uma atmosfera semelhante à nossa, sobrevoámos inúmeros pequenos povoados, dispersos por vales verdejantes incrustados entre altas montanhas cobertas de neve. Um belo quadro que nos lembrou a nossa Terra, provocando alegria e saudade ao mesmo tempo. Havíamo-los avisado do ponto escolhido para a “aterragem” e, por isso, fomos recebidos  por uma  multidão que ia aos poucos engrossando com os magotes que saíam das suas aldeias para virem ao nosso encontro. Ficámos abismados com o porte dos dignatários e de toda a gente : aproximadamente a nossa altura média, muito magros, muito esbeltos e dignos com as suas túnicas coloridas. Agrupavam-se sem ordem precisa, mas adivinhava-se uma determinada posição que viemos desde logo a saber que correspondia às poucas hierarquias que os enformavam : primeiro as crianças, depois os idosos de ambos os sexos e, por fim, mulheres e homens mais jovens.
Interpretámos rapidamente a língua em que se expressavam, pois que o seu alfabeto é muito semelhante à nossa lógica ( os sons correspondentes aos símbolos é que são muito diferentes; aliás, as sonoridades vocais não constituem o instrumento principal de comunicação, mas as mãos, ou seja os dedos, com os quais desenham quer seja no ar, no papel, os sinais com os quais se entendem às mil maravilhas). Encontrávamo-nos na terra de Alshur.
  Os alshurianos conduziram-nos para uma magnífica mansão localizada a grande distância do local da aterragem, nas faldas de uma graciosa montanha. Uma viagem demorada, pois que nos faziam transportar em carruagens movidas a electricidade, em velocidade uniforme mas vagarosa. Percebia-se perfeitamente que eles podiam imprimir mais altas velocidades e se não o faziam ( e não vimos ninguém fazê-lo, excepto às vezes um ou outro jovem) era pela razão de que não tinham pressa. E não se pense que eram ociosos : por todo o lado reinava o conforto e o asseio ; reinava sobretudo um clima de permanente calma e comedimento.
A viagem naquele combóio tão limpo e seguro permitiu-nos verificar com os nossos próprios olhos que todas as terras estavam cultivadas, os cursos de água contidos aqui e acolá por pequenas represas, e distribuídos pelos campos fora por meio de canais artificiais, as inumeráveis pontes sempre levantadas com elegância e bom gosto, as estradas ( que verificámos depois como eram construídas : uma leve camada de fina areia sobre lajes de basalto) por onde circulavam carroças e coches puxados por muares, ou veículos muito formosos movidos a água, isto é, a energia eléctrica extraída da água (os habitáculos não eram de metal, mas de madeira e tela, tudo muito colorido e bem carpinteirado), as profusas aldeias mirando-se umas às outras, as gentes que circulavam a pé acenando-nos com afabilidade mas sem euforia.
Conforme o que vimos e escutámos, podemos descrevemo-los resumidamente como um único povo que vivia sob um regime de comunismo integral, sem haver nunca conhecido qualquer forma de propriedade. Todos os recursos e todos os bens eram comuns, e não obedecem a nenhum aparelho de administração dos indivíduos, excepto de administração das coisas. A divisão social do trabalho, a excelente informação generalizada e as técnicas muitíssimo desenvolvidas, permitem-lhes trabalhar apenas quatro horas por dia sem esforços brutais. Desconhecem a riqueza ostensiva de uns tantos acima da penúria de muitos, e, por consequência, hierarquias reguladas pelo poder do dinheiro; não conhecem o dinheiro nem a mercadoria, visto que não se regulam pelas chamadas “leis do mercado”. As trocas directas são organizadas deste modo: cada aldeia, ( o termo “comuna” do nosso léxico exprimem-no eles pelo símbolo »«) ou “comunidade”, comunica regularmente a lista dos bens de que precisa aos centros industriais, piscatórios, etc., por meio de uma “rede” que equivale à nossa Internet; os programas inseridos nesta rede é que calculam, controlam e satisfazem os requerimentos; os veículos eléctricos transportam-nos; a comunidade requerente irá, quando for contactada, corresponder a pedidos similares, de acordo com o volume dos seus excedentes. Não notei razão alguma para que estas se atrasassem neste circuito. Quero dizer que não vislumbrei burocracias que emperrassem o sistema; de resto, suponho que se alguma não cumprisse com o devido, ficava a “ver navios” quando chegasse a sua vez de requerer.
Os talentos inventivos são muito elogiados, sejam do domínio artístico, técnico ou científico, e os jovens, sobretudo, dedicam-se à matemática com grande entusiasmo - em paralelo com o desporto, os interesses dos jovens, desde a mais tenra idade, canalizam-se para os jogos de destreza mental.
As mães cuidam dos filhos durante os dois primeiros anos ( nas horas de trabalho confiam-nas aos avós) após os quais são confiados a escolas cujo qualificativo de “jardim-escola” era de facto uma realidade.
A posse de armas é severamente punida, a caça igualmente.
As leis claras e simples dispensam a necessidade de intérpretes, cada indivíduo é perfeitamente autónomo e responsável para saber qual o seu papel, de resto pode escolher livremente as suas actividades e a todo o momento substituí-las sempre que o deseje.
A igualdade entre os homens e as mulheres é praticamente absoluta no que respeita aos direitos e deveres, a única discriminação aplica-se às crianças, aos enfermos e aos idosos, muito protegidos e acarinhados, um dos ditados populares mais glosados é precisamente o seguinte: “ Numa casa onde não há crianças alegres nem idosos sossegados, a família é uma palavra vã”. Todos os lugares são tão aprazíveis e as gentes de costumes tão doces que dois dos nossos mecânicos de bordo decidiram lá viver. Não me opus.
Estas gentes não praticam colectivamente nenhuma crença religiosa, nem diversas e concorrentes nem uma única : refiro-me a religiões organizadas, pois que cada um é livre de acreditar, mas muito dificilmente conseguiria erguer templos: cairia no ridículo. Contudo, não há dúvidas que veneram a sua organização social, a natureza e, em particular, as crianças e os idosos. Divinas somente as crianças: até aos sete anos tratam-nas com desvelo, protegem-nas constantemente, deixam-nas brincar o dia todo ( afecto e  brincadeira, eis o que pedem as crianças , costumam dizer), embora a aprendizagem de regras não esteja de modo algum ausente ; a partir dessa idade colocam-nas em escolas permanentemente, visitadas pelos progenitores sempre que estes o queiram, os quais podem tomar as refeições diárias com os filhos e participar na rotina quotidiana dos estabelecimentos de ensino. Estes são edifícios amplos e arejados, mas como cada aldeia é pequena e possui a sua escola, os edifícios não necessitam de albergar centenas de crianças; são rodeados de hortos, de pomares e de frondosos bosques; aí aprendem os trabalhos agrícolas e as artes, imitando e observando no exterior ou dentro de ateliês, ginasticam os seus corpos todas as manhãs, estudam o nome da planta e animal os mais modestos,   escrevem e lêem em gabinetes arejados que os dividem conforme as idades e as vocações, ou nas clareiras do bosque nos dias amenos, desenvolvem relações de entreajuda, amizade e tolerância. Realizam jogos em computador nos quais a violência não é a resolução de um problema, porque lhes parece mais largo o espectro das estratégias. As crianças com os olhos vendados tacteiam os objectos e nomeiam-nos, mais às suas formas. Com simulacros ( bonecas, comboios, carros, pontes, casas, arvoredos) representam situações vividas ou a viver, sob terraços de areia; com barro, ou papel colorido, modelam cenas do quotidiano. Com maquinaria apropriada registam e montam cenários. Mas nada disto substituía as horas de exercício físico, as caminhadas ao ar livre, as aventuras no bosque, a liberdade do campismo selvagem.
 Este povo conhece também a televisão, mas nada do que lhes é prejudicial é visto pelas crianças, que apreciam sobretudo o cinema em grandes ecrãs e em três dimensões. Evidentemente que as coisas não sucedem sempre de modo linear e fácil: a actividade educativa, conforme nos explicaram, observei e eu próprio experimentei na Terra, não é jamais desprovida de espinhos. Afirmo o mesmo relativamente a qualquer trabalho: também aqui o indivíduo que agriculta, ou pastoreia, ou pesca, ou produz artefactos, não anda sempre cantando e rindo ( há também os preguiçosos e os tristes); também aqui o sol às vezes escalda, o mar é perigoso, o isolamento dos serranos é penoso e duro, rotineiro o trabalho industrial. Por isso mesmo é que os habitantes deste maravilhoso planeta orientam todos os seus esforços e capacidades não para a sobrevivência pura e simples, mas para inventar tudo aquilo que possa diminuir a canseira e aumentar a produtividade.
Enquanto me passeava por este país harmonioso, interrogava-me muitas vezes se o facto desta gente dispor sempre de trabalho e de bens, não provocaria neles a preguiça, o desleixo, a intrujice, a irresponsabilidade colectiva. Provavelmente sucedeu isto noutras épocas passadas, nesta altura não vi. Animais de hábitos como nós, ou por causa da censura social?
Voltando ao ensino, os professores são sempre pessoas idosas, reformadas dos trabalhos mais duros, que denotam, como eu vi, uma infinita paciência para os jovens, endiabrados como todos os jovens. Essa paciência resulta em grande parte do modo socialmente carinhoso como são tratados os próprios idosos. A cadeia de boas relações que os envolve a todos estimula cada um. Os professores são homens e mulheres acima dos cinquenta anos, que se “reformaram” das tarefas mais pesadas, dedicando-se no resto das suas vidas a transmitir a sua experiência e o amor entranhado que têm pela sua terra e pela vida; recebem a colaboração dos trabalhadores no activo.
 A economia industrial é intensa, importantes complexos atestam labor e engenho; por exemplo todo o país está munido de numerosas barragens, muitas das quais de colossais dimensões, nas montanhas erguem-se por toda a parte filas e filas de “moinhos” geradores de energia ( é um espectáculo impressionante), o traçado das linhas de caminho de ferro dá a volta várias vezes ao planeta – comboios movidos a electricidade por cabos ou por magnetes -, aqui e acolá aglomerados industriais; os navios são movidos a vento e a electricidade, as aeronaves de hélices movidas a electricidade, excepto os enxames de planadores e uma espécie de asa-delta, que servem de locomoção preferida dos povos serranos ( além dos cabos teleféricos). Através do domínio da electricidade utilizam quase tudo que nós utilizamos, e aquilo a que não recorrem é por opção: excluem tudo, dizem eles, que prejudique o meio ambiente. Não existem desertos, porque irrigam continuamente as regiões mais áridas, recorrendo à água do mar dessalinizada, abrindo canais por todo o lado. Como precisam de muita energia, retiram-na da força do vento e dos oceanos, dos gazes do interior do planeta, de centrais energéticas por fusão.
Perguntar-se-á, e nós perguntámo-lo, porque é que não viajam no espaço; responder a esta questão é escrever um tratado sobre o progresso...Na verdade, muitos dos feitos espectaculares , e úteis com certeza, da nossa civilização, devem-se a causas perversas, por exemplo a guerra, a exploração do trabalho vivo, o saque. Não existindo pois entre eles esses factores contraditórios, o progresso segue rumos diferentes; determinadas metas não são sequer perseguidas, porque calculam perfeitamente os seus custos. São opções. Resta saber como são tomadas e que grau de repressão acarretam.
 Informei que este povo, embora saiba exprimir-se por articulação de sons – julgo ter dito que adoram o canto – preferem, todavia, comunicar pelos olhos, pelas mãos e pela escrita ; neste sentido, não existirá outro povo que mais e melhor escreva.  Aliás, premeiam, em datas festivas, os textos mais belos, colocando coroas de folhas e flores sobre a fronte dos heróis. As suas bibliotecas nada ficam a dever às nossas, pela profusa distribuição ( cada aldeia possui pelo menos uma) e pela grandiosidade de bastantes. As redes de informação colocam à disposição de todos o manancial de saberes ( os professores substituem muitas vezes os quadros pretos por um televisor de grande ecrã com o texto e as imagens recebidas pela rede). Tal como entre nós, há estudantes que se apaixonam completamente por estas tecnologias. A indústria editorial é inversa da nossa: como não está regida por critérios do lucro, publica-se em grandes tiragens tudo aquilo que já circulou em algumas cópias ou pela rede e que suscitou o mais vivo interesse. É uma prática comum a leitura de textos ao vivo, nas aldeias, ou pela televisão. Sempre acompanhada pela coreografia das mãos. Para mim as mulheres possuíam as mãos mais belas – finas, delicadas, de dedos longos com unhas bem cuidadas -, para a Beatriz a escolha recaía, naturalmente, sobre as mãos deles. Recordo um verso que alguém proferiu num espectáculo:” As mãos espelham o carácter”.
Quanto à religião desejo acrescentar ainda este comentário :  todas as religiões recentes ( refiro-me à Terra)  derivam de religiões mais antigas, e estas, por sua vez, de uma determinada crença universal primitiva ( no nosso caso terá sido o xamanismo); ora, este povo não “evoluindo” conforme nós evoluímos, nem possuindo os “três cérebros” que dizem que nós possuímos, não precisaram nunca de satisfazer desejos e medos profundos e primordiais; por outro lado, a sua organização social, diversamente da nossa, não precisou jamais de produzir mitologias que lhe servissem de justificação ou escape. De resto, e evoco agora este pormenor que me escapava, eles não possuem aquilo que nós definimos como o “inconsciente”. Penso que novamente se deve ao facto de ser diferente a sua constituição física comparativamente connosco. Ou provavelmente pelo facto de ser assaz diferente a estrutura familiar.
Este povo não possuía uma Constituição, muito embora fossem grandes cultores da escrita não desejavam um corpo de leis, visto que o sistema em que viviam era relativamente simples, habitual e claro. Disseram-me que só precisavam dela, por escrito sobretudo, aqueles povos que continham em si mesmos o princípio e os elementos de oposição interna, ou seja, ela exprime simultaneamente uma afirmação e uma negação, e as leis constituem mais uma proibição do que uma permissão. A verdadeira reforma dos costumes não se faz por simples leis, mas por outras medidas.
Sobre a sua organização económica e social posso ainda adiantar o seguinte: aqueles trabalhadores que, por qualquer razão, preferissem dedicar-se exclusivamente ao trabalho fabril, não possuíam mais direitos do que os outros, pois que o trabalho era pago em bens e tanto tinha valor o produto deles como o dos demais. Cada comunidade possuía oficina, assim como o seu próprio armazém para distribuição; mas não se impedia ninguém de procurar bens em outros locais se acaso os preferisse, tal procedimento estimulava uma certa emulação positiva. As indústrias maiores, ou as barragens por exemplo, eram administradas pelas comunas vizinhas. Evidentemente que a existência do dinheiro, equivalente universal, facilitaria as trocas, a criação de um comércio dinâmico, etc., porém recusavam-no, aceitando os riscos.
Esta ordem racional e livre, esta capacidade de escolher ou rejeitar, era deveras impressionante. Eu disse-o em determinada ocasião: “ Vós, meus amigos, imobilizais a História!”. Sorriram , respondendo-me deste modo: “ Eis um agradável elogio!”. Imobilizar qual História? Não é o progresso técnico o motor principal da nossa História segundo dizem alguns? Pois eles têm-no e bem. Um progresso que tem como finalidade a satisfação das necessidades de todos em abundância. Simplesmente a motivação não é o lucro privado no sentido que este termo possui entre nós. É um progresso controlado e planificado tendo em conta exclusivamente o interesse geral, construindo uma fábrica onde ela é mais adequada, uma central eléctrica onde ainda não existe, uma fazenda onde a terra se recuperou ao deserto ou ao mar. Cada comunidade apresenta as suas propostas, as suas necessidades, os seus cálculos. A elevada instrução técnica da globalidade dos cidadãos permite prescindir de especialistas, embora os melhores sejam escutados com atenção e os seus nomes afixados no aço ou no cimento das obras que ajudaram a erguer. 
Como não existem classes sociais de qualquer espécie, não há partidos políticos, como não existem partidos não há burocratas. É isto que eles dizem, não a minha opinião pessoal. Administram-se as coisas e não as pessoas. Uma comunidade dos trabalhos e deveres, um comunismo de produção. A existência de pontos de vista diferentes (tanto na população mundial como entre as comunas) constituem “correntes de opinião”, como nós diríamos, “escolas de pensamento”, que podem organizar-se em “plataformas de acção” com vista ao triunfo desta ou daquela solução concreta para um determinado problema concreto. A não existência de centralismo administrativo de qualquer espécie ( de governos, de monopólios, de instituições políticas) não exige grupos de pressão. Com vida longa pelo menos.
 Cada comunidade abastece-se quando e como quer, bastando que cada família alargada, requeira nos Centros de distribuição. Ninguém precisa, evidentemente, de carregar com mais do que necessita. A variedade dos produtos é suficientemente larga para se permitirem a diversidade; os artífices, dos dois sexos, renovam os padrões livremente. As necessidades são avaliadas de algum modo pela procura. É uma economia distributiva na qual os indivíduos concretos constituem o centro. Os media informam, mas presume-se que ninguém confunde as necessidades sociais com a realidade virtual.
    Eis alguns provérbios usuais entre este povo tão rico de espírito e fértil em aforismos: “ Tanto pode ser intolerante o bruto como o inteligente, com a diferença de que este não tem desculpa”; “ A felicidade é um estado perene de contentamento suave e constante”; “ O rico cobiça o paraíso para nele reinar, o pobre anseia por ele para nele morrer”. Tenho-me interrogado muitas vezes sobre este paradoxo : como é que um povo que não conheceu jamais como sistema de vida a desigualdade social e a intolerância foi capaz de modelar tais aforismos? Não menos surpreendente é o facto desta civilização, tão diversificada nas suas regiões geográficas mas tão comum em determinados aspectos da economia, não haver originado logo desde o início qualquer forma de exploração do “homem” pelo “homem”, nem que fosse num único e isolado local do planeta. Talvez precisamente por não serem “humanos”, a partir da lei do mais forte ou da organização familiar ( não conheceram nem uma coisa nem outra)? Tais características lembraram- me a fábula do “bom selvagem” que o filósofo Rousseau celebrizou, somente com a diferença de que estes não eram, de todo em todo, quaisquer “selvagens”...A vida inteligente percorre caminhos diversos e tudo é possível. Estes não necessitaram de conhecer o “mal” para arrepiarem caminho : percorrem simplesmente um rumo natural. Aldhor, o meu cicerone deste povo equilibrado, disse-me certa vez : “ Dada uma comunidade que vive solta, em condições amenas e com espaço abundante, pode-se esperar que essa comunidade goze um alto grau de liberdade; dada uma comunidade que é obrigada a manter-se diante de grandes dificuldades e no meio de grandes perigos, pode-se esperar encontrar nela pouca liberdade e muito governo.”
Tomámos conhecimento de que esta espécie bem singular não derivou de antropóides ancestrais; nos seus estupendos museus apresentaram-nos vestígios dos seus ancestrais primevos (ajudámo-los nessa investigação com o nosso equipamento científico): indivíduos exactamente idênticos aos actuais, que surgiram inopinada e subitamente por erro de cópia do ADN. Um “erro”, mutação, ou algo que chegou de fora, sabe-se lá. Ao que parece essa variedade sobreviveu ( enquanto a espécie anterior extinguiu-se), porque se organizou numa única comunidade cooperativa.
 Perguntareis porque é que não descrevi os hábitos culturais deste povo. Certamente que todos os detalhes estão registados nos nossos documentos que chegarão à Terra em bom estado, tudo faremos para que isso aconteça mesmo que nós próprios não regressemos com vida; seja como for, neste relatório que se quer sucinto, digo que já falei sobre muita da cultura deste povo: pois não é cultura também os costumes morais, o sistema de ensino, o seu desinteresse pelas religiões dogmáticas, a utilização das energias com critérios de segurança e limpeza, a beleza das pontes e dos caminhos, o encanto das suas aldeias rústicas ou o aspecto deslumbrante dos seus jardins urbanos? É claro que não existem nos museus objectos de arte religiosa, como nos nossos e que eu como os demais consideramos sublimes, nem telas ou esculturas imortais expressando as misérias da condição humana terrena ( quase sempre fruto da espantosa desigualdade que sempre assolou o nosso amado planeta), Velázquez pintando a estupidez e a arrogância dos poderosos em contraste com a simplicidade dos pobres, ou Goya reflectindo nos desenhos a amargura e o desencanto, ou Picasso imortalizando as Guernicas, ou Homero relatando as atrocidades da guerra...Na verdade, se pensarmos bem, a arte, a nossa grande Arte, é também o produto da brutalidade, assim como das rebeliões heróicas. Onde nada disso existir, ou existir apenas de uma maneira moderada e episódica, muito daquilo que alimenta a arte estiola. Não morre o impulso criador, nem o desejo pelo belo, mas são investidos de modo diferente. Não surgiu a grande Arte da arte popular e anónima? Aqui ninguém é obrigado a glorificar o chefe, porque não os há, nem os actos gloriosos desta ou daquela classe social, pois que também não existem. Não existem contradições sociais tão graves e intoleráveis que inspirem o homem sofredor. Nem mensagens de revolta (ou havê-las-á?). Embeleza-se o que se produz, transforma-se em coisa bela aquilo que a natureza fornece. Canta-se com garbo na plenitude das forças, com nostalgia quando elas fraquejam ou envelhecem. Canta-se o amor partilhado, mas também a insuportável tristeza por causa de um filho que morreu na flor da idade. Porque aqui também existe a doença e a morte, e inevitáveis amores desencontrados. Todavia, nem o amor é um comércio e uma telenovela, nem a morte um castigo do céu ou uma benesse para as agências funerárias.
Assistimos a festividades cívicas que demonstram bem o que digo. Em muitas delas a finalidade não é mais do que a exibição das qualidades físicas ou intelectuais: jogos de escrita, de canto, dança, competição física em terra, no mar ou em asa-delta e balões, jogos de xadrez e outros onde a destreza mental e o cálculo predominavam. Entregavam-se de alma e coração ao teatro mudo, mimos de mestria excepcional desenhavam coreografias impressionantes, bailarinos de ambos os sexos faziam levantar as multidões. Arte pura. No fim realizavam-se longos e concorridos bailes. A escolha sexual era assim habilmente promovida. Não nos admirámos, nem nós nem eles, que nestes actos juvenis surgissem vulgarmente ajustes de contas que produziam algumas perturbações na harmonia do conjunto. Contudo, as paixões deles não se comparam com as nossas. Com as minhas, devo corrigir, pois que nós somos muito diferentes, tanto no corpo como na cultura. Eu próprio envolvi-me sentimentalmente com uma jovem indígena, cheia de graça, pouco faladora mas muito expressiva com as mãos. Visitei-a diversas ocasiões mas sempre com discrição, para não alimentar “falatórios” no seio da tripulação sob o meu comando, sobretudo quezílias com a Beatriz, a qual, aliás, vingou-se justamente como quis... E andámos muito zangados com os ciúmes recíprocos.
   Qualquer um dirá que esta sociedade satisfeita e pacífica só foi possível porque a constituição biológica destes indivíduos é diferente da nossa ; e que, portanto, ela é uma pura utopia para o nosso planeta. É verdade, mas apenas em parte. Nada nos prova que a nossa história social se deva à nossa evolução biológica ou que estivesse inscrita nas condições das nossas origens. A lei do mais forte é certamente uma primitiva condição de sobrevivência, uma selecção dos mais aptos como se diz. Contudo  pode alguém garantir que a apropriação privada pela escravatura e pelo roubo, estivesse já inscrita no nosso programa genético, ou que seja um destino da Providência? É tão viável essa hipótese como a possibilidade de um mero acaso se haver transformado numa necessidade. O que resulta útil para os mais fortes não significa por isso que os dominados hajam de ser inaptos.
  Foi mais ou menos assim que se iniciou uma agradável conversação com um mestre de nome Aldhor, numa aldeia do interior, toda ridente e derramada sobre a vertente de uma montanha.
-          Tem alguma razão ( referia-me aos dominados), se nos lembrarmos que os professores dos romanos foram os escravos da Grécia. – informei. Já lhe facultara a consulta de uma história universal ( isto é, da Terra).
-          Pois lá está. Assim como um indivíduo mais débil é quantas vezes mais evoluído que um corpulento...
-          Há quem diga que de um homem pequeno se faz um grande homem. E as mulheres são um óptimo exemplo, visto que são regra geral menos fortes.
-          Claro. Assim como houve entre vós com certeza tiranos que eram pequenos homens... A raiz da dominação passa por outro lado. Os chamados inaptos são muitas vezes aqueles que se rebelam contra um determinado estado de coisas.
-          Não posso deixar de concordar em termos gerais. Porque é que aqui não há partidos políticos? – Desfechei. – Não que eu seja muito politizado, acho-me mesmo um zero em opções políticas!
-          Partidos?
-          Organizações de pessoas que concorrem ou lutam pelo poder, como aconteceu diversas vezes entre nós. Embora as coisas agora estejam basto diferentes e complicadas...
-          Compreendê-lo-ia melhor se me explicasse a vossa história política, que deve ser longa. Suspeito que tenha alguma coisa a ver com a desigualdade de fortunas e de hierarquias...
-           Mais ou menos. Contudo, constitui também o fulcro da vida democrática, apesar  desta expressão ser muito equívoca, e pareceis não apreciar termos equívocos...– Respondi.
-          Pois, preferimos iniciar uma boa discussão começando-a por uma boa definição.
-          E quem definiu?
-          Pode ser o preâmbulo de uma boa discussão. Não insinue que é o monopólio de uma determinada casta...
-          De modo nenhum! – Retorqui sem convicção.- Sou um bocado incrédulo em relação à política. Obedeço, como engenheiro militar que sou, a um poderoso governo de Accionistas.
-          Entre nós não existe a política, pelo menos no sentido que calculo ser a vossa prática. A sociedade civil entre nós é toda a sociedade. Os cidadãos, chamemo-lhes assim à vossa maneira, discutem onde e quando querem, nos locais de trabalho, nos centros de administração das aldeias, etc., votam... Elegem, destituem, criticam, elogiam, transmitem o que pensam e o que precisam aos diversos escalões da administração...
-          Quer dizer que possuem uma administração central? – Questionei.
-          Não sei o que isso seja. Dividimo-nos em aldeias, depois algo como regiões, províncias, utilizando a vossa linguagem. Cada área populacional comunica somente com aquela outra da qual precisa de troca de serviços, para uma empresa, por exemplo, situada a milhares de quilómetros de distância. Intermediários para quê? Precisamos apenas de redes de informação. O nosso povo merece viver sem o Estado. Ou seja, um estado social sem leis, um estado de costumes tão só. Não praticamos o Bem porque tememos fazer o Mal; o bem não violenta a nossa natureza, por isso o mal entre nós é uma mera suposição.
-          Chegámos há pouco de uma civilização que se regia pelo seguinte princípio :” Não se tornam as pessoas felizes diminuindo-lhes os seus prazeres”. – Disse eu referindo-me ao Planeta das duas etnias.
-          Estamos de acordo desde que esse aforismo não se aplique ao individualismo que não se distingue do egoísmo imbecil. Nós aqui começamos por ensinar as crianças a obedecer. De outro modo, que seria delas? Que sentido e grau de responsabilidade poderíamos esperar delas? Já observou um casal de aves a cuidar dos filhotes? Não há conduta mais carinhosa. Mas reparou como os pais incitam os filhos a abandonar o ninho?
-          Não estais de acordo então com educá-las segundo a sua natureza?
-          A sociabilidade não é apenas uma “segunda natureza” artificial, já está inscrita em parte na primeira. Nascemos naturalmente sociáveis.
-          Por toda a parte, porém, por onde tenho andado, vejo na natureza variados estratagemas de engano e de engodo, o disfarce e a impostura não revelam maldade, mas inteligentes capacidades de adaptação!
-          Entendo a que se refere: aos cucos, por exemplo, que põem os ovos no ninho dos outros...
-          E àqueles que expulsam do ninho os próprios irmãos...
-          Tudo isso temos por aqui, com outros nomes. Garotos caprichosos, namorados ciumentos, comportamentos sociais que não se distinguem muito dos comportamentos das outras espécies. Por isso eu dizia que o social não é completamente artificial nem necessariamente oposto ao biológico. Contudo, em primeiro lugar a nossa “segunda natureza”, deve servir a liberdade e não o contrário, ou seja, é o meio de conhecermos e estimarmos a felicidade ; em segundo lugar, a intrujice não é o único sinal distintivo da inteligência animal... é a conduta adequada da presa para enganar o predador.
                        Interrompemos a conversa para compartilharmos com as nossas companheiras a feitura do jantar.


 À procura do bicho na maçã.

 Logicamente que aproveitámos mutuamente a estadia. Trocámos informações e prestámo-lhes o máximo de auxílio possível. Fizemo-los viajar na nossa nave pela periferia do planeta, e foi muito difícil escolher quais poderiam ir entre tão grande multidão que se juntou. Explorámos deste modo as duas luas, ambas inóspitas como a nossa o era há poucos séculos atrás. Ficaram abismados sobre a extensão e composição do universo, segundo os nossos cálculos, a sua origem e duração. Conhecimentos que não pareciam colidir com as suas intuições e crenças.
Perguntei-me muitas vezes como foi possível e como era extraordinário o facto de serem tão semelhantes, o planeta deles e o nosso. Uma estrela parecida com o Sol quase à mesma distância, a formação de carbono e água, portanto hidrocarbonetos, e de uma atmosfera que as águas e as florestas ajudaram a compor, enfim, a reunião de condições que, em ambos os casos, propiciaram o surgimento de microorganismos unicelulares, protozoários, moluscos, peixes, a cadeia da vida. Quase uma cópia, as diferenças de pormenor não mexem com esta realidade: condições similares geram os elos fundamentais do sucessivamente mais complexo. Inclusivamente a mutação casual que permitiu o corte com o encadeamento dos processos adaptativos simples, ou seja, a emergência de uma espécie inteligente que não mudou a seguir essencialmente quase nada, não transgride esta caminhada paralela. Uma espécie extinta poderia ter-lhes dado origem, mas não deu.
Os nossos cientistas são, em geral, pessoas de espírito aberto e atitude liberal; os políticos não. Por conseguinte quando os nossos sábios travarem conhecimento com estas viagens extraordinárias da Quimera ficarão seguramente fascinados e muitos mitos e preconceitos hão-de ruir. Os habitantes deste planeta nem sequer são de pele branca, são profundamente morenos, embora sem cabelo encarapinhado. Com setenta mil anos de existência, nós ainda travamos guerras absurdas e fratricidas. Neste planeta longínquo, porém, fosse qual fosse a razão original da sua existência biológica, o progresso do seu povo foi constante e equilibrado, simultaneamente material e moral.
 Quanto à nossas tecnologias, a nave Quimera foi, sem sombra de dúvida, aquilo que mais impressionou os habitantes. Os mais jovens andavam sempre entusiasmadíssimos com isso e os mais idosos não escondiam alguma inquietação. Comparativamente não haviam alcançado o estádio da produção de combustíveis capazes de lançar uma nave para o espaço. Se eles quisessem e nós também, não nos era difícil de todo ensiná-los a fabricar o hidrogénio líquido, por exemplo e para começar. Esta questão suscitou grandes discussões entre eles. De qualquer modo sabem que mais dia menos dia outros terrestres chegarão, provavelmente com intuitos menos pacíficos que os nossos. O paradoxo de dominarem a electricidade mas não as propriedades do urânio, só o era para nós que já o fizéramos quase simultaneamente e sem avaliarmos as consequências.
  Em contrapartida viviam todos muito mais confortavelmente do que a maioria esmagadora da nossa população. Estavam muito longe das nossas taxas demográficas ( sobretudo aquela que tivemos no século vinte), na medida em que desde sempre não tinham mais do que um filho por casal. Cada aldeia possuía poucas casas ( o número era variável mas não chegámos a contar mais do que vinte), sendo porém todas elas muito amplas; em boa verdade eram edifícios quadrados com um pátio central, género claustro, com uma fonte e um jardim; cada um dos lados do quadrado era habitado respectivamente pelos mais idosos, os jovens solteiros, e dois casais do agregado. O edifício pertencia à aldeia ( ou comuna, se preferirmos empregar termos do nosso léxico), pois que, afirmavam eles, fora construído com o trabalho e os recursos da colectividade. Quando se constituía um novo casal, ia habitar um novo edifício se não coubesse no anterior, ou ajudaria a fundar uma nova aldeia, se acaso estivessem ultrapassando excessivamente o número de habitações. Não praticavam o contrato de casamento, dois seres uniam-se pelo tempo que desejassem, sem obrigações formais, na medida em que não existia sistema fiscal, ou qualquer outro. O desenlace de uma união não atingia particularmente o filho de ambos, visto que ele era protegido por uma família alargada e pelos vizinhos.

  Cada aldeia possuía um largo, ajardinado e arborizado, onde se sentavam os mais velhos vigiando bandos de miúdos. Os edifícios que rodeavam a praça constituíam os serviços de uso colectivo: o hospital, o posto de distribuição, os centros de reuniões e de cultura. Tudo gratuito; no posto serviam-se dos bens de que necessitavam. O centro de reuniões equivalia às nossas câmaras municipais, sob outro regime evidentemente. Para centro de cultura e lazeres a nossa expressão não é adequada – na verdade, não fazem distinção entre cultura, lazeres e trabalho. O termo que utilizavam para este edifício era equiparado a “nossa casa comum”. Dispunha de uma ampla sala de estar, aquecida no inverno por uma lareira monumental, um bar onde se serviam de uma excelente cerveja preta. Os jogos com que se divertiam aí eram obviamente diferentes dos nossos mais comuns, as cartas, por exemplo, são criações das antigas sociedades feudais que eles não conheceram. Apreciam um jogo muito curioso: trata-se de um exercício de escolhas possíveis, através de uma infinidade de combinações de atitudes e comportamentos, onde uma inteligente seriação das emoções desempenha um importante papel. Devo informar que me revelei bastante bom neste entretenimento, pelo qual éramos desafiados a dispor alternativas para problemas como estes :” Se eu for insultado como devo reagir?”, “Se alguém preguiçar enquanto eu trabalho, que devo fazer se ele exigir os mesmos direitos?”; “Se for abandonado pela pessoa que amo, como devo reagir?”; “Se, para aumentar o terreno arável, tenho de abater uma floresta, que devo escolher?".
A Casa Comum dispunha também de anfiteatro para espectáculos de teatro, música e cinema; e de ateliers para múltiplas actividades, dramaturgia, artes plásticas, por exemplo, onde se juntavam indivíduos de todas as idades. Nem sempre os resultados alcançavam elevado nível, mas ocupavam-se criativamente, o que não é de somenos importância, e propiciava-se a extracção, daqui e de acolá, de artistas de gabarito que apaixonavam a população do planeta. O teatro é completamente idêntico ao nosso, embora varie nos conteúdos obviamente; o cinema também, apenas menos evoluído tecnicamente; a música utiliza alguns instrumentos semelhantes ( de repercussão e de sopro) e outros que ignoramos : por exemplo, mecanismos que submetem determinados líquidos a diferentes pressões, obtendo assim sonoridades de timbre muito curiosas. Estas máquinas mágicas eram , só por si, um deslumbrante espectáculo: todas elas construídas de complicadas tubagens de vidro e válvulas, permitindo, sob mãos ágeis, uma rica paleta de sons, ora fazendo-nos imaginar uma noite de chuva, uma cascata, um córrego ligeiro e límpido acariciando seixos e canaviais, ora representando a imensidade rugosa e rouca das ondas do mar, e ainda toda a rica paleta dos cantos das aves.
 Todos os edifícios foram construídos pelos “vizinhos”, e nunca vi tantos a saberem tanto de tantas coisas diferentes.
As escolas situavam-se na periferia da povoação, assim como as oficinas, os estábulos dos animais, os silos de armazenamento das colheitas, ou uma grande fábrica se acaso a povoação a possuísse. É claro que os grandes centros de investigação, que exigiam maiores dimensões, ou os hospitais especializados, localizavam-se em outras zonas. A praça da aldeia, rectangular ou quadrada, constituía, como já disse, o coração da comunidade, sempre com um belo jardim. A leste e a oeste desenhavam-se as ruas paralelas, sem trânsito de máquinas, onde se enfileiravam as habitações ( de um só piso ou até três pisos no máximo); a norte situava-se a escola no centro de um espaço; a sul, o bairro das oficinas e, bastante afastados, os estábulos, estrebarias, etc. A aldeia mais próxima não distava, em muitos casos, mais do que dez quilómetros. Nos períodos sazonais dos trabalhos agrícolas juntavam-se todos os habitantes das aldeias da região. Não precisavam de chefes para coisa nenhuma, cada um sabia o que tinha a fazer e onde podia ser mais útil. Apesar da larga utilização das máquinas dispensar muito do trabalho braçal, quase toda a gente queria participar nestas ocasiões, das colheitas por exemplo, pela festa que propiciavam. Inclusivamente algumas fábricas suspendiam a actividade, a pedido dos seus operários, muito embora ninguém estivesse obrigado a um tirocínio nas labutas agrícolas.
  Visitámos importantes complexos industriais de produção de maquinaria agrícola. Nos portos marítimos alinhavam-se filas infindáveis de contentores com toda a espécie de bens e equipamentos a transportar em enormes cargueiros. Eu e alguns membros da tripulação da Quimera conversámos algumas vezes, enquanto observávamos estes espectáculos, sobre o quanto é ilusório termos julgado, como até ali julgávamos, que o frenesi industrial moderno exige capatazes autoritários, directores a tempo inteiro, especialistas exclusivos para uma tarefa específica quase vitalícia, sem mais nada saberem nem em mais nada intervirem. Fomos sempre convencidos de que sem isso mergulhar-se-ia no caos e na anarquia. Penso agora que a desordem sucede quando uma ordem é subitamente quebrada, principalmente quando essa ordem se apoiava na autoridade. O civismo deles media-se não somente pela organização do trabalho, mas exprimia-se também nos mais pequenos comportamentos, entretanto tão significativos para mim: dando passagem aos mais velhos e às crianças, conduzindo com sensatez, velando pelo asseio dos lugares públicos, cumprimentando-se sem afectação, os homens respeitando as mulheres e os filhos, todos passeando-se em magotes nas noites cálidas ou bebericando a sua cerveja preta em esplanadas acolhedoras ao pé do mar, marcando presença nos concertos de música, nos teatros.
 Certamente que a vós, como a nós, pode parecer estranho que uma economia industrial tão moderna funcione sem uma divisão do trabalho idêntica à nossa. Na realidade as suas escolas formam competências; apesar disso, eles provaram-me que um técnico não tem de ser um ignorante em quase tudo, livre de outras responsabilidades. O seu envolvimento com outras áreas da empresa permite-lhe compreender melhor a importância do que faz e participar verdadeiramente na gestão. Planificam periodicamente. Podem mudar de lugar e de papel por vontade própria ou por sugestão colegial.
  O vestuário era agradável à vista, cómodo e adequado às estações do ano, e relativamente diverso. Digo “relativamente” porque os jovens tendem, como os nossos, a vestir de modo diferente dos mais idosos, e as mulheres também em relação aos demais. O vestuário no caso deles não exprime a hierarquia social, mas o gosto. Quando tiram as roupas mais adequadas ao trabalho e se aperaltam para frequentarem os concertos e outros espectáculos, as mulheres tornam-se um regalo para os olhos. Utilizam sedas em abundância e um género de algodão; extraem também outras fibras vegetais que não conhecemos, inclusivamente da flora marinha. Com essas fibras fabricam também o calçado, embora também usem fibras animais.
 A alimentação varia pouco de região para região; como já disse, as culturas locais e tradições foram sempre mais homogéneas do que as nossas. As algas constituem um alimento essencial ; consomem abundantemente frutos secos e, de uma maneira geral, consomem mais peixe do que carne. O sal e o açúcar, por exemplo, são perfeitamente conhecidos, muito embora o segundo não seja extraído da cana mas de frutos e de tubérculos. Não conhecem o milho ; para além de variedades de trigo e centeio, cultivam uma determinada espécie de arbusto que lhes fornece uns frutos que, depois de amassados e convertidos em farinha, permitem o fabrico de um pão delicioso.
Permanecemos lá mais tempo do que as nossas ordens o permitiam. Todavia, necessitávamos todos de repouso depois das experiências anteriores. É um povo satisfeito, e nós que desejávamos alegrias, participámos gostosamente das suas festas. Uma delas foi assaz curiosa, porque se assemelhou em determinados aspectos a coisas conhecidas. Foi numa aldeia. Ao toque de instrumentos musicais, uma fileira de homens perfilou-se à frente de outra formada exclusivamente por mulheres. Desafiaram-se mutuamente, exibindo os corpos com requebros e pancadinhas nos flancos. A seguir, deram-se as mãos e trocaram de par com rapidez crescente, até todos serem um só, num círculo inextricável de encontros e de carícias fugidias e brejeiras. Não faltou sequer um indivíduo embriagado que rouquejava cantigas ao desafio, nem um poeta popular inspirado que soletrava sonetos sem ninguém o escutar, nem um músico desabrido que rompeu o círculo com o seu tambor, nem duas velhas que denunciavam os abusos dos novos costumes, nem as crianças que lançaram de cima das varandas copos de água sobre os dançarinos, nem algumas mães precavidas que arrancavam as filhas dos braços dos latagões embravecidos. Pela alta madrugada somente os papelinhos coloridos rumorejavam nas árvores.
 Dois dias depois deste acontecimento, Beatriz desapareceu. Debalde a procurei nos lugares previsíveis, debalde me informei junto dos mais próximos. Escapulira-se, como se o ar a tivesse levado. Foram dois dias angustiosos. Por fim, Beatriz voltou a ligar o comunicador que todos trazemos no pulso, o que me permitiu em poucas horas descobri-la. Fui encontrá-la numa ilha, belíssima ilha, a duzentas milhas da costa, reclinada nas areias cálidas de uma praia deserta. Intacta, na companhia dos seus fantasmas. Também a mim me apetecia, às vezes, fazer o mesmo, mas não mo permite a minha condição de comandante. Estava ao sol nua e bronzeada. Despi-me, acariciei-lhe longamente os cabelos, demos depois as mãos e, em silêncio, encaminhámo-nos para as águas frescas daquele mundo sem armas e sem guerras.
Depois, enquanto Beatriz enxagua os curtos cabelos, observo-lhe aquele corpo que mil vezes já vira. O pescoço magro e longo, os seios rijos, pequenos e empinados, a epiderme tensa e lisa do ventre, do centro do qual se suspeita, mais do que se vê, um fino carreiro de penugem suavíssima que vai desembocar numa farta cabeleira; cintura não estreita, ancas um poucochinho largas sobre as coxas demasiado magras. Contudo, as suas ligeiras desproporções desempenham sobre mim um papel estimulador, e não o contrário. Talvez o hábito, talvez o facto de eu a julgar mais minha do que de outros, talvez aquela sua frágil inserção no mundo.

( Este homem pensa que não regressa mais...- Digo para mim mesmo. A descrever estas coisas...O que lhe vale é que eu não posso disputar-lhe a mulher...Tenho de os fazer regressar!)

  O que é o desejo? eis que me interrogo, pela primeira vez a sério, e já cheguei aos quarenta anos.

(O apetite não é senão a própria essência do homem; entre o apetite e o desejo não há nenhuma diferença, a não ser que o desejo se aplica geralmente aos homens quando têm consciência do seu apetite e, por conseguinte, o desejo é o apetite de que se tem consciência. É, portanto, evidente, que nos não esforçamos por fazer uma coisa que não queremos, não apetecemos nem desejamos qualquer coisa porque a consideramos boa; mas, ao contrário, julgamos que uma coisa é boa porque tendemos para ela, porque a queremos, a apetecemos e desejamos.)

Enquanto estudei na universidade e depois durante os longos e penosos anos que levei a preparar-me para esta missão, pouco tempo me restava para me divertir com mulheres. Uma ou outra colega, sem consequências, um ou outro desenlace. Nunca pude aprender muito. Provavelmente não aprendemos nada, alguns de nós; com outros passa-se precisamente o contrário: parece que já nasceram sabidos – têm êxito nessas lides, prolongam as relações quanto querem, substituem-nas quando lhes apetece. Será que o desejo deles é bem diferente? O encarregado do refeitório da Quimera faz e desfaz os laços com as mulheres a seu bel-prazer. Surpreendentemente são inúmeras; e, porém, sabem perfeitamente quem ele é; estou em crer que a amiga que escuta os lamentos da que foi despedida, ou as delícias que ela relata, está já a interessar-se vivamente pelo moinante...
  Por associação involuntária, comparo o corpo de Beatriz, para mim tão sensual, com outros corpos femininos que vi por estes espaços fora, e foram bastantes. As fêmeas de pêlo hirsuto do minúsculo astro de um só vulcão: instintivamente dominadas por apetites, imediatamente exigentes, de orgasmo breve e fulminante. Thuulipa, a chefe indomável, com os seus mamilos enormes como faróis imperiosos, a sua visão triocular capaz de remexer nos meandros mais esconsos da mente de um homem, ao mesmo tempo que pratica um amor sábio. Os corpos com próteses mecânicas e electrónicas da Lua dos sábios, inventadas por essa população de génios, tanto para substituir órgãos doentes, como para lhes fornecer um erotismo prolongado – epidermes sintéticas colocadas sobre a pele menos bela, implantação de pilosidades no púbis, mais fartas ou mais discretas, desta ou daquela cor; arranjos cirúrgicos nas ancas ou nas coxas...
Dizia alguém, que não recordo, que o desejo é o movimento para o ser, esforço de perseverança, desejo da alegria; a tristeza reside na sua decepção. Neste planeta havia desejo seguramente; alegrias e tristezas. No entanto, raramente, que eu visse, a alegria se tornava direito de propriedade, e a tristeza impulso para destruir-se ou destruir a coisa amada. Talvez eu estivesse enganado, talvez eles me escondessem esses excessos, tão vulgares entre nós.

( - Não sei se foi a solidão dos espaços, ou, pelo contrário, os deslumbrantes encontros com o Outro, mas este homem é agora uma mente madura...- Digo para mim mesmo, interrompendo a leitura para pedir uma chávena de chá e um biscoito de soja.)

    Na realidade ignoro se Beatriz me ama ( amou? Que é dela, que a procuro, a desejo, a amo mais intensamente do que jamais, e não a encontro?). Ignoro se ela alguma vez conseguiu transformar em sentimentos sólidos o seu carácter tão contraditório. Somos todos egoístas, certamente, mas de modos diferentes. Ela é fugidia como um pássaro, ora arisca, ora dependente. E eu que sou? a aranha na teia, ou a presa que se debate?
  “Difícil inserção no mundo”, escrevi; antes escrevesse inserção no pequeno mundo confinado ao pequeno astro errante que é a Quimera. Beatriz carrega os seus espectros, tal como cada de nós, mas apercebo-me que, apesar de tudo, a nossa prolongada viagem agiu favoravelmente sobre nós mesmos. O que vemos, outros mundos que ensinam por comparação, tantas ocasiões o receio que nos faz unir, cooperar, que permite expormos o que há de melhor em nós, a identidade da situação – uma equipa que decidiu voluntariamente realizar esta missão e que sofre as mesmas agruras -, as quase férias que gozamos em alguns planetas visitados. Certamente que o espaço limitado da nave, o contacto permanente com as mesmas pessoas, a solidão no cosmo grandioso onde existem muito mais vazios do que vida, o medo dos encontros com o desconhecido, a incerteza sobre o nosso regresso, a ausência completa de notícias sobre os nossos familiares e amigos que deixámos na Terra – se regressarmos, estarão já mortos, ou desagradavelmente envelhecidos – tudo isto nos transtorna profundamente. Para nos opormos a estes sentimentos que rapidamente nos aniquilariam, utilizamos todos os meios de que a Quimera dispõe: os ginásios, a sauna, o bar, as salas de cinema e de jogos, a música...
- Estás triste? – perguntei, “Não, nem por isso. Não me apetece é levitar, como às vezes sucede...” – Quando estás feliz! – “Exacto. Sinto-me serena. Mesmo assim...” – Mesmo assim... –“Sinto falta de amigos. Afinal de contas, sou ainda muito nova! Ninguém me telefona, como se costuma dizer. Excepto tu, é claro...”
 Quando os nossos corpos estão juntos, atraem-se, pode dizer-se, sem resistência possível. Até ao dia em que um de nós decidir que isso já não basta. Quando a penetro, protesta, mas é apenas uma hábil (ou instintiva?) fantasia em que os primeiros “nãos” servem de estímulo. Contudo, não necessitamos de muitas fantasias, porque bastam as palavras para nos incendiar o desejo.
                 Sobre a praia caía o crepúsculo docemente. No mar, criaturas marinhas semelhantes aos nossos peixes voadores, disparavam sobre as águas como flechas de prata. No regresso, quando sobrevoávamos o oceano polvilhado de ilhas, vimos numa delas uma profusão de gente, dançando freneticamente, ao som altíssimo de altifalantes, e ficámos a conversar sobre os excessos contidos destes alienígenas...
-          Não sei o que se passa aqui...- Disse eu.
-          Como assim? – Interrogou, soerguendo o sobreolho.
-          Suspeito de qualquer coisa...Isto é demasiado perfeito.
-          Precisamente porque idealizas é que, a seguir, suspeitas...Isto não é a perfeição, com certeza; é muito bom, todavia.
-          Não te parece que se esconde qualquer coisa que não bate certo com o que vemos?
-          Queres dizer que eles escondem? Talvez, e então acho que fazem bem. Quem somos nós, afinal?
-          Pois, contudo é uma sociedade tão linear, tão regular!
-          Sim, parece-te demasiado normalizada, não é? Claro, para um anarca como tu...
-          Serei, e tu, não serás excessivamente conformista?
-          Porventura, meu querido comandante, mas quem dera que o melhor daqui existisse na Terra!
-          E o que é o melhor?
-          A ausência de preconceitos cruéis e discriminatórios.







Aldhor.

 Em outra ocasião retomei a conversa com o mestre-escola,  Aldhor, uma venerável figura, embora não ultrapassasse ainda os sessenta anos, completamente grisalho, uma barba cortada curta a cobrir-lhe as faces, um par de olhos negros luminosos, uma expressão sempre compreensiva. E sempre aquelas mãos morenas estupendas que caracterizam tão bem a anatomia daquele povo. Estávamos desta vez sentados à sombra de um robusto carvalho. Depois de lhe expor diversas épocas da nossa História, quando formulava as causas do surgimento do capitalismo, as derrotas das primeiras experiências do socialismo e, por fim, as consequências desastrosas aonde nos havia conduzido o nosso sistema de vida, o pedagogo comentou: - O amigo apresenta os factos como se entre eles houvesse uma causalidade necessária! Uma concatenação lógica...
-          Entendeu bem, meu caro professor.- Retorqui.- Realmente não sei garantir-lhe que essa concatenação exista efectivamente, ou seja, independentemente do mero observador, ou se ela é somente um determinado modo humano e histórico de pensar os acontecimentos.
-          Provavelmente é ambas as coisas, no caso do observador usar processos objectivos. Pelo menos não me repugna admitir, pela sua exposição, que o vosso capitalismo desenvolveu-se apenas quando estiveram reunidas determinadas condições. Nestes casos quem decide do rumo das coisas são aqueles que detêm o poder.
-          Houve também revoluções...
-          Já me disse isso. Mas repare: não é o poder que se joga nas revoluções?... A vossa história tem sido um desenrolar de sucessivos grupos que disputam o poder e que tentam fincar-se nele para toda a eternidade. As vossas épocas são classificadas segundo critérios que só a vós compete decidir sobre o seu rigor. Marcham para um alargamento das liberdades ou somente para um aperfeiçoamento da técnica? Ou para ambas as coisas? ( quando falava, desenhava expressivos gestos no ar)
-          E quem detêm o poder? Em determinadas épocas foram os barões da terra e da guerra, e os clérigos; noutras, são os barões da finança...- Redargui.
-          Pela vossa explicação não foi bem isso que concluí...
-          Então?
-          ...que foi a propriedade. Variando a sua natureza, ou o seu valor.
-          Não a pequena propriedade! – Corrigi com alguma emoção. É que conservo muitas dúvidas sobre a necessidade da sua extinção.
-          Você o disse, meu amigo. Cada um cobiça a propriedade para si, a propriedade comum ou o prédio do vizinho, se vier a alcançar mais riqueza, comprá-la-á, se não a puder antes invadi-la.
-          Sonhei sempre com um governo que o impedisse.
-          Com a força, não é? E os privilegiados anseiam pelo contrário.
-          É verdade.– Levantei-me e prestei atenção a um casal de aves ocultas na folhagem que cantavam como rouxinóis ao desafio. – O vosso país não conheceu nunca estes dilemas?
-          Pelo menos não põem a nossa história em movimento. De certo modo, à vossa maneira, nunca tivemos história. Nem classes proprietárias, nem revoluções políticas. No vosso caso as lutas parecem movimentar a história, no nosso não, ou melhor, as lutas são outras.
-          Como assim??
-          A nossa contradição principal foi e é o amor que temos por tudo que é natural e a necessidade, porém, de dominá-lo e submetê-lo para o nosso bem. Nesse confronto paradoxal não estivemos sempre isentos de erros e de excessos. Já secámos rios, quando era o contrário que pretendíamos; arrasámos montanhas para rasgar caminhos de ferro; provocamos inundações catastróficas por causa de barragens mal construídas; colapsam de quando em vez centrais eléctricas e muita gente morre por isto e por aquilo. Seria longa a lista de erros, precipitações, preguiça e cálculos mal elaborados. E não falo já dos cataclismos naturais. Sonhar com o contrário é puro devaneio. Deixe-me dar ênfase à nossa contradição principal: a eliminação absoluta da escassez é impossível, tanto num horizonte próximo, como num horizonte longínquo, já pensou alguma vez nisso? Já pensou que toda a inovação tecnológica ou produtiva nasce, necessariamente, escassa? O desenvolvimento é a expressão, ou a lei, da luta contra a escassez relativa; a bem dizer, é a equação escassez/inovação. Estimulamos a inovação, seleccionamo-las e, em seguida, produzimo-la em larga escala, e é este o nosso perpétuo movimento. Evidentemente que já fomos capazes de inventar a pólvora...e a dinamite. Apesar disso ainda não a utilizámos para nos trucidar uns aos outros. Os terrestres necessitaram de milhares de anos para fazer uso dessa antiquíssima invenção, e você falou de outras tantas, bem prodigiosas, frutos desperdiçados de cabeças geniais. Tudo isso dá que pensar, sobretudo a vós próprios. A que conclusões chegou? De que as razões da inutilidade de determinadas intuições geniais prendem-se com a sua precocidade, ou seja, nascem antes do tempo, não é?. Para disparar granadas são precisos canhões; para fazer dinamite não basta ter pólvora; para construir abóbodas foi preciso primeiro descobrir o seu ponto de gravidade. As técnicas andam ligadas com os cálculos, com os recursos, com a divisão do trabalho e com o valor de uso. Mas existe mais qualquer coisa e você sabe-lo bem : é necessário outro tipo de valor, seja o valor de troca, seja a quantidade de trabalho não pago, que permite que alguém enriqueça. Este é o vosso dilema, o motor do vosso progresso. É claro que nós também produzimos excedentes,  porém compõem-se de coisas que precisamos de acumular como reservas para o inverno, ou para trocarmos por peixe, por exemplo, visto que aqui onde nos encontramos estamos longe do mar. Não fique aí pasmado com a terminologia que estou utilizando: foi você próprio que me deu  elementos suficientes para eu concluir pela minha cabeça! No nosso caso, e escolhendo um exemplo ao acaso, mal a pólvora foi inventada, aplicámo-la imediatamente na construção de barragens e outras obras indispensáveis. Porquê? Porque não é o dinheiro e a guerra que nos governam. Como é que os terrestres passam o tempo? A forjar ideias que, ao mesmo tempo que vos protejam de inimigos, favoreçam a conquista –o império é sempre o vosso limite -, a perorar belas palavras sobre a fraternidade, ao mesmo tempo que degolais o irmão; a desprezar o outro só porque possui uma pele de cor diferente...que comportamento tão aparentado com os animais mais brutos! É medo, é ódio, é inveja? Sabe-se lá! Acha que estou a exagerar ou a ser ofensivo? – Interrogou-me com apreensão.
-          De modo nenhum! Temos tido homens de grande sabedoria que escreveram sobre nós palavras mais implacáveis. Se me permite terei muito gosto em deixar-lhe, quando partir, um dos meus livros de cabeceira. Chama-se Elogio da Loucura, e foi escrito há muitos séculos atrás.
-          Agradeço desde já. Levará também consigo exemplares de algumas das nossas melhores obras. Um destes dias, ao serão, ainda havemos de conversar sobre poesia, aquilo a que chamais de poesia...Entretanto, voltemos ao tema de que falávamos: grande parte da vossa história, e tomo como v­erdade aquilo que me contou, grande parte dos vossos progressos, deveu-se, no fim de contas, a acções que nós classificaríamos como próprias dos animais...Olhe que isso dá para pensar. Um espécie sugestionável, que navega em ilusões, que fabrica ídolos e imagens, facilmente manipulável por impostores...Não falo de si, nem dos seus companheiros, evidentemente.
-          Acabamos todos por ser feitos da mesma massa.
-          Bom, por acaso até já tinha notado alguns comportamentos agressivos, ou tontos, de determinados membros da tripulação, mas não tem importância, não resultaram quaisquer prejuízos por causa disso. Temos consciência das nossas diferenças, e peço-lhe que acredite que a nossa tolerância é feita de estima e admiração, não é um mero protocolo.
-          Creio sinceramente nisso que me diz. Toda a tripulação anda satisfeita com a vossa generosa recepção, e só temos motivos para agradecer.
-          Muito bem; e não julgue que o fazemos por medo, refiro-me ao vosso poderio bélico. Embora a princípio fossemos cautelosos e tomássemos medidas para evitar o pior.- Insinuou Aldhor.
-          Humm... E quais, posso saber?
-          O amigo vai perdoar-me, mas nem tudo pode saber. Da mesma maneira que os senhores não nos facultaram todos os segredos técnicos...
-          Compreende certamente que, no que se refere ao armamento sobretudo, estamos impedidos em absoluto.
-          Claro, e fizeram bem, isso defende-vos e defende-nos. Certas coisas é melhor ignorá-las.. Julga que não existe aqui também quem tente fugir aos deveres? Preguiçosos? Manhosos que procuram arrebatar privilégios? Somos bem diferentes de vós, culturalmente, sem dúvida, todavia em toda a parte o indivíduo opõe-se à espécie, creio ser mesmo este o traço que assinala o aparecimento da inteligência autoconsciente, não concorda comigo? Eu conheço apenas o meu mundo, você conhece muitos, por isso talvez seja eu que esteja errado, mas é assim que penso. Em suma, meu amigo, no vosso caso a propriedade foi inevitável porventura, no nosso não foi. No vosso, ela trouxe-vos muitas vantagens históricas, no nosso nunca dela precisámos para atingir o bem-estar de que usufruímos. E como nunca ninguém pôde demonstrar que com ela estaríamos bem melhor, dispensamo-la. Duvido mesmo que entre nós haja alguém que alimente esse projecto pessoal. As nossa ambições, comparadas com as vossas, são mais modestas: brincar na juventude, trabalhar e inventar alguma coisa útil na idade adulta, ser amado, ensinar e repousar na velhice...rodeado de netos, nossos e dos vizinhos.- Filosofou Aldhor.
              Risa, a companheira do mestre, uma  médica simpática e enérgica, enviou-nos um recado, através de um garotinho, para lancharmos.
-           No vosso caso também são as mulheres que normalmente mais se opõem a determinadas estratégias que consideram nocivas, agressivas?
-          Com as mulheres da minha tripulação noto isso mesmo. Tudo que é agressão física lhes desagrada. Mas algumas são hábeis em outras formas de agressão...
-          Ah, as mulheres!...A minha velhota chama-nos! Antes de irmos, porém, deixe-me acrescentar uma coisa mais: não definimos claramente o que seja isso a que você chamou de utopia. Julgo ter percebido que é um sonho, digamos racional, uma aspiração de aperfeiçoamento, se não mesmo de perfeição. Se é isto, então digo-lhe que entre nós não existe essa tal utopia da propriedade privada, mas uma outra bem diferente, aquela que me acalenta a mim e aos meus amigos e que eu ensino aos meus jovens alunos: o desejo, concreto e activo, de melhorar sempre a nossa sociedade!
-          Compreendo... Não reflecte isso, apesar de tudo, um certo conservadorismo, e se calhar mais nos idosos do que nos jovens?- Perguntei.
-          Muito provavelmente, porque não? A minha utopia é a eterna juventude do mundo! ( E desenhou com um dedo espetado um semi-círculo, como se fosse um arco-íris)
-          Já também no meu se aplicou essa expressão para determinada doutrina...- Comentei com surpresa.
-          Isso admira-o? Acha que a natureza, a vida, anseia pela degradação, pela corrupção, pela morte?
-          Olhe que não sei! Os caranguejos alimentam-se da putrefacção...os vermes, dos nossos cadáveres! É uma banalidade afirmar-se que a vida de uns depende da morte de outros tantos. A cadeia da vida, aqueles sistemas que nós designamos como ecologia, é uma permanente guerra na qual não se dá ao adversário a mínima hipótese.
-          Obviamente, e aqui , em todo o lado, também.
-          Existem aves marinhas entre nós especializadas na pirataria, as formigas utilizam uma estratificação social que se assemelha inquietantemente à dos humanos. Terrestres quero dizer...
-          Claro, claro...Mas permita-me regressar ao tema da juventude, para dizer que esta é empolgante mas de pouca confiança!
-          Julgo perceber. Mas o professor é um mestre em paradoxos! Ainda há pouco declarava a sua utopia como a juventude do mundo... –Retorqui.
-          Claro que percebe, mas não conhece a história que vou contar-lhe, se tiver paciência para continuar a escutar-me...- E sorriu com malícia.
-          Vamos a isso!
-          Pois bem : quando eu era jovem, muito novo mesmo, assisti a um grande reboliço na minha região, causado por um indivíduo que atraía chusmas de gentes. Tratava-se de um homem ( continuo a utilizar as vossas classificações para facilitar a conversa) indiscutivelmente muito dotado, principalmente quanto a beleza física e  a oratória. O amigo já observou com certeza que aqui apreciamos naturalmente a estética, mas acautelamo-nos com as oratórias...
-          Na escrita ninguém vos bate...- Corrigi.
-          Exactamente, refiro-me à utilização de prédicas. Não temos a vossa tradição...
-          Não a desprezamos, meu caro professor. Um bom discurso é como o sal para a comida.
-          Seja. E certamente que com a escrita também se pode fazer muitos estragos. Mas voltemos à pequena história. A verdade é que o tal indivíduo começou a galvanizar os jovens, sobretudo as jovens, como calcula. O homem arrasava corações...Tudo bem para os “velhotes”( como nós chamávamos aos adultos), achavam até alguma graça àqueles arrebatamentos. Tudo parecia caminhar sobre rodas, quando se verificou, porém, que o indivíduo começou a propagar projectos revolucionários...
-          Mau, já pressentia que na melhor maçã entra o bicho!- Interrompi-o sibilinamente.
-          Explique-se!
-          Quero dizer que o óptimo é inimigo do bom, isto é, que a vossa sociedade é muito permissiva, mas não parece tolerar as oposições!
-          Em que se baseia para deduzir isso que está a dizer? Viu cárceres para os delitos de opinião?- Retorquiu Aldhor sem impaciência.
-          Não, não vi, mas não os haverá para aqueles que agem e conspiram? Ou pior ainda: cárceres preventivos? –  Não disfarcei o mais vivo interesse.
-          O amigo está connosco há tempo suficiente para os ter descoberto já se eles existissem; de resto, os senhores movimentam-se quando e para onde querem...Por outro lado a nossa mente é assaz diferente da vossa, como já reparou. Não precisamos de prisões, meu caro, quem não está bem num lugar, muda-se, quem não aprecia uma determinada actividade, substitui-a, as horas de trabalho têm diminuído tanto que até isso é raro, quem quiser discutir o que quer que seja, pode fazê-lo nos momentos e nos lugares próprios, não existe corrupção pelos instalados porque não há Estado, nem outros factores de enriquecimento pessoal. Diga-me lá: a corrupção entre os índios da vossa Amazónia, a ter existido, foi idêntica à corrupção das vossas sociedades modernas?
-          Tenho a certeza de que não. O professor utiliza com mestria as informações que lhe prestei sobre a história do meu mundo...E aqueles que desejam enriquecer, por direito do seu mérito próprio, ou cultivar a sua terra, e por aí fora? Enfim, que desejam simplesmente outra coisa?
-          Mas o que é isso de minha terra, de minha fábrica?! Para que é que eu quero uma fábrica inteira só para mim, diga-me lá?! A brincar até ma poderiam dar gratuitamente, para depois ficarem tranquilamente à espera que eu trabalhe nela sozinho. No vosso caso a escolha é entre ser operário e ser empresário e não duvido que esse sistema vos haja provocado importantes progressos materiais. Esse sistema, contudo, porque é injusto e feroz, pode explodir a qualquer momento, por mais brutalidade e mentira a que recorra. Meu amigo, se realmente foram as minhas mãos que nela, nessa fábrica, colocaram alguns tijolos, foram muitas mais que acabaram o resto. Não me explicou você que o capital, aquilo a que chamais o capital, não é apenas dinheiro mas uma determinada relação entre desiguais? Isto é, que somente se verifica quando muitos não possuem nada, excepto a capacidade de trabalho? Acha que aqui isso é possível?- Argumentou Aldhor.
-          Não o verifiquei realmente. Mas voltemos mais uma vez à tal história...
-          Bem. Então o nosso homem apoiou-se sobre os ombros da multidão de jovens, que o admiravam com fervor, e desatou a atacar a “mediocridade” a torto e a direito. Repare: medíocres eram os outros, e ele que era brilhante e popular, achava-se com direito a privilégios. Por fim, como as coisas estavam a azedar, e os jovens pressionavam,  combinou-se uma reunião geral. Os adultos, evidentemente, recusaram-se a discutir apenas o caso particular do indivíduo em questão, pois isso era atribuir-lhe de imediato a importância que ele ambicionava. Usando os vossos termos, discutiram-se antes as filosofias, os projectos, as alternativas. Beneficiou de todas as oportunidades para se expor, e imagina o que aconteceu? Pois o nosso homem engasgou-se o tempo todo e nada construiu! O brilhantismo dele era vácuo, quanto a projectos nada, excepto mais diversões e menos trabalho. Que pensava ele sobre a nossa opção pelas energias limpas? Que propunha ele em substituição das nossas comunidades cooperativas? Que propunha ele para incrementar a produtividade, e porquê uns haviam de mandar e outros obedecer? Nada que se visse! Apenas banalidades, como, por exemplo, dar mais importância ao “mérito”...Pois os adultos disseram, e bem, que o mérito via-se nas ideias e nas obras.
-          E sobre a propriedade, não defendeu nada? Sobre a liberdade de investir, de ganhar mais conforme se trabalha mais, o mercado...- Disparei as perguntas que me preocupam.
-          Ó meu amigo, quem é que quer trabalhar mais do que o necessário?! Direito à terra?! Mas isso acontece quando a terra é abocanhada por uns poucos deixando os restantes a vê-la por um canudo! Direito ao livre comércio?! A nossa divisão do trabalho não provoca  a necessidade de uma classe de comerciantes. Não transponha para os outros as vossas experiências. Você quando observa a diversidade de estratégias, de comportamentos, dos seres vivos, pensou alguma vez que isso mesmo pode suceder com as organizações sociais?
-          Li alguma coisa sobre isso.
-          Então, lembre-se disto : certas variedades começam pouco a pouco a diferenciar-se das espécies comuns porque sobrevivem melhor a determinado ambiente. Por isso a variedade das vespas “assassinas” alimentam os filhos com lagartas vivas, antigos lagartos surgiram com penas e asas, fantástica vantagem para defesa e caça, umas são frugívoras e outras carnívoras - e caçam lagartos!-, há-as tecelãs e há as que escavam buracos nas falésias. Antigos mamíferos em lugar de expelir os ovos e criarem-nos fora,  passaram a guardá-los na barriga. Os antílopes nascem prontos para correr, os filhos dos homens não.... A vossa História é um catálogo espantoso de contradições, reacções em cadeia, contactos umas vezes producentes, outras vezes não. Uma imensa teia que se foi interligando. A diversidade e a variação, serão porventura as palavras diferentes e mais adequadas para descrever a vossa experiência. Começaram num único local e emigraram depois, ou surgiram em locais diferentes, todos iguais e todos diferentes? Pobrezinhos dos vossos estudantes, que tanta coisa têm que aprender!
-          Bem dito, caro professor, bem dito! Difícil, é muito difícil escolher entre a diversidade, que muito deve ao acaso, e a uniformidade, segundo padrões ou tipos, que privilegiam uma determinada necessidade. Comparo com o magnetismo, cujo campo de forças se alinha segundo determinadas direcções, ou a espantosa formação dos cristais...
-          Talvez o acaso e a necessidade sejam as faces opostas da mesma moeda...seja como for, quem sou eu para discutir convosco matérias científicas tão avançadas!, costumes semelhantes tornam as pessoas semelhantes entre si.
-          Porventura por mero conformismo e imitação...
-          Porventura. Não deixa de ser, por causa disso, uma lei tão material e objectiva como todas as outras...E, se calhar, é mesmo isso que a maioria deseja.
-          O que reforça a tese de que são algumas personalidades inconformistas que transformam os costumes...
-          Será?  Para em seguida se assemelharem todos...
-          Então, qual o castigo a aplicar aos prevaricadores?
-          O trabalho produtivo. Não vislumbro outra alternativa mais adequada a uma espécie que subsiste e progride pelo trabalho.
-          “ Quem não trabuca não manduca”, como se diz na minha terra natal?
-          E porque não há de ser assim? Com excepção óbvia dos doentes.
-          Certamente, mas quem decide o quê? Não possuem tribunais como os nossos...
-          E os vossos, são todos idênticos?? Pelo que sei utilizais colectivos...
-          Sim, júris....
-          Nós também os utilizamos. É o povo de tal ou tal fábrica que decide quem prevarica e qual o castigo.
-          Com que regras?
-          Aquelas que o povo estabeleceu na fábrica e na aldeia.
-          Parece tudo simples, demasiado simples...Aplicam quotas de produção na empresa?
-          Com certeza, com esse ou outro nome. Cada comunidade decide o que precisa, quando e quanto. As assembleias “regionais” e “provinciais” reúnem regularmente...
-          Ah bom! Então sempre há alguma centralização e representação?!
-          Não se constituem cargos, classes distintas, delegam-se apenas mandatos curtos e muito precisos. De resto, as redes de informação medem o pulso permanentemente à economia.
-          Ainda quanto aos prevaricadores: existem, para eles, campos de trabalho, ou seja, prisões onde o trabalho é forçado?
-          De modo algum! Nunca os juntamos. Cada empresa trata dos seus. Prestam também serviços à comunidade a que pertencem. Nesse sentido, todo o trabalho deles é forçado. Em horas extraordinárias, por exemplo. E não têm como nem para onde fugir.
-          Como é que se distribuem os produtos?
-          Cada comunidade possui a sua frota. Caro amigo, vamos saborear uma excelente compota de amoras silvestres, invenção da Risa?- Rematou Aldhor.
Olhei-o com admiração. Dividido entre o desejo de acrescentar novos mundos ao mundo e o desejo de permanecer naquele, serenamente, anonimamente.
   Ao serão juntámo-nos novamente ao pé de um magnânimo plátano, sentados comodamente em cadeiras de verga ( as mobílias são de bom gosto, construídas por artesãos em manufacturas da aldeia).
-          Se não se importa - Comecei eu.- Gostaria de repescar um tema que aflorámos na última charla.
-          Diga. Saboreie primeiro este refresco e comente. – Pediu Aldhor.
-          Excelente! É de...?
-          De uma fusão, de um híbrido entre o melão e a melancia, utilizo o vosso vocabulário.
-          Os vossos híbridos estão aprovados. O tema era pois o seguinte: admitamos que os seres humanos...
-          Terrestres. A vossa chegada obrigou-me a reflectir muito sobre a possibilidade de todos nós sermos “humanos” no fundo.
-          Não me vai dizer que fomos criados por um Deus único!
-          Eu que não possuo uma mentalidade “científica”, pelo menos igual à sua, digo-lhe que não tenho razões nem para acreditar, nem para desacreditar, numa existência que ultrapassa o meu e o seu mundo. Mas note bem, uma existência inserida porém nas forças naturais. Nós também conhecemos aquilo a que vocês apelidam de “segundo princípio da termodinâmica”; pois eu creio que a degradação da energia não conduzirá à extinção do universo! Extinguem-se mundos, não haja dúvidas, mas os fundamentos criadores e propulsores do universo, esses não. Sendo assim, esta eternidade, que é também infinitude, impressiona-me até deixar-me silencioso como uma coruja que perscruta as trevas.- Observou Aldhor.
-          Atitude bem “humana”! Na verdade, onde existir um animal que contemple as estrelas que estão no alto e observe a lei moral que tem dentro de si mesmo, então esse ser é um homem.- Pronunciei enfaticamente.
-          Não é nada má essa definição, não senhor! Afastámo-nos, porém, do tema inicial...
-          Tem razão. Na outra ocasião pintámos os humanos como pueris, imaginativos, patéticos ; pois se a imaginação é uma marca da espécie, julgo eu que esta capacidade permite-lhe também criar mundos, recriar o único que conhece, pô-lo do avesso, distanciar-se das prisões do quotidiano, dos hábitos, das crenças comuns rotineiras, de sentimentos de fatalismo. Aconteceu algo com aqueles marinheiros que ultrapassaram pela primeira vez a linha do horizonte.
-          Certo. Conhecemos esses fenómenos. O contacto convosco foi o maior deles.
-          Ora bem. O interessante, todavia, na imaginação, é que por meio dela podemos realizar viagens imaginárias, elaborar projectos, deduzir as consequências de uma ideia, formular hipóteses inovadoras ou, pelo menos, arriscadas, o que nos dá uma sensação de liberdade. Curiosamente quanto mais tristes e solitários mais o fazemos. Certos indivíduos fazem-no nas masmorras. Creio que a imaginação é uma espécie de trave mestra da consciência. E a auto consciência é, segundo o meu ponto de vista, o fenómeno mais singular da natureza. – Disse-lhe.
-          Gosto de o ouvir falar assim. A consciência pessoal. Alguma coisa nos distingue das manadas de quadrúpedes. Julgo, contudo, que essa capacidade é também o fruto de uma determinada organização física... A imaginação não deixa de ser imaginação, mesmo sendo racional. Se as percepções não nos merecem sempre grande confiança, a mente desgarrada é bem mais traiçoeira. Repare bem no processo: a mente, porque pensa, toma-se a si própria como independente do corpo, e até com direito a dominá-lo...
-          Exacto. O nosso matemático de bordo, que é originário de uma região à qual chamamos Índia, diria que a mente está sempre desejosa de se apresentar como “pura”, sede das virtudes, da única verdade, do governo, etc. – Disse eu.
-          Claro.- Comentou Aldhor.- Deve haver por aí o hábito de obedecer e venerar os reis...Por cá nunca os houve.
-    Mas, ao mesmo tempo, o nosso matemático arremete contra o corpo, essa fábrica de     ilusões...
-           Provavelmente concluiu das minhas palavras que eu sou adepto do simples determinismo natural. Embora possamos atribuir muita importância ao que é natural, e bem na minha opinião, acreditamos na realidade objectiva das relações que os indivíduos estabelecem entre si, quer gostem ou não. A mente é formada também por elas. Eu percebo, por exemplo, que, entre vós, a família desempenhe o papel primacial. Todavia, qual é a definição universal de “família”? Qual é a melhor organização familiar? Adoramos ter bons vizinhos. Rejeitamos urbes desumanas, rejeitamos armazéns onde se comprimem multidões.
-          Sem as cidades não existiria a civilização...
-          Teria de definir-me o que é “civilização”. Quanto a nós, seguramo-nos nos laços de vizinhança, tão próximos quanto possível. Surgimos tarde, mais tarde do que vós, não somos o resultado de uma longa e tormentosa evolução. No vosso caso tendes de lutar arduamente pela igualdade, pela justiça e pela paz, sonhais com isso, imaginais outros mundos...
-          ... utopias.
-          Utopia? Ora aí está uma bela palavra. Pois neste mundo recebemo-la não como horizonte mas como condição. Convosco conquistámos uma nova utopia, meu amigo: comunicar com a Terra para o bem de todos nós.
Fez-se um silêncio comovido. E eu fiquei meditando sobre os malefícios que hão-de vir desta comunicação entre as duas famílias do universo.

Um dia depois desta conversa assistimos a um acontecimento dramático que serviu para testar a coesão social daquele povo. Aconteceu que uma importante barragem não pôde conter a enxurrada de águas inopinadas que romperam nos meses do outono. A fortaleza do lençol líquido ultrapassou a construção e arrasou uma vasta área a jusante. Nenhuma povoação foi atingida violentamente porque não edificavam tão perto que isto pudesse suceder em ocasião alguma, muito embora a longa distância a inundação fizesse os seus estragos e, sobretudo, destruísse extensos pomares e culturas da época. Verificámos então como se mobilizava espontaneamente um país inteiro. De todas as partes, das regiões mais remotas, chegaram víveres e medicamentos, hospitais de campanha, os mais destros na medicina ou os mais hábeis na edificação de abrigos temporários, carradas de materiais, filas de veículos, exércitos de voluntários. O drama fora assim minorado, a esperança rapidamente reposta, pela boa vontade, pelos laços que uniam aquelas gentes, pelo controlo da situação, pelos meios de que se proviam para eventualidades semelhantes. Não que não encontremos comportamentos similares na Terra, mas aqui nenhum tempo se perdeu com burocracias, atribuição de responsabilidades ou pseudo inquéritos que não costumam conduzir a parte nenhuma, hierarquias que entravam, indiferença de um país pelo outro, necessidade de pedir empréstimos e contrair dívidas, ineficácia dos meios por via do desleixo ou corrupção, etc.
 Este sucesso dramático, que nos ocupou a todos durante algum tempo, provocou-me uma torrente de perguntas que dirigi mais tarde ao mestre Aldhor. Estávamos tranquilamente sentados na praça da aldeia. Soprava uma aragem fresca. Chilreavam os pardais. Os bancos verdes de madeira. As acácias em flor. Uma taberna ao fundo de onde saía de quando em vez um “vizinho”, munido do seu jarro de cerveja preta para o jantar, às vezes um sortido de carnes fumadas. Um relógio na torre altaneira deu as horas com badaladas potentes, que lembrou aos pássaros a hora de tomarem o seu lugar na ordem dos poleiros. O gado mugia ao longe encaminhando-se para os estábulos. Os garotos corriam atrás de rodas, dirigindo-as com um arame. Os velhos discorriam sobre o tempo. De hora a hora chegava uma camioneta, silenciosa, coberta de pó, largava passageiros, partia de novo com o motorista respondendo ao aceno dos velhos. Uma linda moçoila atravessou a praça, meneando as ancas esbeltas, batendo sonoramente os chinelos no chão de pequeninas pedras brancas e negras, e arranjou o cabelo quando desfilou à nossa frente. Os candeeiros públicos acenderam-se. Caía mansamente o crepúsculo. Na Terra, nos confins da galáxia, quantas aldeias assim? Talvez uma rapariga idêntica cruzando uma praça igual, sonhando com a grande cidade.
-          A Eternidade é imóvel. Um eterno presente.- Sentenciou Aldhor.
-          Ó mestre do paradoxo! Ainda há pouco concordávamos que a vida equivale ao movimento!
-          Ora, ora, isso é apenas um acontecimento numa eternidade que não tem duração.

           Despedimo-nos deles com alegria, porque na realidade não era pena que sentíamos na partida. Pena por quem? Por nós? Partíamos mais confiantes, mais sossegados. Com algumas dúvidas, não o nego ( e para deixar sossegado o Directório...). O que transmito deve ser um relato objectivo e que, sobretudo, demonstre algumas vantagens económicas para a Corporação que financiou a viagem. Ignoro se podemos aprender algum dia com aquela sociedade, mas talvez possamos aprender com as suas estratégias firmemente prosseguidas no que diz respeito à selecção dos recursos económicos e técnicos. Aldhor recusou sempre classificar o sistema em que vive como um paraíso; preferia falar em soluções que se ensaiam e que resultam, ou ainda em opções racionais.
Num dos voos que realizei sobre este astro, detectei um arquipélago bem no meio do oceano, onde se plantavam edifícios insólitos que me pareceram prisões ou quartéis militares; suponho que pertenciam ao primeiro caso, porque não observei o mínimo sinal suspeito de existência de armamentos, de indivíduos armados ( e é isto que interessa ao Directório...). Se acaso eram prisões ( não me pareceram de todo hospitais ou centros de repouso) devo admitir que Aldhor, e outros, sonegaram-me esta informação, embora ele haja admitido que existia alguma delinquência. Prisões comuns, prisões de delitos políticos? Quem consegue responder quando eles próprios não distinguem entre delitos políticos, económicos e sociais? Seja como for, é de crer que num mundo onde toda a gente parece labutar para um ideal de produção controlada, que conceda a máxima satisfação, a igualdade, ou melhor, a “desigualdade harmoniosa” como dizia alguém, não agrade a alguns. Vamos admitir, até, efeitos perversos da nossa estadia nesse mundo relativamente asséptico, defendido de intrusos ou vizinhos completamente diferentes – o desejo de serem como nós, de dispor do nosso potencial bélico, das nossas maravilhosas naves Quimera, etc., talvez tenha ficado a “trabalhar” nas cabeças de bastantes, acicatando pulsões reprimidas, quem sabe?, de aventura e conquista, de poder e de glória. Se vier a verificar-se o intercâmbio de culturas eles ficarão a perder, mas alguns deles descobrirão vantagens insuspeitadas.
  Seja como for, a estratégia calculada e manipulada por aquele povo suscita a mais sincera  e profunda admiração. Serem capazes de analisar em conjunto um projecto, definir-lhe as prioridades em função das finalidades a médio e longo prazo, produzir ou distribuir os meios, adiar, ou mesmo reprimir, determinadas necessidades, coagindo alguns dos nossos direitos naturais em nome do interesse geral, conseguir tudo isto é obra! Equivalente a um jogo, digamos a um jogo de alta competição, mas onde se joga não só o imediato como o futuro, o singular e o geral. Uma prospecção inteligente, tanto das necessidades e motivações individuais e colectivas, como dos recursos e dos meios. Uma escolha premeditada e corajosa da maior soma de vantagens sobre um dos pratos da balança. A paciência para saber esperar colher amanhã aquilo que se semeou hoje. A extrema habilidade para propiciar a cada qual o lugar mais adequado, o solo mais fecundo para a sua vocação, o espaço suficiente para se exprimir. Sem um Estado omnipotente e paternal. Antes um consentimento generalizado que reflecte um cuidado muito grande com a informação e o conhecimento. Para que isto se consiga, é preciso que um povo inteiro conheça o melhor possível todas as variantes, alternativas e consequências. Julgo que agora percebo os seus aforismos: discorrem sobre a desigualdade como se a experimentassem, sobre os efeitos da injustiça como se dela houvessem sido vítimas, sobre a natureza opressiva e burocrática do Estado como se experimentassem uma sociedade de classes, ou um Estado autoritário. Exemplos suficientemente demonstrativos do modo como sabem utilizar os modelos lógico-matemáticos como instrumentos da imaginação racional. Eis a razão porque Aldhor avaliava a História da Terra como se eles a utilizassem como referência. Mistérios. A importância que prestavam à informação era por demais evidente; informação facultada a todos pela “rede”; publicitada, discutida, instantânea e completa; informação que dispensava o Estado, mas que convertia os professores numa elite decisiva, pelo papel que desempenhavam na transmissão junto das novas gerações e da circulação das ideias na “rede”, na investigação científica, na análise estatística, no cálculo das probabilidades, na assunção das opções. Questionei Aldhor sobre isso : - Não caminhais para uma gerontocracia?, tendo sido esta a sua resposta: - “Em primeiro lugar não sonegamos a informação, fornecemo-la inteira e grátis; em segundo lugar, promovemos a sua criação nas escolas, livremente, e distinguimos os seus autores exclusivamente pelo mérito”. Seja ou não uma gerontocracia, não tem a apoiá-la nenhuma polícia política.
Finalmente há ainda dois apontamentos que eu gostaria de registar. O primeiro tem a ver com o espectáculo da uniformidade daquela gente; no decurso do contacto estes traços comuns, esta semelhança, esta conformidade de comportamentos e de caracteres, pode repugnar a um observador. Lembro-me sempre do que escreveu Leão Tolstoi no drama da Anna Karenina, “As famílias felizes parecem-se todas”. Alguém terá dito também :”Os povos felizes não têm história”.
Acredito no que vejo, e o que vi foi uma extraordinária experiência que demonstra que as pessoas basicamente satisfeitas, bem inseridas, com auto-estima e estima pelos outros, são equilibradas e espontâneas, amam e praticam os mais elevados valores cívicos, sem que a sua individualidade fique diminuída, antes pelo contrário. São conformes umas com as outras? Pois ainda bem, diria Beatriz.
O segundo apontamento está na continuação do anterior. Afirmei a certa altura que não verifiquei a existência de um “inconsciente” tanto em Aldhor como nos outros. Referia-me a um sedimento universal biológico do qual irradiaria a pulsão agressiva da espécie humana. Garanto apenas o que vi, se de facto observei correctamente. Um inconsciente tê-lo-ão, seguramente, mais agradável, porém, mais amável e mais racional, do que o nosso. A “ansiedade fundamental”, de que falam alguns psicólogos, não a detectei. A menos que se entenda como um desequilíbrio permanente entre o que se usufrui e as escolhas que são precisas, para que se melhore ainda mais a fruição, sem que se deite tudo a perder. O que tenho visto por todo o lado permite-me afirmar a existência de uma mesma natural inclinação para o prazer e para evitar a dor.
  Ainda hoje me interrogo porque razão se encontravam tão atrasados na exploração do espaço...
Desde esse momento decorreram já alguns anos. Aldhor, que deixámos de saúde rija, estará porventura rodeado dos seus educandos, filhos saudáveis e felizes dos seus amigos e vizinhos. Mesmo que a esta gente faltasse amanhã o pão bastante, desfrutariam do melhor dos bens: a amizade. Em contraste com tanta solidão neste cosmos fértil, tanta solidão nessa Terra que adoramos!
 Que significado encerrariam as últimas palavras de Aldhor: “ Talvez estejamos vivos no passado...”?
Acabaram por ser estas palavras aquelas que mais me acompanharam nas viagens seguintes. Porque não apenas as ouvi apenas a Aldhor, mas vi-as escritas em caracteres de aço ao redor de um belo cone de cristal que se erguia bem no centro da praça principal da aldeia, e que o mestre-escola traduziu para mim . A mensagem rezava assim: “ Tendes o que mereceis. O que não é ainda, há de ser. O que foi, pode voltar.” Como a minha viagem ainda nem a meio chegara, não me apercebi que aquelas palavras encerravam um mistério que transcendia as gentes daquela terra sem história, um mistério que nos transcendia a todos. Tomei-as então como a proposição simples e definitiva da filosofia dos Alshur.








QuartaViagem - O Planeta das catacumbas



    Vogámos no espaço de silêncio e trevas um ano e vinte dias. O computador marcara o rumo, mas, a bem dizer, era ele pouco mais que aleatório. Hoje sei, seguramente sei, que algo, ou alguém, nos traçara o destino.
O astro seguinte, que orbitava uma pequena estrela cem vezes menor que o nosso sol, e ambos completamente solitários no espaço sideral ( desviámo-nos ligeiramente da nossa rota para o explorar), era deveras singular, não menos do que os outros já descritos. Detectámos que o seu astro solar era já uma pobre estrela moribunda, iniciando a sua transformação em estrela anã. Movidos pela curiosidade científica por um objecto em vias de extinção, deslocámo-nos a um ponto central do corpo celeste sem luz, talvez sem vida. Enganámo-nos: sob a superfície, a vida resistia! Criaturas sombrias, quase diáfanas, habitavam nas profundezas, que haviam escavado com uma tenacidade indomável. Por uma abertura circular, das muitas que encontrámos nas estepes, descemos aos “infernos”. E quando um cão enorme nos assaltou ladrando numa curva do dédalo, e quando vimos um largo e manso rio subterrâneo, esperámos mesmo encontrar o barqueiro dos mortos segundo a mitologia dos antigos! 
Os habitantes desse mundo irremediavelmente condenado estavam perfeitamente conscientes do seu fim. Eram já pouco numerosos, executando consciente ou inconscientemente uma redução drástica da sua demografia ( apenas algumas mulheres eram seleccionadas para reproduzirem, e um filho somente) e educando os seus efectivos de um modo que não deixava de ser eficiente, ou seja através de um disciplina rigorosíssima formavam nos descendentes, retirados às progenitoras logo à nascença e quase sequestrados em cavernas, uma mentalidade religiosa até ao extremo que os habilitava a suportar fosse o que fosse e a aceitarem a tragédia do seu mundo sob uma forma mística. Forçavam, contudo, todas as possibilidades de descobrir constantemente processos para resistirem à hecatombe prolongada. A muitos de nós pareceu esse estratagema completamente inútil e patético, mas na verdade já há dois milénios aproximadamente que conseguiam sobreviver através de meios engenhosos, sobretudo para combater o frio. Viviam no subsolo tirando partido do calor emanado pelo magma interior. Haviam escavado túneis intermináveis, praças colossais, filas e filas de apartamentos relativamente confortáveis nas paredes das amplas cavernas, sulcavam os rios subterrâneos e utilizavam os lagos como viveiros de espécies comestíveis, cultivavam em hortos a dezenas de metros de profundidade fungos de aspecto e sabor que achámos esplêndidos.
 O morcego era o seu animal totémico, estes animais circulavam livremente, tratados com respeito sagrado. O modo de vida que levavam, a adaptação dos corpos e das mentes, a selecção que praticavam, produzira uma raça de mutantes, se é que o termo se deve aplicar a este caso, realmente extraordinária, dotados de epiderme e órgãos capazes de extrair toda a temperatura exterior a mais fraca, de captarem movimentos por radiação infravermelha e outras maravilhas da natureza. Na realidade o tacto era o seu órgão sensível fundamental, pois que dos olhos já muito pouco uso faziam. Por esta razão tacteavam-se constantemente, como as formigas, para se identificarem, para transmitirem um pedido ou um alerta, ou simplesmente por necessidade de afecto. O coito era um espectáculo extraordinário de carícias.
As crianças eram veneradas como se veneram os santos. As formas de resistência da vida contra a morte são deveras assombrosas. Tentámos que um casal partisse connosco, de modo a perpetuar a espécie noutro lugar, mas ninguém se ofereceu, tais eram os laços que os uniam aos demais, como num clã inquebrável.  Surpreende que considerassem os mil ou dois mil anos que lhes restavam serem ainda muito tempo. Ficam registados com o nome de “povo das catacumbas”.  Usam um género de urnas de pedra para guardar piedosamente as cinzas dos seus mortos incinerados; quando alguém falecia, todo o mundo parava e organizava-se imediatamente uma compacta procissão muito ordeira e silenciosa ( impressionava o silêncio naquelas profundezas, em horas em que os morcegos dormiam) que assistia religiosamente à incineração do cadáver,  o qual era colocado, em uma placa de cristal, sobre um poço de lava ardente; a seguir, acompanhavam o pequeno vaso funerário, que continha as suas cinzas, transportado por um sacerdote até ao cemitério, isto é, catacumbas, lembrando-nos a prática usada pelos primeiros cristãos. Todavia, a sua religião era assaz diferente, pois não acreditavam na existência transcendente de mais nada senão no próprio “Inferno”, e na transmigração das almas. Não pretendo, num relatório, discutir questões do foro filosófico e teológico, obviamente, mas aquilo que para eles é “transcendente e puro”, não corresponde ao “alto ou céu”( externo ao mundo “terrestre” e material), antes, pelo contrário, ao “dentro”. A morte, a liquefacção dos corpos na lava, corresponde ao “regresso à origens”, “és magma e ao magma voltarás”. Tornou-se para eles evidente que os vivos provêm dos mortos.
A casta sacerdotal ocupava um lugar privilegiado. Elas ( porque era composto de mulheres somente) é que dirigiam os acasalamentos com vista à reprodução, que enaltecem evidentemente; são elas que conduzem os mortos e dirigem as cerimónias de iniciação dos púberes, castrando a maior parte ; são elas que organizam as actividades sagradas e profanas, a divisão do trabalho, o preenchimento dos lazeres, as interdições e o julgamento dos prevaricadores; apenas elas vestem roupas cor-de-rosa (peles pintadas com pigmentos extraídos de fungos) e rapam todos os pelos; percorrem regularmente as ruas, recebendo as ofertas dos crentes, que entregam nos mosteiros subterrâneos; aí dedicam-se às regras de vida monacal, nas quais a meditação sobre a morte é a atitude primeira.
A morte individual é encarada como  facto inelutável, sem possibilidade alguma de salvação. O Hades dos nossos gregos antigos é efectivamente aqui um mundo subterrâneo, habitado por uma duplicação deles mesmos, simulacros fantasmáticos que ficam meditando para toda a eternidade. Se isto é uma forma de imortalidade, então tratava-se na realidade disso. O que nos deixa muito surpreendidos com a imaginação que reina por todo o lado onde existe vida inteligente. Ali, por exemplo, estava tudo ao contrário: o “céu beatífico”( o Nada) encontrava-se, acreditavam, nas profundezas, no Fogo, e o “inferno” no exterior, nas paisagens gélidas e moribundas ; era para aqui que enviavam os criminosos ( onde incluíam os hereges). Viviam um género de niilismo ou pessimismo radical, que poderia confundir-se exclusivamente com a resignação, não fosse a estrénua vontade de sobreviver e uma prática ritualizada de orgia. Realizavam este rito do seguinte modo: faziam primeiramente uma longa libação (suponho que ao “Nada”) com uma fortíssima bebida extraída das fezes dos morcegos, dançando ritmicamente ao som de tambores, que ressoavam surdamente nos intermináveis labirintos, ao redor do morcego totémico ( uma escultura impressionante de basalto) que se erguia nos seus cinco metros de estatura, ao pé de uma bocarra de lava incandescente; os gestos e cenas que executavam, assemelhavam-se aos movimentos do morcego e às suas práticas de alimentação e acasalamento; em seguida, pronunciavam cadenciadamente a expressão “Ôki!Ôki!”( o nome com que designavam o totem) e fornicavam  até caírem exaustos – este ritual de orgia sagrada, que se explica ( na opinião do nosso etnólogo) pela importância crucial da reprodução, e ao qual as crianças estavam proibidas de assistir, praticavam-no segundo datas especiais e muito espaçadas (só então era permitido o coito sagrado) e era organizado e dirigido pelas monjas ( belíssimas mutantes de epiderme leitosa,  muito magras e esbeltas, um único olho, imenso, de um azul celeste, e orelhas pontiagudas). O totem não continha nenhum significado sobre a origem daquele povo e, por isso, não representava uma divindade striptum sensu, mas exprimia, antes, um fim místico, ou seja, gostariam todos de se transformar em morcegos.
 Oferecemo-lhes dos nossos alimentos, não os quiseram. Desejámos ensiná-los a construir abrigos exteriores, consoantes as técnicas primitivas dos nossos esquimós e dos povos das tundras, sem sucesso. Fomos somente nós que aceitámos os seus ensinamentos sobre, por exemplo, as propriedades curativas de determinados fungos desconhecidos, opiáceas e analgésicas. Ignoraram toda a nossa tecnologia, completamente desinteressados. Vestiam-se com peles de animais ( o povo em geral vestia-se de branco), daqueles que se revelaram mais aptos na luta pela sobrevivência nas terríveis condições externas ( as raposas, por exemplo). A caça constituía o único motivo que os desalojava do interior, porém não aparentavam qualquer prazer nesta actividade, que ocupava grupos de adultos e jovens durante várias semanas. De resto, possuíam uma visão péssima. Partiam e regressavam, extenuados, friorentos, sem alegria vinham e sem alegria eram recebidos. Recolhi episódios e lendas destas caçadas sombrias. Sobrevoando as estepes vislumbramos vagos vestígios do que fora a sua vida anterior, nos tempos em que o seu sol era fonte de vida : alicerces circulares de pedra que teriam suportado choupanas de madeira e colmo, pedaços roídos pela erosão do que haviam sido robustas pirogas, ossos calcinados de corpulentos animais, cemitérios de carcaças petrificadas que testemunhavam a existência vigorosa e livre de esplêndidos alazões. Com toda a probabilidade ali habitou um povo de extraordinários caçadores cavaleiros. Numerosas colinas indubitavelmente erguidas por eles testemunhavam a existência de tumbas. Os nossos aparelhos detectores provaram que continham materiais de metal, com certeza armas e adornos, próprios, muito provavelmente, dos grandes senhores que ali estavam sepultados.
 A comunicação foi muito difícil, pois não lhes despertava o mínimo interesse saber da existência de outros mundos. A sua infelicidade fechava-os no mutismo do seu presente. Não tinham saudades nem do passado nem do futuro. Um deus desconhecido abandonara-os à sua sorte. Estoicamente suportavam-na.
 A certa altura dei pela falta de Beatriz. – Lá se isolou ela outra vez! – Pensei. Naquela região infernal constituía motivo suficiente para me preocupar. Como pelo inter-comunicador não me respondia, utilizei o prospector de sinais vitais correspondentes ao código dela. Orientei-me deste modo até ao exterior. Encontrava-se perto da entrada, contemplando qualquer ponto indefinido. – Estás bem? – Perguntei, pondo na voz todo o carinho de que sou capaz. – Claro. Não te preocupes tanto, és o comandante mas não o meu pai! – Respondeu, com um sorriso cortante, mas não ríspido. – Com certeza, lá por isso deixo-te em paz!-. Quando me preparava para me retirar, constrangido, tocou ao de leve no meu fato térmico e apontou para o alto. – Repara só e conserva-te em silêncio!-. No alto vibrava como uma candeia trémula ao vento o sol que falecia. Compreendi que, perante tão soberbo moribundo, somente um silêncio respeitoso era adequado. Ao longe, na tundra gelada, uivavam lobos. Assim está condenada a nossa Casa, a nossa terra, num tempo que há-de vir, o primeiro de uma longa agonia. Sem Juízo Final. Talvez antes beneficiemos de mil anos de felicidade.
  Um estremecimento simultâneo fez-nos juntar as mãos. Senti medo, ela também. Um medo obscuro e remoto. Como se a centelha universal da vida, recuasse perante o avanço da aniquilação total. Não há como este espectáculo para fazer aproximar dois corações.
Vieram chamar por nós. Anunciava-se a festa de homenagem ao Morcego. Na caverna principal, já as monjas iniciavam o desfile. Envergando as suas túnicas transparentes e empunhando archotes (delicadas peças de diamante da boca das quais se soltava uma chama delgada e firme), dançaram, rodopiaram ao redor do vasto recinto. As crianças estavam realmente excluídas. Uma orquestra de instrumentos de cordas - um género de compridas guitarras- colocada no centro, marcava o compasso, primeiramente devagar e melancolicamente, depois cada vez mais depressa. A Água da Vida passava de boca em boca. Todo o mundo entrou na dança. Todos, excepto eu, que uma luxação num joelho provocada por uma queda, mo impedia. Beatriz desaparecera na turbamulta, após despedir-se de mim com um sorriso matreiro. Um par de horas depois, a multidão chegara ao frenesim. Os indígenas haviam-se despido completamente, incitados pelas belas monjas, e entregavam-se ao acto do amor com elas. Deu para verificar que os meus tripulantes foram pouco a pouco fazendo o mesmo. A débil luminosidade não dava para constatar a adesão da Beatriz àquelas actividades frenéticas. No entanto, era precisamente a semi-obscuridade que me dava a certeza de que ela partilhava da mesma comunhão. Todos nós somos dois num só. Beatriz é uma pessoa em presença dos outros, e é outra completamente quando o anonimato lhe permite soltar-se.
Resolvi afastar-me cautelosa e discretamente. Dessa vez não senti um agudo ciúme. Dirigi-me para os aposentos onde se resguardavam as crianças. Arrepiei caminho, porém, e decidi-me pela exploração minuciosa do Morcego. Evitei a bocarra de lava e tacteei a retaguarda do ídolo. Topei logo com uma porta. No interior oco descobri um vaso de diamante contendo um pergaminho donde se destacavam estranhos hieróglifos. Se pedisse ao computador central que descodificasse o texto, teria que esperar várias horas. Encaminhei-me, por conseguinte, para o recinto reservado às crianças. Os idosos guardavam-nas. Entabulei conversação com um grupo, usando algumas palavras já ouvidas e muitos gestos. Não lhes falei no pergaminho, mas deu para descobrir que este grupo discordava em absoluto das orgias sagradas, fiquei mesmo com a impressão de que estes idosos constituíam uma corrente, talvez uma seita, que comungava doutras crenças e costumes. Ganhei a confiança de um garoto muito esperto e ladino, que me auxiliou na tarefa de interpretar o texto do pergaminho. Continha uma mensagem que rezava mais ou menos assim : “ Ó gentes indómitas, despertai do sono da morte! A vossa salvação está próxima quando o céu se romper e dele jorrar a luz de um amanhã solar. Então ascendereis à Casa Comum!”




Quinta Viagem - O Planeta das Ninfas


 Cada exploração que empreendíamos era uma nova surpresa. A última talvez nos estivesse reservada para quando déssemos o salto no espaço-tempo...E que surpresa!
 Dentro da nave não houve, até determinada altura, acontecimentos muito graves dignos de registo, pois que todos os detalhes de rotina constam do diário de bordo que vos será entregue quando alcançarmos a Terra de novo, após este périplo através da nossa galáxia. Se a alcançarmos...Deixo para o fim a descrição de estranhos comportamentos da tripulação em geral que, a partir de certa altura, começaram a tornar-se preocupantes. Informo apenas, por agora, que antes de atingirmos o planeta que passarei a descrever em seguida, o nosso director das comunicações, Robert Galton, excelente profissional como todos os demais, reagiu de forma violenta, inopinada para alguém que sempre encarámos como sendo absolutamente pacífico, à parceria sentimental da operadora de rádio Lilliane e do operador de vídeo Yan Smolenski. Ao descobrir que a jovem engravidara ( prática que não aconselhamos, embora não devamos proibir), Galton irrompeu armado no centro de repouso e convívio, o que é absolutamente proibido; foi dominado facilmente com bons modos, submetido a terapia e tudo esmoreceu em pouco tempo. A equipa médica diagnosticou “stress dos ratos”, isto é, comportamentos agressivos provocados em cobaias prisioneiras num espaço reduzido. Mesmo a Beatriz anda sorumbática e ciumenta. Olha-me de esguelha com aqueles olhos escuros e bovinos, como dizia o poeta Homero dos olhos de Hera. Não se esqueceu da minha aventura, reconheço que desleal, com a indígena. Talvez devesse considerar o seu comportamento no planeta dos Morcegos como uma vingança, mas nunca lho disse. Porque não sei o que distingue o direito, da vingança. De resto, mais vale haver gozado com vários, do que exclusivamente com um.

     Algumas semanas depois detectámos vida numa das luas que orbitavam um planeta gasoso. Enviámos uma sonda automática que nos forneceu as informações de que precisávamos. Não se observavam oceanos, apenas lagoas e charcos. Pousámos, por conseguinte, num lugar lacustre, prevenidos de que a atmosfera era-nos adversa e a gravidade baixa. Equipados com os fatos protectores demos uma vista de olhos em redor. A água não era profunda; brotavam do solo por toda a parte, largos nenúfares floridos e aquelas plantas a que chamamos jarros; libélulas afadigavam-se e joaninhas aqueciam-se ao sol morno. Beatriz tentou correr para mim esbaforidamente, enterrando as botas no charco, “ Vem cá! Vem ver isto e diz-me se é verdade!”, gritou para os meus auscultadores. Apontava um ponto entre a ramagem de um pequeno arbusto; tive que aproximar-me o mais possível para verificar que era uma teia de aranha ; presa a ela vislumbrei qualquer coisa que se debatia ; aproximei-me mais ainda e vi com os meus próprios olhos uma minúscula criatura com olhos e braços e boca que se agitava numa grande aflição! Recuei de espanto; a seguir contive-me e procurei libertá-la da morte certa, já a aranha acorria para defender a refeição. Segurei com dois dedos o pequenino ser que exibia agora uma visível expressão de alívio. Imediatamente fomos rodeados, cercados, invadidos, por uma multidão incontável de minúsculos indivíduos, muito excitados, que pareciam parlar, e que eram-nos quase inaudíveis. Além do tamanho, o mais espantoso era o facto de voarem! Talvez devido à fraca gravidade, com certeza a ela adaptados, sobrevoavam-nos como insectos, servindo-se para isso de umas pequeníssimas e diáfanas azinhas. Pareciam libélulas ou ainda ninfas aladas. Não podiam fazer-nos qualquer mal, segundo nos pareceu. Agarrámos alguns com as mãos e observámo-los atentamente. Aqueles que trazíamos connosco na nave lamentavelmente não resistiram, embora tivéssemos posto todo o cuidado nisso. Apenas poderemos apresentar como prova os seus pequeninos cadáveres ressequidos.
Enquanto vivos, no seu ambiente natural, eram simplesmente maravilhosos. Inofensivos e despachados como nenhuma outra estranha criatura inteligente jamais vista. Sempre a “reinar” como se diz em Portugal em vez de “brincar”. À primeira vista pareciam assexuados, mas estudos posteriores mostraram que se acoplavam como os grilos. Designámos esta terra como o “país das ninfetas”, mas houve entre nós quem preferisse chamá-los de “Strumpfs””, pois que, pelos seus saltos e cabriolas e pelo seu tamanho liliputeano, mais pareciam esses anõezinhos tão do agrado dos nossos garotos. Catalogámo-los não como insectos mas como seres inteligentes, de características humanóides, embora tenhamos aprendido que esta classificação é muito vaga ( o que é define o homem?).
Receberam-nos primeiramente com aguda surpresa, procurando mesmo escapulir-se para o interior da densa folhagem, por fim mais confiantes aguardaram a nossa aproximação com visível expectativa, comportando-se com  amabilidade e  dando-se ares de importância. Conduziram-nos, voltejando á nossa frente, a apreciar o seu mundo reduzido, mas tão verdejante, tão frescas e limpas as suas fontes e cascatas, tão coloridos os seus prados, tão verdes e macias as encostas das suas pequeninas colinas! Tudo tão pequeno que cabia na palma da mão.
Reunimo-nos numa clareira banhada de luz. Serviram-nos alimentos deliciosos com extrema hospitalidade, embora em quantidades colossais para eles, mas, por fim, já nós próprios os auxiliávamos nessa tarefa. O mel entrava em quase tudo que confeccionavam, não conheciam o leite nem a carne, frutos e legumes constituíam alguns dos seus alimentos principais. Após cada repasto, sempre ligeiro, dançavam e trinavam, modelando cantos que, escutados pelos nossos aparelhos, invadiam-nos de doce encantamento. São fortemente comunitários, de um gregarismo que, afinal de contas, os aparentava com os insectos, sem que o fossem em rigor, repito. Cada indivíduo distinguia-se de algum modo dos outros ( embora a nós, à primeira vista, parecessem todos idênticos), demonstrando assim que cada singularidade revela-se somente na pluralidade. A clonagem é claramente visível no reino vegetal, mas no género “humano” é muito menos manifesta como se sabe, refiro-me à natural e não aquela que hoje praticamos nos centros de engenharia humana; mesmo entre esta espécie que voa, que, neste sentido, não é “primata”, acabámos por notar pequenos traços singulares no comportamento, o que é bem curioso. Tanto assim que, entre nós, os mais inventivos e bem humorados dedicaram-se a nomear esta como a “Esperta”, aquele como o “Preguiçoso”, aquela outra como a “Atrevida”.
 À nossa partida encheram-nos de presentes: colares de flores, toucados de heras floridas, boiões feitos de folhas entrançadas cheios de mel de sabor esplêndido, casulos de seda magníficos contendo insectos, verdadeiramente insectos!, de formas e coloridos inenarráveis. Na verdade, os insectos eram o seu principal alimento. Quando nos apresentaram iguarias ( na opinião deles) compostas daqueles animaizinhos ( dispenso enumerá-los, pois muitos deles eram idênticos aos nossos, embora num caso ou noutro de menores dimensões; basta-me dizer que por todo o lado por onde andei sempre encontrei baratas...serão elas as verdadeiras  “deusas” do universo?), manifestámos repugnância ( excepto o segundo imediato que era de origem mexicana...), mas, depois, viríamos a descobrir que, pelo menos confeccionados como só eles o sabem fazer, constituem um prato, ou melhor, uma infinita variedade de pratos, que superam muitos dos nossos manjares. Aqueles seres liliputeanos são dotados de órgãos do olfacto extremamente apurados; o olfacto é a pedra de toque para identificarem o amigo e o inimigo, o prazer ou a dor a evitar; os filhotes reconhecem os pais pelo odor e o coito não começa sem este preliminar.
 No decorrer dos dias relativamente aprazíveis que aqui passámos, sucedeu um acontecimento engraçado que provocou gargalhadas em todos nós. O referido Galton foi encontrado em certa ocasião quase inteiramente nu, conservando na cabeça apenas o aparelho de oxigénio, deitado numa clareira paradisíaca e coberto de dezenas de “libélulas”... Eram do sexo feminino e riam-se muito, tagarelando sobre os órgãos sexuais do dito tripulante, enquanto cheiravam este com grande aplicação. E mais não digo para não ofender a susceptibilidade do Directório; acrescentarei apenas que “elas” são ninfetas muito atrevidas e folgazãs, cuja perfeição anatómica, vista à lupa sobre a palma da mão, nada fica a dever às nossas lindas adolescentes; e tão curiosas em relação aos nossos corpos, como nós com os delas, ou bastante mais, sem que as razões sejam sempre as mesmas. Os machos não mostraram o mais pequeno sinal de agressividade, perante este espectáculo, pois que não conhecem o ciúme ( não existem machos a monopolizarem as fêmeas). O comportamento territorial não existe, ou é exclusivamente comunitário, todos labutam para o mesmo fim, o qual não é de modo algum alimentar uma rainha, visto que não são insectos. De resto, com os insectos estabelecem relações duplas de defesa e de dominação, ou seja, aqueles de que se alimentam são cultivados em colónias, engordados e domesticados ( como é o caso dos gafanhotos e de inúmeros tipos de larvas), relativamente a outros precisam de se defender, caso contrário são aniquilados ( sucede isso com os escorpiões e as aranhas, por exemplo; estas constituem até o inimigo principal, na medida em que tecem as teias com o propósito de precisamente caçarem os “strumpfs”). Os “strumpfs” praticam a escravatura, não entre eles mas sobre determinadas espécies de insectos ( os gafanhotos, as borboletas e particularmente as formigas). Se é que podemos falar em escravatura quando nos referimos à utilização do trabalho dos próprios insectos. Uma conduta assaz reprovável é, por outro lado, a utilização da eugenia: os filhos “incorrectos” são eliminados. Como não me compete formular juízos pró ou contra, limito-me a expor o ponto de vista da nossa antropóloga; segundo ela, naquelas circunstâncias a sobrevivência de filhotes desprovidos de asas, por exemplo, acarretaria esforços acrescidos e novas divisões sociais do trabalho, ou pura e simplesmente o “inapto” iria encher a barriga de algum lagarto.
O gregarismo deles é bastante mais simples do que o comunitarismo do povo de comunismo integral que descrevemos anteriormente. Nestes, o que impera é uma absoluta racionalidade ( embora diferente da nossa), enquanto os “strumpfs” mostram-se sobretudo instintivos, obedecendo de certo modo a um programa genético, o que não os impede de viverem alegres e felizes. Excepto quando são capturados pela teia de algum aranhiço. E são perfeitamente capazes de aprender.
As suas habitações são assaz  curiosas. Autênticos ninhos, pendurados dos ramos, fabricados com caules flexíveis e folhas, dispostos profusamente num agradável espectáculo, onde não faltavam as “comadres” parlando das janelas umas com as outras. Em cada casinha habita um casal durante o período que eu chamaria de “lua de mel”, que pode durar de três a seis meses. A sociedade possui uma divisão fixa das tarefas de recolha dos alimentos, de direcção do trabalho “escravo”, da acumulação e conservação das reservas.
Os seus lazeres principais são constituídos por corridas de voo, mestria na descoberta e recolha de alimentos, e em danças ( à maneira das nossas abelhas) carregadas de significados que nos escaparam. Adoraram a nossa música, sobretudo a peça “ Danúbio Azul”, que acabámos por lhes oferecer a tocar  numa aparelhagem sonora de longa duração.
   Possuem uma fala peculiar (além de comunicarem pelo contacto, como creio já ter dito) : emitem um “gri-gri” muito engraçado. Deste modo, tocam-se constantemente e “dizem” gri-gri.
Com base neste vocábulo, que repetem conforme a conotação e a denotação, fabricam autênticas frases, não destituídas de noções gerais. Acreditam, por exemplo, que o seu povo (os “gri”) descende da chuva; a ave-do-céu apiedou-se, certo dia, da paisagem árida que era o mundo; sacudiu então as suas asas azuis e fez tombar durante inumeráveis dias e noites as águas que retinha no seu corpo, criando pauis, charcos e lezírias; desta “fecundação” nasceram os “gri”, a quem Ela ofereceu tudo o mais que era vivo, dizendo-lhes estas palavras:” Crescei e multiplicai-vos! Comei e bebei do meu corpo, mas cuidai Dele como se fosse o vosso próprio corpo!”.
 Deixámo-los com alguma pena, muito agradados com a sua existência. A seguir ao “povo das catacumbas”, esta experiência foi bastante lírica.
Até estes instantes em que o relato está a ser transmitido, temos tido conhecimento de motivos suficientes tanto para sermos optimistas como pessimistas. Pelos outros não posso falar ( embora esteja atento a todas as atitudes que suscitem preocupação relativamente ao espírito de equipa), por mim afirmo que não sou em rigor um optimista, pelo menos no sentido que se aplica aquele que crê que existe um “princípio” que nos impele para o melhor e que possibilita tal coisa; como não acredito em “tendências” carregadas de bondade direccionadas para a perfeição, provavelmente não serei nunca um metafísico deste calibre. Vi coisas terríveis ( expressão que já é por si basto discutível, condicionada pelos meus parâmetros ), povos habitando na lama, realizando sacrifícios de sangue sobre a boca de vulcões, ou escavando catacumbas, ou trucidando os vizinhos por pura crueldade, ou escravizando, explorando a força de trabalho dos mais fracos até à exaustão, castas de charlatães aldrabando habilmente os seus confrades, manipulando as suas aspirações como fazem os artistas das marionetas, vi povos que abandonam os velhos às garras das alcateias de lobos, e antropófagos, e “senhores da guerra” verdadeiramente sanguinários ; assisti à derrota militar de uma potência cujo chefe prometera ao seu povo um “império de mil anos” e, manipulando habilmente ressentimentos, fanatismos patrioteiros e racistas, arrasara um continente e gaseara centenas de milhar de crianças e de mulheres; observei constituições físicas de todas as formas e tamanhos : lesmas que reflectiam sobre o sentido da vida, homens-camaleões que se disfarçavam astutamente, polvos mastodônticos que devoravam cidades inteiras, monstros gelatinosos constituídos apenas de um tubo digestivo, assolando oceanos de plasma, que engoliam tudo à sua passagem; culturas luminosas do espírito arrasadas à bombarda ou sob a cavalgada terrorista de vândalos , ou por catástrofes naturais que não pareciam bulir com a crença pueril dos seus habitantes num Deus todo ele bondade ; experiências de arrojados sistemas sociais caindo na pura arrogância e opressão, nos mais velhos esquemas corruptos, provocando prolongados períodos de descrédito e de pessimismo ;forças siderais espantosas, puramente energia sem consciência, que dissolvem no ar tudo que é sólido; quasares emitindo ondas de rádio que podem confundir-se perigosamente com emissões de seres inteligentes, e outros lugares medonhos dos quais precisámos de nos afastar o mais depressa que pudemos. Por toda a parte reina o mesmo : complexas e diversas metamorfoses da matéria ou, se se preferir, de matérias, explodindo em estrelas flamejantes que às vezes criam e aquecem criaturas mais ou menos conscientes. Talvez a mais espantosa criação viva que encontrámos haja sido uns alienígenas puramente compostos de ondas, sem esqueleto nem tecidos, abrangendo parte do espectro que conhecemos - à sua maneira pareciam contentes, nós é que tivemos de nos afastar rapidamente para não sermos sugados por aquelas horríveis “bombas de partículas” ambulantes...Contudo, vimos também países ridentes e povos satisfeitos, capazes de dizerem “não” àquilo que os prejudicasse. E continuo sem argumentos suficientes para compreender onde acaba o determinismo e começa a liberdade.
A “lesma” pensante, por exemplo, que estudámos, e para quem fomos nós próprios motivo de análise e reflexão, deixou-nos uma certeza pelo menos: a de que a consciência, ou pensamento, ou seja o que for que caiba nestes conceitos, irrompe onde e quando pode, e tanto estiola logo a seguir como pode desenvolver-se sem programa conclusivo. E evidentemente sem um padrão anatómico universal. Deuses, porém, não nos cruzámos com eles em parte alguma. Substâncias independentes da matéria orgânica, somente aquelas estruturas de energia pura, aqueles alienígenas de que falei atrás cuja “materialidade” não pomos em dúvida, por mais inconcebível e inconsistente. Se existem vários ou somente um Deus, habitando em parte incerta, tal coisa permanece um mistério. Não é essa ideia que nos permite atravessar o espaço à velocidade da luz, não é a veracidade dela que nos move e comove. É a matéria viva. Ela é a “Deusa” que se metamorfoseia em deuses na cabeça das suas criaturas.
  Absoluto só o Mal. O Bem só existe quando o Mal o considera mais vantajoso.
Seja como for, mais o mistério que nos acompanhava há muito, se adensou. Neste pequeno astro encharcado, no interior de um ninho, pendurado como os outros, mas bem no centro de uma “aldeia”, encontrámos uma pequeno fragmento de um metal que desconhecemos completamente. Era azul e lembrava a extremidade de uma asa. Ora, aquele povo ignora o fabrico de metais absolutamente.







                                                  






Sexta Viagem - O Planeta das Águas



            Deslizávamos pelo abismo já há uns meses (sabeis bem a quantos anos isso corresponde aí na Terra), quando estalou um tremendo reboliço  no interior da nave. O computador Jacques fez funcionar o alerta vermelho. Entrou todo o mundo num quase pânico, e todas as decisões convergiram para mim. O que se passara afinal? Aproximáramo-nos demasiado de uma estrela em fase de se transformar em super nova! A distância era imensa, mas, mesmo assim, a radiação atacou perigosamente a estrutura da nave. E o pior de tudo, foi que isso sucedia numa altura em que alguns de nós estávamos a proceder a arranjos num painel exterior. Os técnicos reentraram o mais depressa que puderam, tendo um deles sofrido queimaduras relativamente graves. Entretanto, e conforme nos afastávamos à velocidade máxima, recebemos estranhos sinais, vindos da estrela, ou das proximidades! Rapidamente interpretados, pareciam corresponder a uma mensagem de socorro. Feitos os cálculos, a mensagem teria sido enviada há cerca de dois anos-luz. No instante em que a recebemos, já teriam sido aniquilados os infelizes? Não sabemos. A verdade é que, e eis um facto deveras insólito, algum tempo decorrido sobre a primeira mensagem, recebemos uma segunda (ignoramos se nos era dirigida), que exprimia claramente o desenho de um triângulo e de um círculo! O mesmo símbolo que já havíamos encontrado antes e que encontraríamos depois!
 Visto que este relato é muito posterior a esses acontecimentos, podemos agora garantir que os habitantes desse astro em vias de ser fulminado pela sua estrela, foram salvos, na totalidade ou em parte, por eles.

O planeta que se seguiu, passo a descrevê-lo: o globo na sua totalidade está coberto de água; portanto, chamámo-lhe o “planeta das águas”. Um oceano único de composição semelhante aos nossos, excepto naqueles elementos e efeitos de que os nossos estão providos e sofrem pelo contacto e pela acção dos continentes e ainda por não estar sujeito a marés, visto que não existe nenhuma lua; é, por conseguinte, um lençol ilimitado, quieto e manso, no qual a vida pulula. Em determinadas áreas o oceano era aparentemente profundíssimo, em outras o solo adivinhava-se claramente sob um fino manto de água; em outras ainda estendiam-se pântanos de águas lodosas e verdes cobertas de caniços e de mangais.
Havendo estudado toda a superfície líquida e vislumbrado aquilo que nos pareceram ilhotas flutuantes - pois que se moviam! - rasas ou cobertas de vegetação, decidimos lançar a cápsula, conservando a nave em órbita; escolhemos uma das ilhas maiores, com uma larga clareira, e aí pousámos.
  Conforme nos aproximávamos, fomos distinguindo perfeitamente animais de quatro patas, de duas, e até rastejantes, assim como enormes cetáceos no mar. Não tendo recebido qualquer resposta às nossas mensagens, concluímos que os animais, quaisquer que eles fossem, encontrar-se-iam em fase primitiva de evolução, e preparámo-nos para o pior, as armas à mão.
    Ninguém correu ao nosso encontro, mas vislumbrámos qualquer coisa semi oculta entre a folhagem. Fizemos um círculo defensivo à volta da cápsula e procurámos transmitir ao que quer que fosse confiança. Esperávamos que nos lançassem setas ou lanças, mas nada disto sucedeu. Pelo contrário: à nossa aproximação, deitaram-se de barriga para o ar, como fazem os canídios com o intuito de tranquilizar o adversário mais corpulento. Quanto à estatura até nem era esse o caso, visto que eram de estatura meã. O aspecto geral e a fisionomia eram perfeitamente humanóides. Talvez até mais bonitos do que qualquer um de nós. A nossa intérprete de línguas considerou-os mesmo muito belos, particularmente os homens ( hesito no termo “machos”). Imaginai humanos graciosos, completamente nus ( a temperatura é constantemente amena), espantosamente dóceis, dividindo o tempo entre o brincar na praia e o trepar ao cocuruto dos mangais! Imaginai-os brincando quase sempre, excepto evidentemente quando fugiam como coelhos assustados por causa de algum perigo. Imaginais a beleza delas, tais Vénus de Botticelli, emergindo das águas? Tomai como certa a sua entrega imediata, logo que os nossos olhos se cruzassem com mais demoras ( não falo por mim mas os homens sob o meu comando, guerreiros experimentados e homens de ciência, não se faziam rogados, desaparecendo de quando em vez para o interior das fartas raízes das mangues; perguntareis: e a tripulação feminina da Quimera? Pois faziam exactamente a mesma coisa.).
Imaginai-os alimentando-se dos frutos que colhiam sem esforço ( são uma espécie exclusivamente frugívora), lançando-os depois uns aos outros como fazem as crianças após se saciarem, banhando-se ininterruptamente nas lagoas contidas no interior de bancos de corais ( que constituem as únicas partes sólidas emersas e a partir das quais a evolução natural se encarregará provavelmente de compor arquipélagos fixos), cavalgando delfins, jovens baleias e até tubarões! Naturalmente que estes e outros animais não são completamente idênticos aos que habitam a Terra: aqueles a que chamo baleias, para simplificar, são de facto cetáceos, não possuem dentes e têm a forma de uma enorme bola, e os golfinhos possuem umas barbatanas superiores que funcionam como patas ( cada uma com três “dedos” muito rechonchudos); quanto aos “tubarões”, os indígenas amestram-nos com toda a facilidade e, ao contrário do que se julgaria, são extremamente dóceis.
  As ilhas flutuantes que habitam, surgem ou naturalmente através da junção acidental da flora marinha ( o que é vulgar num mar tão quieto – tão parado que parece atónito!), ou por via do engenho dos indígenas que, por exemplo, sobre uma camada de grossas algas emersas ( curiosamente nunca aproveitam as que encontram ainda fixadas ao solo submarino) vão depositando sucessivas camadas de vegetação ; do interior deste húmus com vários metros de altura irrompe velozmente a flora aérea, à qual se junta, num ápice, uma variada fauna de pequenas criaturas rastejantes ou voadoras (nunca em parte alguma observei bandos de aves tão compactos e tão extensos!), que não parecem incomodar aos  artífices das ilhas flutuantes. Abundam várias espécies de papagaios e periquitos, o quadro não poderia ficar mais ruidoso e colorido!
 A linguagem dos insulares é composta de estalidos, ou seja, de sons produzidos com a língua, o que acrescenta graciosidade ao seu encanto natural. Com a vantagem de que nestes “primitivos” a fome não parecia negra... Aos nossos olhos, de cientistas e navegadores, cansados às vezes de tanta lógica, de tantos artifícios e astúcias, de tanta tecnologia que nos persegue até quando repousamos, de tantas regras e deveres, este povo desempenhou para nós nas primeiras horas um autêntico bálsamo. A inocência do seu viver era fascinante. Sempre nus, cobriam-se, quando arrefecia, com mantos de penas de aves seguras por liames. E como as penas eram vistosas, os indígenas convertiam-se então em seres soberbos de fábula. Quando chovia, abrigavam-se sob esteiras de algas, penduradas nos ramos das árvores anãs. Todos juntos, apertados uns aos outros, os filhotes no meio. Sobre estas criaturinhas que andavam, muitas delas, constantemente agarradas às costas ora dos “machos”, ora das “fêmeas”, muito haveria a contar por tanta graça pueril que mostravam! Aqueles que já sabiam movimentar-se por si próprios, trepavam a tudo que fosse ramo, arremessavam constantemente frutos sobre os adultos e sobre nós, rindo a bandeiras despregadas. Os adultos procediam uns com os outros sem hierarquias algumas, não estabelecendo qualquer diferença de posição. Suportavam estoicamente as travessuras dos infantes. Nenhum “macho”, o mais forte, se assenhoreava da melhor comida e das “fêmeas” todas. Se alguém se zangava com os outros, ou simplesmente se aborrecia, mudava de ilhota. Os filhotes andavam à rédea solta; o que aprendiam era por pura imitação. Quando se feriam, lambiam as feridas, ou era qualquer adulto mais próximo que o fazia.
Em suma, encaravam-nos, a nós, com uma candura impressionante. Admiravam-se muito com as nossas indumentárias, jamais conseguindo perceber que ali fossem úteis. Exibiam, como garotinhos, os seus corpos nus, gesticulando e rindo, quase obrigando-nos a andar nus também. Comiam com as mãos, o alimento sobre folhas mui verdes e largas, de onde todos se serviam. Na sua linguagem peculiar, contavam e recontavam os acontecimentos do dia, sem que estabelecessem qualquer relação causal com os ocorridos no passado. Possuindo indícios de memória, mostravam-se, porém, incapazes de articular, através dela, uma consciência do tempo. Parecia possuírem uma ideia de si mesmos, mas muito difusa. Dominavam uma boa dúzia de vocábulos sobre a noção de “água” e, outra, sobre a de “céu”, mas nenhuma que exprimisse o “eu”; limitavam-se, nesses casos, a esfregar o seu próprio peito. Pareceu-nos que julgam que o centro vital se encontra nos pulmões, ou no ar; querendo dizer que algum morreu, exprimem o facto fazendo referência ao ar que já não “entra” nem “sai”. Os mortos são lançados às águas; não os choram nem carpem. Pela noite dormem sossegadamente, não parecendo temê-la; quando a luz reaparece, tornam-se exuberantes de vitalidade.
Rapidamente descobrimos, porém, que a inocência era ameaçada pelo mais terrível dos perigos. Os nossos antigos padres falavam de um Paraíso do qual foram expulsos Adão e Eva por causa das tentações a que se vergaram ambos. Aqui não se trata disso: estes paraísos flutuantes são, a cada momento, alvos e vítimas de serpentes, efectivamente, mas não de “tentações carnais” bíblicas. O inimigo mais hediondo e crudelíssimo espreita-os por todo o lado e persegue-os dia e noite. Constitui um género de animais dotados de esperteza, mas omissos no que respeita à mais leve centelha de consciência moral, e que habita nas profundezas oceânicas. Vimo-los, matámos e caçámos alguns ( escrevo isto sem escrúpulos) e podemos descreve-los: são serpentes de pele dura e escamosa, mas com fiadas duplas de dentuças à maneira dos tubarões terrestres, olhos oblíquos e esverdeados, à semelhança dos nossos ofídios , dotados de um poder maligno que lhes permite hipnotizar os pobres e infelizes indígenas das ilhas flutuantes. A princípio nem nos apercebemos do que sucedia: vimos dois deles tombarem enigmaticamente de uma escarpa para o mar, como se fossem frutos maduros, e nunca mais voltarem ; mesmo os seus companheiros só se deram conta mais tarde, desatando então a emitir rápidos e estrídulos estalidos com a língua. Era sempre assim: deixavam-se hipnotizar, deixavam-se conduzir para a boca do inimigo! O modo como morriam e o aspecto absolutamente horripilante dos monstros, constituiu uma das experiências mais sombrias das nossas viagens, se não mesmo a mais sombria. O contraste entre estas duas espécies era por demais flagrante, levando um dos nossos, da equipa médica, a proferir este comentário acertado: não existe inocência sem que o pecado a não cobice...De facto, o “pecado” está nos outros, neste caso é assim. A nossa psicóloga ainda ensaiou uma teoria que explicava que uns eram a projecção dos outros, o positivo que atrai e até produziria o negativo. Mas tal teoria não vingou. As serpentes existiam efectivamente ( trazemos uma connosco) e mostravam-se perfeitamente adaptadas ao ambiente natural. Mas tudo isto que já era, só por si, demasiado desconcertante, não esgotou a nossa perplexidade, pois ficámos verdadeiramente estupefactos ainda quando descobrimos, em seguida, que os ofídios não se comportavam deste modo por mero e desculpável instinto, em suma como simples animais que têm fome, mas procediam  por pura maldade.
Tirámos esta conclusão quando decidimos explorar o mundo subaquático. Descemos na cápsula a uma profundidade de dois quilómetros aproximadamente; pelos nossos cálculos localizámos profundidades que podem atingir os cinquenta quilómetros. Na primeira descida não detectámos nada, excepto muita e variada fauna e flora, e umas tantas serpentes escondidas entre rochas, que nos observavam. Numa segunda incursão, porém, resolvemos inspeccionar estes rochedos. O que vimos, deixou-nos abismados: aquelas massas que, do alto, nos pareceram simples pedregulhos de diversos tamanhos e formas, não o eram, mas antes ruínas de cidades semi ocultas por espessa vegetação de algas! Fomos então subitamente atacados por todos os lados. As serpentes esperavam-nos agressivamente, e dispostas a defender os seus redutos até ao fim. Evidentemente que nos está completamente interdita qualquer intromissão, que altere ou instabilize as condições de cada planeta. A nossa missão não é a de colonização, mas de prospecção. Apenas devemos defender-nos. Todavia, é bem difícil respeitar estes limites. Reconheço que não o fizemos sempre. Filmámos, registámos tudo o que pudemos observar, mas achámos que era insuficiente: não pudemos averiguar que cidades submersas eram aquelas. Por conseguinte, decidimos realizar mais algumas descidas. Introduzimo-nos então nos corredores entre as habitações desabadas depois de enxotarmos os monstros com descargas da nossa artilharia.
Vimos então que os mostrengos dispõem de nichos muito amplos onde se aninham as suas crias, que são alimentadas pelas tetas; são mamíferos, portanto! As fêmeas engravidam e transportam os filhotes no útero até ao nascimento, em seguida depositam-nos em bolsas marsupiais onde crescem até a um tamanho razoável; as mães sobem à superfície regularmente e deixam-se flutuar com os ventres para cima com os filhotes horrendos a espreitar ; elas são extremamente carinhosas, nada mais fazem senão tratar da prole, enquanto os machos caçam e disputam as fêmeas; cada maciço rochoso está aproveitado, cada habitáculo intacto de cada prédio afundado, cada palácio esventrado. Pareceram-nos profundamente hostis e apresentamos três ordens de factos para o comprovar: atacaram-nos imediatamente, sem revelarem qualquer interesse em comunicarem connosco; atacavam-se entre si, fosse pela posse de uma fêmea, fosse pelo melhor bocado da presa; matavam os indivíduos da superfície, menos por fome do que por desporto. Haviam descoberto que os ilhéus eram vulneráveis a qualquer poder magnético do seu olhar. Pelos dados que recolhemos concluímos que esta revelação lhes surgira recentemente, primeiro porque, se assim não fosse, já os teriam exterminado pura e simplesmente ( o zoólogo de bordo crê que, pelo contrário, não o fazem propositadamente, para que disponham de uma prática “desportiva” ilimitada) e, em segundo lugar, porque os ilhéus demonstraram-nos suficientemente, que já iniciaram processos de aprendizagem perante o poder maléfico do inimigo, esforçando-se por conservar os olhos desviados da superfície líquida, ou tapando-os com as mãos quando pressentem a presença dele, e até começavam a fabricar toscamente com determinadas folhas uma espécie de óculos ou visores, como verificamos numa ilhota habitada apenas por jovens fêmeas. Admitimos que, com toda a probabilidade, dentro de algum tempo esta invenção se generalize por todos os arquipélagos, cada vez mais aperfeiçoada. Eis uma prova da inteligência destas gentes, que parecem ter sido criadas somente para a paz e fruição, e que agora assistíamos àquilo que alguém designou “perda da inocência original”.
Por fim conseguimos compreender a razão da sua vulnerabilidade ao magnetismo das feras submarinas: na realidade dispõem de uma mecanismo genético que os determina a submeterem-se ao olhar dos indivíduos de outro sexo; machos e fêmeas seduzem-se por meio deste processo, ao qual são extremamente receptivos ( aliás uma fêmea procurou seduzir-me desta maneira e eu ter-lhe-ia obedecido se a ilha não fosse minúscula e a Beatriz não estivesse atenta). As serpentes do mar devem ter descoberto este comportamento por observação e transformaram-no em arma de dominação, facilmente de resto, porque possuam um olhar extraordinariamente penetrante. Criara-se nos ofídios, entretanto, um comportamento cada vez mais perverso: as defesas dos ilhéus serviam para estimular o gosto desportivo da caça!
Tal como já adverti previamente, não nos contivemos e acabámos por transgredir as ordens: ensinámo-los a fabricar redes, com heras e outras materiais, a capturarem os ofídios e a darem-lhes batalha. Admirámo-nos com a centelha de inteligência que imediatamente se acendeu: um deles, bastante idoso, ensinou os outros a lançar extensas redes ao mar e a conservarem-nas à superfície ao redor das jangadas, enquanto outros se lembraram de abandonar a vida errante (fazem mover as jangadas por meio de toscos e compridos remos) em troca da segurança no interior dos muitos bancos de coral, colocando estrategicamente sentinelas nestes círculos defensivos naturais, dentro de palhoças.
Nas vastíssimas zonas de pauis lembraram-se subitamente de construir habitações lacustres e daí à invenção de canoas e de barcas foi só um passo. Somente sucedia que tinham de repetir o processo de fabrico se acaso interrompessem demasiado tempo o trabalho. A memória deles era realmente muito fraca.
Crescia neles o desejo de segurança alcançada através da união de vários grupos, desenvolvendo fortalezas fixas; alguns já se atreviam a partir para o exterior armados com arpões, feitos de osso e uma grossa haste de madeira. Na sua língua peculiar já teciam discursos de estimulação baseados na “defesa intransigente contra o Mal”. Em suma: a guerra haveria de ser longa, com possibilidade dos ilhéus se irem aproximando de um equilíbrio de forças.
Acusar-nos-ão, certos pacifistas parece-me que já estou a ouvi-los, de havermos introduzido e ensinado a guerra; não temos essa opinião pois a guerra já existia, com o carácter mais absurdo que se possa imaginar, contra um povo inteligente, pacífico e inocente, trucidado por mero desporto. E talvez, quem o sabe, destinado mais dia menos dia à submissão mais abjecta, pois que as “serpentes” não eram répteis mas mamíferos.
 As cidades afundadas despertaram-nos muita curiosidade. Numa extensão de dois mil quilómetros quadrados encontrámos as ruínas de cinco; numa delas observavam-se perfeitamente os restos de um sumptuoso palácio. Correspondia, comparativamente, aos vestígios da nossa antiquíssima civilização minóica ( ou cretense). As semelhanças eram flagrantes. Quanto às causas do afundamento, calculámos que teriam ocorrido um ou vários fenómenos telúricos, numa data aproximada entre três mil a dois mil e quinhentos anos antes. Deduzimos que, depois disso, nenhuma outra civilização se ergueu, talvez por haver desaparecido o continente. Provavelmente, dizemo-lo com alguma segurança, os sobreviventes da catástrofe, agarraram-se às suas jangadas improvisadas e aqui ficaram até agora.
Sobre as serpentes verificámos que elas eram de formação recente, e que ainda se encontravam num processo evolutivo. Se os ilhéus não se precavessem, como finalmente parecia que era o caso, as serpentes, como mamíferos, acabariam, ou acabarão, por exterminá-los, reinando sozinhas sobre o incomensurável lençol de água.
A caminho da Terra vão numerosos artefactos produzidos por essa enigmática civilização “cretense”, incluindo espadas de ferro e objectos de ouro. Entretanto, os nossos especialistas de bordo estudam os vestígios, mostrando-se muito entusiasmados com as pistas que parecem conduzi-los à hipótese de uma extraordinária civilização, onde o touro era uma divindade e as guerras de rapina e os escravos abundavam. O primeiro caso parece atestado pelo formato de certo aglomerado de ruínas, qualquer coisa que lembra nitidamente uma arena, para a qual o animal, a ser verdade, seria conduzido por um entrelaçado de corredores, tão complicado que mais parecia um labirinto, e ainda pela interpretação que formulámos de alguns jogos dos ilhéus que eles muito apreciavam: mostrando-se à primeira vista muito espontâneos e anárquicos, revelavam, porém, algo que lembrava uma tourada, com numerosos participantes formando um círculo à volta de um deles mais corpulento que fingia ser um touro, julgamos nós, com as mãos em riste sobre a cabeça e investindo contra aqueles que funcionavam como “forcados”. Admitimos que seja uma simples brincadeira que sobrevivia de um antiquíssimo ritual em vias de se desvanecer completamente.
O Povo das Águas pratica uma religião muito simples, na qual as Águas e o Céu desempenham um papel capital. Durante a noite emitem uma espécie de uivo que exprime o desalento pela “morte da luz”, enquanto pela aurora, pelo contrário, “uivam” alegremente festejando o seu “regresso”. O mais importante festejo dirigido às águas é a peregrinação que realizam de cinquenta em cinquenta “regressos da luz” a um pico que eles consideram o “centro do mundo”; é todo ele feito de cristal e possui uma ampla caverna semi inundada pelo mar, para onde se transportam nas suas ilhas flutuantes; aí “baptizam” as crianças recém-nascidas. Nos tempos recentes, as serpentes passaram a adorar também este local mas por razões opostas.
Emitindo três estalidos com a língua e erguendo uma mão para o alto,                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                 designam-se a si próprios como os “Filhos da Luz”, pois julgam-se criados pelo Céu que, em tempos primordiais, fecundou a Mãe Água. Como não possuíam uma boa memória, necessitavam de repetir estas lendas, muito simplificadas, todos os serões, uns aos outros.
  Ou por causa da nossa influência, ou por aquilo que tiveram de aprender contra as serpentes, já era, por fim, cada vez mais visível neles a capacidade para memorizar e processar as informações. Por esse motivo alguns deles tornaram-se autênticos especialistas na produção de artefactos. Interrogo-me a propósito da nossa influência, se foi mais prejudicial do que benéfica. Fosse como fosse, a principal responsabilidade cabe às serpentes. Com o Mal aprenderam aquilo que jamais lhes fizera falta. Tornaram-se, em suma, inteligentes.
Decidimos explorar o pico de cristal, na companhia do ilhéu mais idoso que encontráramos. Chamava-se Caronte, ou algo assim, visto que os sons se pronunciam muito diferentemente dos nossos vocábulos. A caverna, semi submersa pelas águas transparentes habitadas por um sem número de organismos marinhos, não apresentava nada que parecesse construído e artificial. Observámos cuidadosamente as paredes colhidas pela sombra. O velho Caronte mirava-nos atentamente, imóvel sentado num dos nossos botes insufláveis. Levado por um pressentimento, explorei meticulosamente cada fenda natural. Por fim, descobri. Era um velhíssimo pergaminho, com cerca de vinte mil anos, conforme constatámos depois quando o submetemos a medições. Exibia uma curiosa gravura que passo a descrever : uma multidão compacta de indígenas parecia dormir o sono da resignação e da morte, formando a base de um triângulo; sobre eles, no vértice, o céu parecia romper-se e dele jorrar a luz da aurora; entre a base e o vértice, um cortejo de ilhéus subia, ou voava, em direcção ao topo, à fonte da luz matinal.
  Tirámos uma cópia do pergaminho, colocando o original cuidadosamente no mesmo local. Tentei abordar Caronte a propósito, mas apenas me pôde transmitir gestualmente a ideia de que o pergaminho era tabu. Muito provavelmente matéria de lendas contadas pelos velhos às crianças, ao serão ou no decurso de festas comunitárias. Que estranho. Não pareciam possuir uma memória como a nossa e, contudo, recitavam um “acontecimento original”...
Entretanto, a Beatriz foi acometida de uma doença que muito nos preocupou a todos, pois não detectámos logo a sua causa. Caiu rapidamente num torpor que muito me afligiu.
 Abandonámos, por esta razão, mais depressa o planeta das Águas e aquele povo do paraíso perdido. Guardam de nós alguns presentes, entre eles um par de binóculos para perscrutarem o oceano, onde se ocultam ruínas grandiosas do que já foram e serpentes que os “tentam” a todo o instante. Talvez guardem também alguma memória da nossa estadia.
 Beatriz recuperou no termo de muitos e penosos dias. Chegámos à conclusão de que o foco da doença estava no Planeta das Águas, rigorosamente um vírus transmitido pelas serpentes. O sintoma mais preocupante, na fase que se seguiu ao torpor, manifestava-se por uma agressividade fria, amoral, que magoava profundamente aqueles que tratavam a paciente. Beatriz curou-se repentinamente, porque o vírus instalou-se em mim. Desse período em que estive acometido de tão diabólica doença, não recordo absolutamente nada. Sei apenas que a médica de bordo deu conta do recado. Ninguém comentou jamais o meu comportamento desse período ( deveria ter sido insuportável de autoritarismo, arrogância, brutalidade!). O vírus viaja agora connosco, absolutamente protegido.


 O mundo imundo

Depois de conduzirmos a nave às guinadas por entre calhaus( alguns eram atraídos para nós) seleccionámos um asteróide que se nos apresentou com algumas centenas de quilómetros de diâmetro. Aproximámo-nos. Observámo-lo do alto. Estava silencioso como um cadáver. Pousámos sobre um maciço rochoso. Abertas as escotilhas recebemos em cheio um odor pestilento. Colocámos os capacetes. Ao redor até onde os binóculos alcançavam, nenhum movimento aparente. Lagoas infectas num quietismo mudo, nenhuma árvore, nenhuma ave, nenhum canto. Um musgo leitoso brilhava sobre um ossário plano e amortalhado. Aqui e acolá erguiam-se colinas imundas de detritos, escórias, resíduos envenenados. Ocultando-se por entre a penugem asquerosa de minúsculas algas, por entre batalhões infindáveis de fungos, por baixo de caveiras e pedacinhos de ossos, agitavam-se criaturas sem rosto, vivas e agressivas, répteis medonhos. Não faziam o mínimo ruído, como se o silêncio fosse a lei e o ardil. Não esboçámos um gesto, não trocámos uma palavra entre nós. Esmagados por aquela forma de existência que equivalia a um inferno dantesco. Os répteis eram de diversos tamanhos e formas. Havia-os com dimensões das lagartixas, mas com duas patas e uma cauda tão comprida que duplicava-os, e que lhes permitia pendurarem-se dos ramos e saltarem sobre as presas; víboras negras que se confundiam com os troncos retorcidos e queimados pela atmosfera; sapos verdes que coaxavam horrorosamente disfarçados de musgo; jacarés semi imersos nas águas podres e que fingiam dormitar; filas infindáveis de baratas que circulavam tranquilamente em procissão, devorando tudo; lacraus que se agarravam às nossas botas com voracidade. O ar sujo vibrava ao meio dia com nuvens de insectos, cortando o silêncio com que fomos recebidos. O silêncio da morte, o ruído do nojo.
  Analisámos amostras do solo e das águas e, no fim, compreendemos que aquele mundo fora habitado, haviam-se extinguido as formas evoluídas da vida, depois de morto ressuscitara vagarosamente em matérias orgânicas repugnantes. Não precisámos de muito tempo para descobrir as causas do cataclismo.
  Quando nos deslocámos ao lado oposto do asteróide vimos então o derradeiro espectáculo: os escombros de uma metrópole! O último elo do enigma desvendava-se. Organismos inteligentes haviam-se exterminado a si mesmos por meio da mais incontrolada poluição.
 Os senhores daquele mundo que outrora vibrara com sentimentos e ideias, eram agora as matérias mais repulsivas do universo.
  Abandonámo-lo velozmente, dominados por uma terrível ansiedade. Deixámos no terreno um sistema automático de produção de oxigénio, com pouca esperança porém, pois a atmosfera estava demasiado inquinada. A equipa médica distribuiu sedativos suficientes para colocar toda a gente numa cura pelo sono. Quando despertámos, julgámos haver sonhado um horrível  pesadelo.

  Para nos distrairmos propus a realização de um espectáculo de teatro cómico , que logo uma equipa numerosa se prontificou a apresentar. Escolheram o Inferno, um dos Autos das Barcas, obra fabulosa de um dramaturgo português muito antigo, chamado Gil Vicente. Entrementes, enquanto esses ensaiavam a peça, organizaram-se desafios de xadrez e de ténis de mesa. Quando finalmente se realizou a representação, fartámo-nos de rir e de aplaudir. A linguagem e algumas cenas haviam sido adaptadas para os nossos dias. Genial. Beatriz esteve deliciosa no papel de “Anjo”.
Decidimos, uma vez mais, entrar em “hibernação”. Íamos novamente atravessar uma enorme extensão de matéria negra.




Deambulando...

    O Computador, o nosso omnipresente Jacques, despertou-nos por fim. Encontrávamo-nos nas cercanias de um enxame de pequenos corpos celeste. Pousámos em sucessivos asteróides ocupados pelas mais diversas e invulgares espécies vivas.
   Em um deles, os indígenas, pouco numerosos e esquálidos, eram nómadas que habitavam um deserto, (o asteróide era todo coberto de areia), salpicado aqui e acolá de cabeços escarpados e áridos. Resguardavam-se com peles dos animais que os acompanhavam ( algo assim como dromedários, que lhes forneciam alimento, sombra e transporte). Possuíam regras tribais e hierarquias rígidas, baseadas na superioridade absoluta dos homens sobre as mulheres e na contenção da demografia através de batalhas, reguladas por um calendário religioso, pelas quais se eliminavam os menos aptos; o resultado era um número adequado de tribos capazes de suportar aquele solo estéril e escaldante. Os mais fortes e agressivos protegiam ferozmente os seus haréns do mesmo modo que protegiam os rebanhos de dromedários, isto é, utilizando adagas de ferro afiadíssimas.
Acreditavam num deus severo, um patriarca muito velho que os teria criado à sua imagem e semelhança. As criaturas sacrificavam-lhe ritualmente o melhor dos seus dromedários. O que nos pareceu paradoxal foi um ritual de sacrifício humano que praticavam: ofereciam ao deus o sangue de jovens vigorosos, a quem tratavam como príncipes antes de serem esfaqueados. Seria mais lógico que escolhessem antes um débil. Mas talvez só os primeiros constituíssem uma oferta sincera ao seu deus severo e vigilante.

   Em um outro, que não excedia a dezena de quilómetros, encontrámos um ambiente luxuriante. Chovia quase permanentemente, uma chuva miudinha e gordurosa; tudo era de tamanho reduzido, tal como os anfíbios que se revelaram comestíveis, e as sanguessugas. Entre as cortinas grossas de chuva depararam-se-nos grupos de homens e de mulheres. Vimos que estas governavam os homens, os quais constituíam a força de trabalho, tanto do produtivo como do reprodutivo; os jovens obedeciam somente às matronas e as mais velhas destas eram escutadas com muito respeito( os homens idosos, pelo contrário, eram repelidos para os pântanos). Não vimos que possuíssem quaisquer armas. Os desgraçados cortejavam as mulheres, exibindo-se em atitudes que nos despertaram gargalhadas, excepto nas competições físicas nas quais o princípio desportivo nos pareceu ausente de todo. Os inaptos passavam a servir nas lides domésticas, que incluíam cuidar dos infantes. Acreditavam em muitos deuses, ou melhor, numa família celeste governada por deusas, e dominada por uma matriarca que se dizia ser opulenta de carnes ( o planetazeco corresponderia à vulva da deusa-mãe e as trovoadas corresponderiam aos seus orgasmos), que excluía os homens da família divina ( por conseguinte estes estavam proibidos de adorarem outros homens, incluindo a homossexualidade ). Eram todos rudes e não observámos nas fêmeas sinal algum do propalado “instinto afectuoso” que as distinguiria dos machos. Cuidavam sem afecto dos bebés, e dominavam os adultos com mão de ferro, tomavam posse do parceiro, enquanto este lhes servia para todos os usos, como propriedade sua, maltratavam-no em casa, acasalavam com outros sempre que lhes apetecia, às vezes na presença do progenitor dos seus filhos, proibindo-o porém de as imitarem. Vimo-nos em palpos de aranha para nos livrarmos destas amazonas, que se aproveitaram muito bem do prolongado jejum de alguns dos tripulantes. Provavelmente ali deixaram as sementes de futuros e mais interessantes cruzamentos.

Havíamos embarcado víveres suficientes a partir do asteróide das amazonas, por isso demorámo-nos no reconhecimento de vários dos mais pequenos, com pouco interesse biológico, mas de elevado valor mineral. O Directório ficará com certeza muito satisfeito por saber que alguns deles são compostos de ouro, prata, quartzo, ferro, urânio. Uma riqueza incalculável ao nosso dispor.
  Aconteceu, porém, que as manobras constantes para evitarmos embates, obrigaram-nos a consumir demasiado combustível; tivemos portanto de procurar um asteróide que possuísse recursos energéticos ou uma civilização técnica capaz de por ela sermos reabastecidos. Decidimo-nos por um que nos obrigava a uma desvio da rota. Ao entrarmos na atmosfera, o computador central garantia a existência de um ambiente natural perfeitamente adequado. Um bando de  passarões vigiou a nossa descida, parecendo indicar o local (julguei até que o passarão principal me piscava o olho). No solo a Quimera foi imediatamente cercada por veículos blindados. Quando deparámos com os indígenas caímos para o lado varados de espanto: eram asnos! No sentido literal! Bate-orelhas, jumentos! Fardados a rigor, de negro. Espantoso.
Desse local, fomos conduzidos nos blindados por burros (que quiseram obrigar-nos a oferecer-lhes presentes) ao C. C. A. M. ( Centro do Comando Asnático Mundial). Em regime rigoroso de quarentena, observados por médicos, todos eles asnos, interrogaram-nos com desprezo com o objectivo de arrancar todas as informações respeitantes ao nosso armamento, o que não conseguiram evidentemente. Analisaram a estrutura da nossa linguagem, os nossos comportamentos e até os tiques pessoais, submeteram-nos a testes, questionários, experimentos. É claro que não permitimos que descobrissem o que quer que fosse. Aliás, suportámos aquilo com a finalidade de melhor os conhecermos. Enquanto executavam estas missões, procediam como os outros: zurravam. Por fim, transmitiram a notícia para todo o mundo, zurrando, e conduziram-nos por avenidas ladeadas de multidões imbecis, que atiravam sobre nós chusmas de papelinhos coloridos. Falámos de cima de palanques sobre a paz, a concórdia, o progresso e outras retóricas do costume, sem zurrar. Fomos fotografados e filmados, com cara de poucos amigos, ao lado de políticos asninhos sorridentes, que competiam em campanhas eleitorais. Interviemos em concursos televisivos tolos. O Presidente das repúblicas asnáticas, um jumento de queixada quadrada, quando nos levaram à sua presença augusta, ordenou-nos zurrando que lhe lambêssemos os cascos, acto ao qual não obedecemos, fez orelhas moucas e permitiu-nos que jogássemos com ele uma partida de golfe, em troca de proferirmos algumas palavras a favor da sua “impoluta” vida pessoal, pedido que também não respeitámos evidentemente.
Resolveram tratar-nos com aparente respeito, porque, na verdade, temiam-nos a valer. Não só por causa das nossas armas invencíveis, mas também porque constituíamos um exemplo muito perigoso para a raça dominante. Sendo nós fisicamente tão parecidos com a raça que dominavam, que consideravam perfeitamente estúpida, como é que nós havíamos evoluído tanto?
Ficámos a reconhecer as várias siglas: A.F.M. (  Assembleia das Federações Mundiais); G.F.O. (Governo da Federação Ocidental), G.F.L.(Governo da Federação do Leste), etc., e reunimo-nos com os seus dirigentes ( constatámos a hostilidade recíproca, pois zurravam constantemente com os embaixadores). Fácil foi verificar que os diversos governos nacionais e federativos obedeciam menos à Assembleia Geral das Federações do que ao tal Presidente de queixada quadrada, que era o comandante em chefe da PVM (Polícia de Vigilância da Democracia). Quem parecia dominar aquela grossa estrebaria era um pequeno punhado de corporações mundiais.
O asteróide encontrava-se dividido em quatro partes, como um queijo, as tais uniões; no entanto, o que parecia uma união disfarçava muito mal a concorrência e o receio; daí que o negócio das armas superasse qualquer dos outros. As guerras regionais e locais são constantes, na medida em que qualquer nababo, ou general, pode adquirir bombas e blindados, quando e onde lhe apetecer. De resto, a PVM dispunha de uma vasta rede de provocadores que instalavam o caos logo ao primeiro sinal de desobediência. Para contrariar a vontade de independência, os governos propagandeavam a ameaça de uma ideologia subversiva global que visava atacar os fundamentos da civilização; justificava-se deste modo a implantação de regimes submissos. Deitavam mãos do mesmo modo a uma panóplia de tácticas de desestabilização de regimes, desde atentados à bomba, rumores, com vista a semear o terror, asfixia económica, grupos com siglas “esquerdistas” que lhes faziam o frete, financiamento de partidos da oposição.
 Adianto agora uma informação capital: os asnos, que eram muitos, governavam, com casco mais duro ou mais leve conforme os casos, uma massa muito numerosa de seres que se assemelhavam estranhamente a nós mesmos! Andavam sobre dois pés, mal vestidos e mal alimentados, olhando quase sempre para o chão. Era esta gente que trabalhava para os asnos.
Ao lado da mais portentosa riqueza espalhava-se a mais impressionante miséria. Doenças mortíferas assolavam os asnos, os outros sobretudo; logo que uma era extinta, logo outra irrompia. Uma terça parte pelo menos da população estava desempregada. Enormes multidões de desocupados vadiavam pelas ruas, implorando pão ou trabalho. Hordas famélicas geravam delinquentes com fartura, ou  alistavam-se nas hostes dos traficantes. O sistema económico dispensava sucessivos segmentos de mão de obra. O progresso expelia a força de trabalho. Massas de excluídos derramavam-se pelas periferias das cidades, matéria orgânica em putrefacção.
 Os ricos deploravam em público a pobreza, ao mesmo tempo que a fomentavam. As igrejas prosperavam com os ricos e com os pobres. Tudo que aliviasse os deveres mas aumentasse o gozo, era mercadoria muito procurada, por exemplo um inofensivo comprimido, permitia aos estudantes asnos decorar as lições, ao mesmo tempo que dançavam e faziam outras coisas deitados (gerou uma onda de desemprego entre os professores). Um outro invento rendia muito dinheiro: tratava-se de restituir vida a cadáveres congelados; deste modo voltavam à vida indivíduos poderosos que haviam feito a vida negra aos outros. Um outro engenho, pelo contrário, revelou-se um fiasco: um minúsculo aparelho  escondido num colar, num anel, num vestido, num par de cuecas, permitia testar o grau de fidelidade das mulas; fora financiado por um lobby de advogados especialistas em divórcios. Dispositivos com veneno, disfarçados de lapiseiras, insectos, flores, aves, brinquedos, matavam à distância com mais eficácia que a magia negra. Desodorizantes de Cupido frechavam de amor submisso a mais orgulhosa das criaturas. Terraços arborizados no topo dos arranha-céus serviam de espaço discreto de bacanais indiscretos. Pílulas mágicas atrasavam o envelhecimento das células, permitindo que subsistissem múmias ao comando das multinacionais, das igrejas e dos quartéis militares. Multiplicava-se a produção de clones: jericos todos idênticos saíam das universidades e punham-se imediatamente a queimar os livros .
Presenciámos muitas e diferentes formas de governo nas nossas viagens. Gerontocracias, matriarcados, patriarcados, oligarquias, aristocracias, monarquias, repúblicas com ou sem ditaduras, regimes socialistas com ou sem Estado, com ou sem ditadura de partido. Em todos os géneros existia sempre uma ordem qualquer, em todas as espécies vivas funcionava sempre uma qualquer hierarquia, uma qualquer escala de valores, uma qualquer organização de símbolos que regulava mais a colectividade do que as coisas, mais as relações dos seus membros entre si, do que as suas relações com as coisas. Contudo, e apesar da variedade, constatei que as soluções mostram-se limitadas; bem vistas, reduzem-se a quatro ou cinco. O que parece é que existe um quadro de direitos, e que ele é mais largo ou mais estreito, tanto na sua qualidade como na quantidade dos indivíduos que abrange. Na realidade confrontei-me com muita astúcia, com as manhas das mais grosseiras às mais subtis. Nunca, no entanto, me deparei com tanta mentira como neste exíguo planeta. Pão e circo, diziam os antigos. Aqui o termo “pão” abrange uma infinidade de bens que se repetem e replicam, e o termo “espectáculo” inclui as mais engenhosas artes de manipular. Governar bem, nesta “democracia”, significa satisfazer a vaidade de autómatos e inculcar-lhes segurança. O grande feito destes asnos, foi inventarem “classes médias”. Atomizadas, aduladas, esvaziadas de qualquer ideia ou projecto comum, estimuladas por uma cobiça endémica que leva cada um a desejar aquilo que o vizinho deseja, estas classes constituem o pilar da democracia dos asnos. Participa-se tão pouco na vida política e assiste-se, ao invés, a tantos espectáculos, que os políticos até recorrem a estes para consultar o povo.
 O comando do governo mundial situava-se em três cidades, conforme a composição dos três poderes principais: O Presidente, o Congresso e o estado-maior da PVM. Apresentaram-nos aos dois primeiros, mas não ao último, instalado num gigantesco edifício em forma de abegoaria. A Quimera, apesar disso, tirou as fotografias necessárias do complexo e das muitas bases militares distribuídas pelo asteróide. Encontram-se de facto muito e perigosamente armados, embora contra nós tais armas não ofereçam resistência alguma. Imagine-se uma corja de asininos a escoicear sobre pipas de dinamite! É que esta cáfila extravasa facilmente o medo e o ressentimento, a cobiça e o ódio, pela mais extremada violência. Quando zurram temos de nos pôr a milhas dos coices. São estúpidos mas inventivos, o que só demonstra que todos os mamíferos o são.
A guerra, apresentada como intervenções humanitárias, é conduzida por parasitas, infames, ladrões, assassinos, imbecis, devedores, escroques, em suma, pela escória da sociedade. Tenho saudades dos nossos burricos. Estes, pelo contrário, são alvares, bestiagas, cavalgaduras. Grotescos e maus. Entre eles funciona uma espécie de loucura, sem a qual amizade alguma seria possível; este povo não suportaria por muito tempo o governo, o empregado o seu patrão, a mulher o seu marido, o estudante o professor, o amigo o seu amigo, se entre eles não houvesse a ilusão, o engano recíproco.
Consomem exclusivamente uma espécie de teatro popular, com estrebarias à volta. Usam antolhos para não verem mais nada, tal como fazemos às alimárias. Ao ler as histórias que este mundo se atribuía, constatei que a auto imagem era induzida por escritores subornados para atribuir as maiores proezas da guerra aos cobardes, os conselhos mais sábios aos cretinos, sinceridade aos aduladores, virtude aos traidores da sua pátria, piedade aos padres pedófilos, castidade aos governantes e honestidade aos corruptos. Os programas de maior audiência, no palco, eram concursos onde se ganhava bom dinheiro, a troco de um jerico zurrar de uma forma mais engraçada, aplicar os melhores coices noutro, ou deglutir o mais convictamente possível o maior número de fardos de palha sem parar. Nos intervalos desfilavam mulas semi vestidas azurrando as delícias putativas da forragem de caule longo ou de caule curto ou da maçaroca de espiga fina ou de espiga grossa. Intercalando com os tais concursos, entretinham o pessoal com telenovelas e estórias de sangue e sexo.
Na realidade o princípio do prazer daquela espécie involutiva desfigurou-se em consumismo. Consomem tudo, desde que o rótulo seja atractivo, pois não é tanto o conteúdo que importa mas o envelope. Em rigor, alguns consomem o que querem enquanto os demais ficam-se pelo desejo. Que seria a vida se lhe tirássemos o prazer? O que impressiona não é que se deixem governar pelos prazeres, é que estes sejam amiúde artificiais e lorpas.
 Aqui aprendi que “Quanto menos prudência e sabedoria, maior a felicidade”. Uns morrem de amores pelas suas mulherzinhas e quanto mais elas gostam de outros, mais eles as adoram ; não poucos, pelo contrário, vigiam-nas de caçadeira na mão; aquele come tudo quanto ganha, no resto do mês endivida-se; outro despreza o trabalho, mas venera o dinheiro; preocupam-se todos imenso com a vida dos outros, permitindo que os demais se preocupem imenso em dizer mal da vida deles; pela ganância adulam um parente rico, sem essa razão atiram-no para a valeta; jovens bem parecidos tornam-se amantes de qualquer velha com dinheiro; belas mulheres entregam-se, sem pudor, a qualquer asno que seja famoso ainda que imbecil, gozando felicíssimas com a inveja das demais. Em mais do que uma ocasião vi asnos a matarem a tiro outros asnos, por causa de uma mula; filhos a roubarem os pais, que dormiam sossegados a sonharem com as qualidades dos seus rebentos; escravos a vangloriarem-se da sua condição, como sendo a mais segura; políticos a mandarem para a morte os mancebos, recorrendo a uma simples mentira e a uma ração dupla; aduladores sem testa e sem coluna vertebral a conquistarem delicadíssimos cargos públicos, e indivíduos venais a distribuírem subsídios do erário público aos amigos, ou seja, dinheiro dos contribuintes, e empresários monopolistas a doarem uns trocos a favor da caridade pública, enquanto fintavam os colectores de impostos.
 A corrupção não era larvar, era absoluta e ostensiva. Desde pequenos aprendiam logo a corromper; existia mesmo uma moral paralela (a outra era pura retórica) que absolvia a corrupção. O sistema das “cunhas” e das “luvas” era não só um dever, como um direito. Classificavam-se como “idealistas estúpidos” aqueles que o não praticavam. Os governos permitiam às empresas contractos de exportação com essa cláusula “corrompe o melhor que puderes”, que visava adiantarem-se aos concorrentes externos. Pelo que pude informar-me a taxa de suicídios era elevada, mas não entre os corruptos, sim entre aqueles que não se deixaram corromper. O sistema judicial fechava os olhos aos primeiros, castigando severamente quem roubasse um pão. As leis são, aqui, como teias de aranha capazes de prender moscas pequenas, mas permitindo que vespas as atravessem. Os advogados constituem uma das castas mais incultas e ignorantes desta sociedade - arrogantes no trato diário e inimigos declarados do saber e da cultura, para os quais a verdade vale um cêntimo e a mentira um cheque gordo. Os juizes arrogam-se de independência, quando, na realidade, distinguem perfeitamente um fato-macaco de uma gravata de seda. Centrais do crime (tráfico de drogas e de armas, extorsões, etc.) governavam territórios, manipulavam presidentes e papas, subornavam honrados burgueses, pressionavam legisladores, congelavam leis, faziam vergar a espinha mais vertical.
 O que existia de mais curioso neste mundozinho virado das pernas para o ar, tratava-se do seguinte: nem todos eram jumentos, ou asnos se se preferir, sê-lo ou não de certas condições dependia, sendo que estas prendiam-se com a hierarquia, com o lugar ocupado, e também com o conformismo ; deste modo, verificava-se uma metamorfose quando e sempre que um indivíduo conquistava altos postos, ou sempre que se pusesse a bater as orelhas a favor da situação. Era um espectáculo curioso de se ver: uma criatura que até então marchava em pé e a direito, apenas lambia os cascos a um asno ou recebia um cargo ou uma sinecura, logo se transformava num burrico, escoiceando os outros e zurrando bem alto para se fazer ouvir. Os tiranos eram imitados pelos tiranetes. Os medíocres sonhavam com o mando para se tornarem grandes, ou seja, burros. Burros e maus. Julgo mesmo que aquilo obedecia a regras, do género : Primeiro -–Quanto mais alarve, azêmola, tanso, te mostrares, tanto melhor ; cultiva a incompetência e modera a vaidade para não ofender os asnos teus superiores; Segundo – Quanto mais aplaudires os chefes de um partido, de um lobby, de uma corporação, mais depressa alcanças a transcendência asnática; Terceiro – Mostra-te nos espectáculos públicos o mais possível e tornar-te-ás um burro a quem os demais respeitam pela tua formosura ou pela tua inteligência, mesmo que não possuas nem uma coisa nem outra. Era até muito popular um hino, uma cançoneta, que rezava assim :” Somos asnos com muita raça / zurrar, zurrar, é o nosso querer/ Se não és asno estás lixado/ Só te resta obedecer!”.
Era tudo tão estúpido que merecia uma gargalhada, não fosse o sofrimento daqueles que não eram burros. Os que trotavam sobre quatro patas eram classificados como inteligentes, os outros, que marchavam sobre duas pernas, traziam só por isso o rótulo de parvos. Em boa verdade, mostravam-se incapazes, pelo menos, de fazer em cacos aquele mundo de imbecis. Os que dominavam eram fortes, porque dominavam, não por antes serem fortes.
As mulas cobiçaram-nos por sermos quem éramos, vedetas exóticas do espectáculo, e não manifestavam pudor algum em assediar-nos fosse a que hora fosse; incluindo, por exemplo, a esposa de um secretário de Estado, uma azémola já madura, que me seleccionou para parceiro sem me perguntar sequer a opinião. Como me pareceu, durante o rendez-vous, demasiado estúpida, escapuli-me o mais cedo possível, abandonando-a insatisfeitíssima e ressaibada; no dia seguinte fui admoestado pelo próprio Presidente pelo “facto comprovado por documentos” de que eu havia procurado “assediar sexualmente” a dama; obviamente que o mandei zurrar para bem longe.
Todas as federações, à vez, tentaram seduzir-nos para o lado delas; como não conseguiram com retóricas, procuraram subornar-nos; falhadas as tentativas desistiram, excepto o governo mundial que, através dos seus agentes, fez mais do que uma tentativa para eliminar-me, atribuindo depois a responsabilidade aos movimentos independentistas que eram sempre classificados de organizações terroristas. Todos os tiranos enviaram-nos emissários para comprarem as nossas armas, ou com ordens para roubarem-nas. A Quimera liquidou-os liminarmente. Inclusivamente, raptaram uma das nossas tripulantes, ou melhor, drogaram-na e sequestraram-na, montando uma chantagem para extorquir-nos segredos militares. Com auxílio dos nossos aparelhos de detecção, conseguimos localizá-los numa estrebaria e acabaram no açougue, não sem antes haverem violado a nossa camarada, que teve de submeter-se depois a terapia intensiva.
 Aquele pequeno mundo havia passado por duas etapas na sua história, encontrando-se precisamente na terceira; no decurso da primeira, que ocupou séculos, evoluíram para formas de civilização cada vez mais técnica; a comparação que o Poeta, um grande amigo que fiz aí, utilizou para se explicar foi com uma colmeia: eles constituíam um enxame e esse enxame, na primeira etapa, funcionava por meio do vício, ou seja, pela dialéctica do vício e da virtude – o que era bom produzia também o mau, e com este passava-se o mesmo.
  O modelo funcionava deste modo: o luxo do rico permitia que o pobre vivesse, ou seja, fornecia trabalho, e testemunhava a prosperidade da nação; cometiam-se crimes para que as polícias andassem ocupadas e os deputados zurrassem; desenvolviam-se processos para aumentar a produtividade, provocando-se sempre novas necessidades, numa espiral, ou seja, um arado precisa de minas de ferro, as minas, de siderurgias, e assim por diante; à necessidade de comer e vestir, acrescentou-se a necessidade pura e simples de consumir (logicamente se o consumo afundasse, o sistema entrava em colapso); a necessidade de vestuário para protecção, gera o luxo e, este, o comércio; a repressão dos crimes gera as leis e os tribunais que, logicamente, alimentam uma casta que torna as leis complicadas para que se torne necessário precisarmos deles; tribunais e tribunos que defendem qualquer facínora desde que lhes pague bem, inculpam o inocente, arrastam os processos dos amigos para que eles prescrevam, alteram as leis de acordo com as maiorias no parlamento, e isto é bom para a democracia; os cientistas inventam agentes químicos que produzem doenças inexplicáveis com o fim de hipostasiarem o valor da saúde e a importância do médico; o Estado poupa nos empregos e nas despesas públicas para, em seguida, subsidiar os empresários; quem paga impostos são aqueles que os não podem pagar, ou seja, o trabalho socialmente útil era onerado, mas o capital não; produzem-se continuamente mercadorias para satisfazer a vaidade e o namoro, o que permite produzir riqueza e lubrificar a economia. Na verdade era bem uma colmeia, pois uma larga maioria, as abelhas operárias, trabalhava continuamente para alimentar as rainhas e a corte dos seus acólitos. Perguntei-lhes quem eram as rainhas, tendo eles respondido que diziam isto como metáfora visto que já não existiam, tendo sido substituídas por lobbies, partidos e sindicatos. Nessa etapa, por conseguinte, o vício, a desordem, a iniquidade das leis, estimulavam o progresso. Nesse caso o que progredia era o vício e não a virtude. Um cínico resumiu a questão nestes termos lapidares e dialécticos: “ É de todo conveniente a desigualdade porque ela é o motor do progresso, o estímulo do trabalho, o aguilhão da mobilidade social; as sociedades igualitárias são estagnadas; Se todos fossemos iguais perder-se-ia toda a motivação, o desejo de ter e de melhorar, o vazio que é necessário preencher, a atracção pelos bem sucedidos, o medo de cair mais baixo. Porque razão se elogia a prudência como virtude? Por horror à miséria e para beneficiar as seguradoras. Uma certa dose de desigualdade é excelente para pôr as coisas a mexer. Demasiada torna-se perigosa para a estabilidade do corpo social: a inveja é mãe de todas as revoltas, a miséria faz o crime. Eis como um q.b. de cobiça é como o sal na comida. Qual foi a razão do progresso? A solidariedade piedosa e piegas? Não, foi a competição. “.
  As coisas, porém, chegaram a um ponto tal que se geraram protestos. Aquela gente recordava-se de um profeta que pretendeu reformar a colmeia eliminando os vícios, incutindo o dever de honestidade: foi o fim de uma época e o início da segunda. O profeta carismático converteu-se depressa em arauto e líder, organizou uma vasta seita de “puros” ou “iluminados” e as multidões furiosas puseram o asteróide de pernas para o ar. Uma onda de milenarismo tomou de assalto as consciências pelo seu lado mais messiânico. O seu mentor galvanizara as multidões, manipulara com sinceridade inigualável as suas mais profundas expectativas, os seus sonhos impossíveis, os seus ressentimentos, e deu livre curso às emoções. Os ricos, os parasitas, os viciosos, assim classificados, os professores e os padres, o comércio do luxo, a dita literatura venial, tudo e todos foram chacinados, as ricas metrópoles varridas do lixo dos abusos, as bibliotecas descontaminadas, os bairros aristocráticos assaltados e incinerados. A colmeia passou a reger-se pelo princípio severo da honestidade e guilhotinaram-se os vigaristas. Os patifes, facínoras, réprobos, aventureiros, aldrabões, fariseus, quer fossem ministros, deputados, padres, generais, advogados e juizes, médicos, professores, jornalistas, empresários, eram desalojados dos seus cargos e enviados para campos de trabalho, por exemplo para as minas de carvão, ou para determinados serviços, como cuidar dos doentes, ou limpar as latrinas públicas.
Como toda a gente era honesta, ou cuidava de o parecer, os mais espertos e astutos, porém, fingiam melhor do que os outros e eram, por isso, elevados à categoria de “educadores do povo”, ficando libertos das tarefas rudes e ocupando-se exclusivamente a emitir mandados de prisão. Em meia dúzia de anos toda a colmeia viu-se revolucionada, parou tudo e tudo ruiu: os políticos ambiciosos discursavam para os peixes, os pastores das almas não tinham ovelhas, os médicos passaram exclusivamente a curar as doenças, tanto dos pobres como dos ricos, os advogados mais ignorantes fecharam os escritórios luxuosos, os mercados da Bolsa encheram-se de moscas, as televisões, não tendo blocos publicitários, deixaram de emitir os espectáculos que se costumam ver nos intervalos, a indústria do armamento faliu, arrastando consigo uma mole imensa de gestores desempregados que imediatamente se puseram a conspirar contra o novo regime, os militares ficaram sem lagosta ao jantar. Sem a satisfação dos vícios soçobraram oligopólios, encerrou o comércio do supérfluo, disparou o desemprego, encolheu o consumo, fanou-se a indústria do entretenimento, instalou-se o nojo por botequins e bordéis. Uma fonte importante das artes estiolou, pela supressão das boémias e dos subsídios. A colmeia ficou à míngua. Revoltas estalaram, por fim, por todo o lado, jurisconsultos, especuladores do mercado de capitais e demais especuladores, contrabandistas de armas, latifundiários, traficantes de drogas, proxenetas, generais, distribuíram panfletos alarmistas, ameaçaram dos púlpitos os inimigos da fé e executaram atentados bombistas. O profeta educador foi abatido com um tiro na nuca e depois enforcado, os seus fiéis aniquilados em nome dos mais elevados valores do progresso e da liberdade.
  Por fim, a colmeia reintroduziu a antiga divisão do trabalho, a propriedade e o lucro, o vício e a desonestidade. As obreiras dedicavam-se novamente à sua função ancestral. Esquecida a reforma dos costumes, os funcionários ganhavam menos e, portanto, menos faziam, os directores ainda menos embora ganhassem mais, os candidatos a cargos políticos atropelavam-se para o beija mão. Foi então que uma crise de sobreprodução a abalou até aos caboucos. O sistema vacilou,  mas a guerra lubrificou a engrenagem. Cedeu até onde achou conveniente, adoçou o discurso, subornou as convicções de alguns chefes que ainda ontem o contestavam, dividiu para reinar de novo. A corrupção prosperou como nunca, injectando vitalidade na finança, e fornecendo temas aos bobos. O bem estar concede, enfim, à má consciência o conforto da dita.
  A populaça do asteróide recupera tranquilamente o seu lugar, isto é cada um desempenha agora o papel para o qual se julga destinado. Em baixo permanecem  aqueles que sustentam este fluxo de vai e vêm. Os Governos, ou seja os estado-maiores dos oligopólios, regulam estas leis dos vasos comunicantes, convencendo todos os cidadãos de que participam realmente e que é para o bem deles que governam.
  Preparámos as malas para retomar a viagem. Do alto observámos o minúsculo planeta de criaturas miudinhas atarefadas com as suas miudezas e um de nós comentou: ”Já voltámos a casa?”. “São tão insignificantes observados cá de cima que poderíamos destruí-los sem qualquer emoção, e sem que isso perturbasse minimamente o universo!”, retorquiu outro. “Não vale a pena - rematou o primeiro -. Aqueles que sobrassem voltariam a fazer o mesmo...”
 Abandonámos o Poeta, que se chamava Tebac. Exprimia-se maravilhosamente, convertendo cada vocábulo na pérola do colar das frases. E andava sobre os dois pés. Ofereceu-me um livrinho com belos poemas. A palavra que os insubmissos usam para Esperança é Jamir, que significa “Amanhã”, e para Ditadura a palavra Jamar  (“Hoje”). Jamir all qui bhur / Was mhal irff / i ruzali fest lhár / Jamir sus ti jamár! ( Amanhã levantar-te-ás cedo, / banhar-te-ás, vestirás depois o teu melhor fato de trabalho / e juntar-te-ás ao teu povo. / Amanhã começa hoje!), assim era o poema de abertura. O último rezava assim : “ Ó  povo infeliz, desperta do sono da resignação! A salvação aproxima-se: quando o céu se romper e dele jorrar a luz de um amanhã solar, ascendereis à Casa Comum!”. Estes versos familiares deixaram-me numa profunda meditação. Eles também aqui estiveram! Ou estarão um dia.

  Desamarrámos daquele desgraçado asteróide, quase microscópico para a extensão do universo que a Quimera explorou, cuja arrogância dos seus habitantes os levava a julgarem-se únicos, eleitos e centro do Mundo. Não fosse pelas gentes sofredoras e heróicas na sua luta diária pela sobrevivência, pelos infantes famintos e abandonados, a dor nos olhos líquidos de tantas mães, e nós, das alturas dos espaços infinitos, teríamos premido um simples botão vaporizando num segundo uma longa história de canalhices e de infâmias. Com eles nada temos a aprender. Deles só temos de passar ao largo, como sucede ao homem que evita que o confundam com o burro.




Adão e Eva

             Antes de largar a desmedida cintura de asteróides ainda resolvemos averiguar a que se devia uma estranha presença de vida num corpo com cerca de metade da nossa lua. Observada pelos nossos telescópios parecia gente autêntica, e era-o efectivamente. Surpreendentemente não vislumbrámos mais ninguém ao realizarmos uma volta completa, senão duas criaturas, muito juntas, levantando os olhos com temor para a nossa nave. Cheios de curiosidade, como sempre, decidimos pousar. Não precisávamos dos fatos de protecção. O casal não se aproximou de nós, abraçados ali se quedaram até chegarmos mesmo ao pé. Ele envergava umas calças de tecido grosso, quase grosseiro, e uma camisola de lã; a mulher, pelo seu lado, vestia uma larga e comprida saia de linho  com um avental, uma camisa florida também de linho e uma mantilha de lã sobre os ombros.
Após os tranquilizarmos, com gestos pacíficos, universais, a mão direita sobre o coração e a outra erguida e aberta, conduziram-nos, a mim e à Beatriz, à choupana onde habitavam. Surpreendemo-nos com a solidez da casa, a madeira cortada a preceito e bem colocada, o pátio e a porta que conseguiam ser bonitos, um pátio com árvores frondosas, e um quintal nas traseiras onde corria à solta uma variedade de cabritos, ao que suponho. Rodeados por uma cerca viam-se vários cavalos de esplêndido porte. O interior da casa, pela arrumação e bom gosto no mobiliário simples e rústico, fez-nos sentir o aconchego de certas cabanas da nossa Terra, junto aos Grandes Lagos (se é que ainda existem...). A jovem mulher colocou sobre a mesa tigelas de madeira, contendo alimentos que nos souberam como iguarias, particularmente um excelente queijo de cabra, e uma tarte de nozes que, sinceramente, nunca na minha vida comera outra igual. Dois felinos entraram entretanto sorrateiramente, aproveitaram para se roçar nas nossas pernas e foram deitar-se aos pés da mulher. Escurecia lá fora devagar. O crepúsculo inundava as janelas com uma luz de um intenso vermelho alaranjado que se me insinuou no coração como uma nostalgia. O ar era sereno. A placidez e o conforto, o odor das tartes no pequeno forno de lenha, os bichos ronronando, os cálidos olhos ainda juvenis daquela mulher, tudo me aquecia a alma e me tornava pouco a pouco indolente, bastando cerrar os olhos para me sentir de novo no lar da minha infância. Reagi, comunicando com a Quimera para lhes dizer que estava tudo bem. Observei a Beatriz para ter a certeza se ela estava ali de facto, se não era um sonho, uma lembrança. Ela tinha os olhos semi cerrados, dirigidos para um lugar ausente algures no meio dos lenhos odoríferos que ardiam na lareira. Pelo pouco que sei de telepatia, Beatriz imaginava o filho que ainda não teve.
 Abordámos a comunicação possível com aqueles dois seres enigmáticos, através de gestos e outros meios. Verificámos que, afinal, compreendiam perfeitamente o sentido das nossas palavras, facto que nos deixou completamente boquiabertos! Explicavam-se numa língua que parecia conter expressões de várias línguas terrestres, como se estivéssemos ouvindo um género de esperanto. Não sabiam explicar a origem da sua linguagem, nem as origens dos seus ascendentes. Destes conheceram apenas os seus avós e pais, não sabendo mais nada, nem porque aqui vivem, nem se teriam vindo de outro lugar. Tendo falecido os progenitores, restavam eles. A casa começara a ser erguido pelos pais dos seus pais, deles herdaram as terras e o seu cultivo. Julgavam que os animais que possuíam eram originários deste local, mas nem isso podiam garantir. Aguentavam-se como podiam naquele absoluto isolamento, e não lastimaram a solidão. Durante o tempo em que aí permanecemos verificámos que nutriam um pelo outro um indestrutível afecto e compunham-se ambos perfeitamente. Às vezes passeavam-se de mãos dadas pelos arredores, não mais do que uma distância conveniente, porém mantinham-se ocupados na maior parte do tempo com as lides domésticas, o tear artesanal, o cuidado com os seus animais, a agricultura. Quando lhes perguntámos porque não se afastavam muito, responderam-nos que temiam a presença de animais ferozes, pois que escutavam os seus rugidos e, por mais do que uma vez, desaparecia-lhes uma cabra. O homem havia-se aventurado certa ocasião a uma distância considerável, mas como não dispunha de armas e deixara a sua companheira só e indefesa, resolveu regressar depressa e não mais repetir a façanha; trouxe com ele, mesmo assim, o par de belos ginetes que ali pastava.
   Fomos dormir para a Quimera mas, pela manhã, regressámos , numa equipa de quatro, bem armados, decididos a vasculhar a máxima extensão do pequeno globo, utilizando um veículo. Nas proximidades encontrámos o ribeiro de águas cristalinas de que o casal se servia e onde, na margem de cá, bebiam e pastavam cavalos, cabras e porcos. Não existia nenhuma ponte. A cinco quilómetros dali erguia-se uma larga e espessa floresta. A flora que encontrámos era toda ela idêntica àquela que existe nas nossas regiões temperadas. Na floresta habitavam algumas espécies bem conhecidas, como coelhos, esquilos, ouriços cacheiros, cães selvagens, corças, javalis, aves canoras. Eram com certeza as matilhas que assustavam os dois seres. A floresta terminava abruptamente, cortada longitudinalmente por um profundo desfiladeiro, numa extensão de mais de vinte quilómetros. Ao longe erguia-se uma aguda montanha, levantada provavelmente por um vulcão, agora completamente inactivo. No centro do vale desfilava um longo e largo rio que descia da montanha.  Percorremo-lo e verificámos que desaguava num amplo lago com alguns quilómetros de diâmetro. Não encontrámos vestígios de mais ninguém, semelhante ou sequer diferente do nosso casal, excepto uma grande profusão de animais, todos eles bem nossos conhecidos, os mesmos que já referimos e ainda cabras montanhesas. Animais propriamente ferozes somente os tais cães. Não detectámos ruínas de nenhuma civilização. O resto do pequeno astro compreendia mais arvoredos. O asteróide parecia, pois, habitado apenas pelo casal, e apresentava uma composição climatérica e biológica absolutamente paralela à que podemos encontrar em determinadas regiões da Terra.
Donde viriam então os seus habitantes tão humanos? E, pensando bem, donde viera inclusivamente a própria fauna e flora tão familiar?
 No regresso resolvemos interrogar novamente o casal. Relataram-nos uma história, que escutaram a seus pais ( é evidente que estamos perante um par de irmãos!) e que relatava a existência de um lugar absolutamente proibido. Esse aviso suscitara nas crianças um medo tal, que jamais se afastaram depois das  cercanias da sua pequena quinta. O lugar, pelos detalhes da pequena história,, ficaria na montanha ou numa caverna. Escolhemos, obviamente, a montanha. Explorámo-la a pé, com os nossos detectores, em busca de qualquer caverna oculta no corpo da montanha. Nada descobrimos.
Foi no interior da floresta mais distante que o detector magnético deu sinal da presença de um corpo metálico importante. Talvez fosse uma jazida mineral, pensámos. Mas quando conseguimos pousar, Beatriz bateu palmas com entusiasmo. Ali mesmo encontrava-se um veículo espacial! Completamente coberto de vegetação, não fora visível do alto. Era mais ou menos do tamanho das nossas cápsulas. Encontrava-se praticamente intacto, embora evidentemente com os motores inutilizados. Notoriamente fora alguém que o tapara, num trabalho que teria durado semanas, por qualquer razão insuspeitada. Deveria ter pousado com alguma violência, mas sem contudo pôr em perigo, provavelmente, os seus ocupantes. A hipótese mais plausível é que lhes houvesse faltado o combustível, pela observação que fizemos dos tanques. Por conseguinte é de admitir que não era este o seu destino. Para onde se dirigiriam?
  Durante horas analisámos à lupa todo o seu interior, concluindo que não era de modo taxativo um objecto terrestre. Um facto admirável encontrava-se também no seu nome, Arkê,  que tanto poderia significar “Princípio” se adoptássemos o termo em grego, como “Arca” se, pelo contrário, o aproximássemos da palavra latina. Já havíamos visto as coisas mais inesperadas, inconcebíveis mesmo, não nos espantaria nada que houvesse noutros pontos do espaço sideral linguagens semelhantes às nossas. E seres humanos idênticos, com costumes similares. O Universo executa cópias, estou em crer, por uma razão ou por outra. Não é impossível que hajam cópias, pelo menos réplicas aproximadas, de nós mesmos. Porém não descobrimos ainda a chave do código para entrarmos na memória do computador que ficou a bordo da nave perdida. Trazemo-lo connosco obviamente. Aí na Terra será tarefa fácil para os especialistas.  O casal levou-nos a visitar as sepulturas dos seus pais e avós. Enternecemo-nos defronte daquelas campas. Nenhuma cruz as assinalava. Excepto duas lajes colocadas na vertical com dois desenhos idênticos gravados na superfície e alguns caracteres. Beatriz levou a mão à boca num gesto de estupefacção; eu ajoelhei-me lentamente como numa atitude de adoração – um triângulo equilátero com um círculo no interior! E a seguinte mensagem, escrita numa língua que se assemelhava extraordinariamente ao latim : “ Crescei e multiplicai-vos sem culpa e sem remorso! Aquele que partiu, permanece vivo no passado!”
Depois de refeitos do assombro em que ficámos ambos, passámos a encarar os dois irmãos com outros olhos. Víamos neles, agora, os últimos sobreviventes, talvez, de uma civilização que se apagara nos confins do cosmos. Por qualquer razão extinguira-se. Um pequeno-grande símbolo que testemunhava o heroísmo e o alto sentido de sobrevivência de um pequeno punhado de seres inteligentes e morais. Anónimos, exactamente, pois nunca esta expressão tivera tanto cabimento. Juntando todos os dados de que dispunha, formulei a hipótese de que os mortos ali enterrados teriam fugido na pequena astronave em busca de terras de paz e abundância; com eles terão levado as duas crianças. Tombaram ali, sabe-se lá ao fim de quanto tempo, naquela ilha perdida no oceano cósmico. Formidável solidão absoluta e sem esperança!
 A menos que as coisas não tivessem sucedido dessa maneira. A menos que eles não soubessem que outros, ou outro, os houvessem conduzido para ali. Mas quem, e com que plano?
Não nos atrevemos tampouco a propor ao casal que partisse connosco. Era inútil. Via-se distintamente que viviam felizes, contentes com a sua sorte (mais ainda agora que o seu mundo se alargara depois da nossa exploração), que outros considerariam um terrível castigo. A mulher encontrava-se grávida. Uma Humanidade em embrião.

Meditei na imagem de Beatriz rodeada de filhos. Nem me atrevi a transmitir-lha. Sei, vejo perfeitamente que ela deseja a maternidade, mas duvido que a queira comigo. Os genes de um buscam os melhores genes num outro? Que mistério a atracção! Nem a atracção entre os grandes corpos celestes sei ainda explicar, quanto mais aquela que nos impele a mim e à Beatriz. A paixão diz-se “cega”, porque ignoramos o seu “porquê”, tão só.



 Beatriz

Este encontro serviu ao mesmo tempo para testar os meus sentimentos pela Beatriz. Na verdade vi-me acometido por uma profunda melancolia. Aquele planetazinho, feito génesis de ternura, onde um homem e uma mulher, parecidos em tudo, constróem humildemente um mundo, afigurava-se como um extraordinário laboratório para se testar ao vivo a contribuição que cabe ao corpo e aquela que cabe à sociedade. Para se avaliar o papel que o trabalho produtivo desempenha na evolução da vida e da consciência. É certo que foram educados pelos progenitores – e que bela educação para a sobrevivência e para o amor!- mas fora tão breve que de pouco lhes serviria, se a autoconsciência não se iluminasse pela moralidade. E que é essa luz senão a emergência dos valores sublimes que fazem de uma criatura uma humanidade em qualquer lugar que brote no infinito cósmico? Num astro granítico e feio topámos com uma criatura de um aspecto repelente – apoiava-se sobre uma haste carnuda e escamosa que lhe servia de perna, não possuía olhos nem orelhas, guiava-se por uns pêlos hirsutos que avaliavam perfeitamente todas as variações das ondas sonoras e térmicas – mas que não rastejava como os répteis, nem se alimentava como os quadrúpedes; procedeu primeiramente como qualquer animal: tentou fugir, tentou atacar, tentou fingir-se morto; mas quando o pacificámos e o conduzimos a visitar a Quimera, que dignidade no seu andar de clown, que curiosidade pueril pela panóplia de objectos que ignorava, que atenção prestada às nossas explicações fazendo vibrar entusiasticamente os seus pêlos repulsivos! Com que seriedade nos levou à presença da fêmea e dos seus filhotes! E que cuidado e que asseio apresentava a sua humilde toca! Ficariam eternamente prisioneiros daquele estado primitivo? Duvido.
Se a inteligência não fosse útil à sobrevivência, certamente que não existiria por toda a parte e em todos os seres vivos. Ela é a própria sobrevivência. É a própria matéria viva que resiste para se conservar. Mas os sentimentos constituem um resultado, e não um princípio. A consciência moral, essa sobretudo, é um lapso, um instante, tão fugaz e débil como um meteorito errante. Desfaz-se com um simples empurrão sobre o edifício de vidro que nos sustenta. Vem a propósito lembrar que uma das missões de que V. nos incumbiu foi tentar contactar com a civilização que transmitira um sinal de rádio à Terra. Um segredo bem guardado. Demorara a alcançar-nos cem anos-luz. Evidentemente que a nossa missão não era um contacto directo, isso estava fora de hipótese, mas apenas conseguirmos que, mais perto deles apesar de tudo, conseguíssemos receber uma nova emissão. Recebemo-la! E a mensagem era constituída por um triângulo equilátero contendo um círculo perfeito no seu interior! Jamais alcançaremos tal civilização, com certeza. Que significaria tal mensagem? O símbolo de uma estrela solar? Um olho? Um sinal de magia ou de ciência? Pois viemos a encontrar o mesmo símbolo naquele minúsculo astro, e em outros pontos da viagem! Viessem de onde viessem, os seus autores andaram, ou andam, errando pelo espaço durante talvez milhares de anos. Talvez não fossem mais que uma guarda avançada, intrépidos colonizadores oriundos de uma civilização incomensuravelmente longínqua. Passo a passo, estarão, provavelmente, a aproximar-se da Terra.
Foi à Beatriz que confiei estes pensamentos. Era visível que ficara extremamente perturbada com este encontro, mais do que com qualquer outro. Dir-se-ia que ficara fascinada por aqueles seres e por aquele formidável mistério. A mim, a existência de uma civilização colonizadora, não me espanta por aí além. Afinal, entre tantos milhões de galáxias, civilizações havê-las-á mais avançadas que a nossa.
O afecto carinhoso que ligava o casal de irmãos, naquele espaço e naquela atmosfera tão cheia de serenidade, de coisas miúdas e simples de um quotidiano sensato, trouxe-me um doce contentamento. Mas, simultaneamente, talvez sensibilizado pela fisionomia triste de Beatriz, fui invadido por uma saudade indefinível e misteriosa. Saudade da Terra, sem dúvida, mas de uma Terra idealizada. Se acaso eram recordações, não as guardava de momento algum já vivido. Nostalgia antes. Pelo que nunca tive, ou nunca durou. Pela paz impossível de um casal de amantes unidos para sempre pela solidão partilhada que nos defende do medo que temos uns pelos outros.
Por isso, olhei longamente a Beatriz. Comovi-me com o seu olhar sonhador. Nada lhe perguntei, porque ela desataria a chorar com toda a certeza. Ela sabe chorar, eu não. Tudo que ela imagina para si mesma e não tem, está estampado naquela fisionomia de menina que foi obrigada a crescer depressa dentro de uma nave sideral. Ao seu lado ainda estou longe de ser um velho, mas a velhice já se anuncia precocemente nos meus traços secos e duros; nela, somente o olhar denuncia a corajosa resignação. Olho-a e penso agora, não  naquilo em que somos grandes, mas naquilo em que somos tão frágeis e tão pequenos. Fora desleal com ela várias vezes, eu sei. Certamente que ela pôde experimentar aventuras com outros homens. Na realidade é ela que se afasta, de vez em quando, para se sentir liberta e “disponível”, como o declarou enfaticamente. A Beatriz é uma mulher singular (não sei porque entro nestes detalhes íntimos, talvez porque suspeito que não regressarei jamais, talvez pela confiança que nutro por si, meu comandante supremo): ao contrário da inverosimilhança dos filmes, a Beatriz é uma heroína que não é fisicamente bela de modo algum. Contudo, são muito suaves os seus traços, e como lhe ficam bem os pequenos óculos que usa! Eu vejo-a como encantadora, excepto quando ela rompe comigo, mas os outros reparam apenas nas suas imperfeições. Melhor dizendo, não reparam nela, pelo menos tanto quanto uma mulher apreciaria. Não é só o facto de não ser uma mulher bonita, mas também a secura que aparenta, a inibição nas relações. Isola-se quantas vezes e, quando sai, vem seca. Judite, uma amiga comum, julga entender o comportamento dela. São mecanismos de defesa, sobre os quais se acumula um grande ressentimento. Quem não se julga amado, não ama. Quem não é cortejada, não se sente bem consigo mesma e com os outros, será isto? Quanto espírito de sacrifício, no entanto, ela tem demonstrado, quanta disciplina! E porque razão a argúcia não lhe basta para superar-se, para gerir, digamos assim, as suas frustrações? Desacordos entre o corpo e a razão? E porque não haveria de ressentir-se quando me envolvo com outras personagens? Faço-o, porém, quando ela ciclicamente corta a relação, sempre com aquela oferta que me angustia :”Fiquemos amigos!”. Foge e recua, numa espécie de contradança. Que complicado que é o ser humano! Animal social, necessita da atenção dos outros como de oxigénio. Beatriz deseja gozar a sua juventude e, porém, deambula nas quatro paredes do posto de comando. Transfigura-se apenas quando vamos ao encontro de um novo planeta. Que idade terá quando regressarmos? Estar de bem consigo mesmo, será esta a definição de felicidade? E no amor, nessa atracção tão difícil de resumir, não ocupará o amor-próprio o lugar maior?
Quando me sinto dolorosamente só, tão perto dos outros, procuro pensar que os demais também se sentem assim. No espaço-tempo sideral que percorremos quase à velocidade da luz, sem que não avancemos mais que um centímetro, um instante, na infinidade, o microcosmos da Beatriz isola-se, fecha-se numa concha. Paradoxalmente quanto menor é a atenção que recebe do exterior, mais o casulo se recolhe sobre si mesmo. Talvez eu seja, no fim de contas, a causa principal. Na verdade, comando uma nave soberba e uma equipa de indivíduos superlativamente aptos e arrojados, enfrento mistérios e assombros, apesar disso não sei ler no coração de Beatriz! Nem ela mesma.
Talvez ela, no fundo, não deseje e não precise de nada disto que estamos vivendo. Talvez ambicione somente um papel discreto na simplicidade dos dias, ao mesmo tempo que ergue o seu ninho e educa uma troupe de filhos. Talvez a mediocridade conduza à felicidade possível.

( Eu também. – Comento para mim mesmo – Eu também cumpro e obedeço...Como odeio, como desprezo os meus distintos colegas do Directório! Como gostaria que fossem todos pró inferno, com s suas maquinações diabólicas, com a sua cupidez!)







Sexta viagem - O planeta dos gigantes

  Depois destes acontecimentos viajámos quase um ano inteiro na mais escura e abissal das regiões do espaço. E são tantas! Tão imensos esses territórios de quase nada! Um ano fechado no interior da nave, esforçando-nos por um pouco mais que sobreviver. Defendíamos com o sono, natural e induzido. É indiscritível o peso dos dias e das horas. Alguns de nós lemos tudo que há para ler, vemos todos os filmes, estudamos e voltamos a estudar todos os tratados de ciência. Redijo um diário que sobrará para quando eu desaparecer. As crianças nascidas neste cativeiro vão crescendo, despreocupadamente, como se o mundo fosse apenas esta bala a cortar o corpo negro do universo.
  Por fim, deparámos com uma massa desmedida. Conforme nos acercávamos, fomos observando com os telescópios a superfície. Vimos numerosas torres que calculámos serem de gigantescas proporções, separadas umas das outras e dispersas por uma única planície de vasta extensão. Vimos de longe e do alto mastodônticas figuras, com braços e pernas, algumas das quais locomoviam-se e cada passo que davam não percorriam menos do que quinhentos metros pelo menos. Confesso que nos assustámos. Transmitimos sinais de rádio mas não recebemos resposta. O céu estava limpo, detectaram-nos por fim, pois que os que andavam pararam olhando para cima. Pousámos a uma distância calculada para que não nos atingissem facilmente. Conservámo-nos dentro da Quimera, onde nos sentíamos mais seguros, por todas as razões, incluindo o tamanho dela que equivale, como sabeis, a um prédio de cinco andares em altura e a um transatlântico de 1oo mil toneladas. Daí fomos estudando o porte e o comportamento dos gigantes. Nenhum sinal de agressividade, ou receio, à vista. Vieram, pelo contrário, ao nosso encontro com uma evidente atitude de espanto e de curiosidade. Mediam em altura qualquer um deles aí uns trinta metros. Não vislumbramos nenhuma criança entre eles. Quando falavam a voz ribombava como um trovão. Possuíam somente um olho colocado bem no meio da testa, de um lilás surpreendente: visto de baixo para cima, parecia uma magnífica lanterna chinesa pendurada no céu. A expressão que emanavam era de afabilidade, além da curiosidade compreensível. Quando abri a escotilha e me arrisquei ao contacto visual, o mais próximo recuou estupefacto, quebrando na precipitação um arbusto que equivalia a um dos nossos avantajados castanheiros. Puseram-se a falar entre si, o que me obrigou a baixar o volume dos auscultadores. Habituado a situações extremas como esta conservei o sangue frio e pude aperceber-me que nenhum deles era mais respeitado do que os outros e levaram um ror de tempo para decidirem quem me pegaria com a manápula. Não lhes permiti uma conclusão. Fechei a escotilha, não sem que, antes, tivesse abandonado no exterior vários presentes que eles recolheram imediatamente. O gigante cheirou a carne que lhe oferecemos com um nariz que parecia uma tromba elefantina, deu-lhe uma dentada e logo a cuspiu. Como soubemos mais tarde, não fora pelo facto de não estar cozinhada, mas pelo odor que lhes era particularmente desagradável.
Cada dia era ali longuíssimo, as noites outro tanto, por conseguinte o primeiro dia bastou para analisarmos a estrutura da linguagem deles. Possuíam um alfabeto de quarenta e três sinais sonoros, sem vogal alguma. A escrita era simplesmente ideográfica, algo assim a meio dos hieróglifos egípcios e da escrita chinesa. Deste modo, a expressão “amigo” correspondia à vocalização “Inch”, e ao sinal gráfico de uma mão aberta.
 Começamos, pois, logo que pudemos, a comunicar com os colossos, explicando quem éramos e ao que vínhamos. Ao fim de algum tempo, suficientemente tranquilizados e confiantes, organizei uma equipa de valentes e saímos para o exterior. Ocultando as armas e com a Quimera pronta para o pior, deixámos que os gigantes nos erguessem no ar, sobre a palma das mãos. Um deles, mais desajeitado, deixou cair um dos meus homens, não estivesse ele munido de um propulsor a jacto e ter-se-ia esmagado no solo. Éramos três: cada um de nós foi levado por um homem-montanha para a sua torre. Estas habitações assemelhavam-se umas às outras, com uma altura de cinquenta metros e muito estreitas. Era impossível que um só se pudesse estender ao comprido. Na realidade a explicação era simples mas inesperada: dormiam em pé e muito pouco, como sucede com os nossos elefantes e cavalos. As paredes, feitas de blocos de granito soldados com uma massa argilosa, eram seguras e ciclópicas. As torres eram despidas no interior, ostentavam, contudo, do lado de fora, exuberantes arestas, gárgulas, esculturas de barro cru e até trepadeiras que lembravam a célebre história infantil do menino e do feijão mágico ( Rick, o nosso cozinheiro, trepou por gosto por uma destas trepadeiras e encontrou lá no topo um ninho de cegonhas; disse ele que cada ovo devia pesar uns vinte quilos!). Cada titã, como se depreende, habitava uma torre, que ele próprio edificara e constantemente ornamentava. Era isto o único sinal de vaidade entre eles, mas apenas um dos sinais da sua elevada inteligência. Ligavam muito pouco uns aos outros, embora se cumprimentassem com polidez. Andando por aquela interminável planície, deparávamos com este ou com aquele, distantes entre si, ora meditando não sei em quê, ora pescando sobre arribas de uma altura arrepiante para nós, ora mergulhados até aos joelhos dentro de rios que equivaliam ao nosso Amazonas, donde saíam tranquilamente como nós saímos de um ribeiro. Um verdadeiro rio à medida deles percorria a planície longitudinalmente; navegámos nele mais tarde como quem navega no oceano Atlântico. Acharam muita graça ao feito, porque não utilizavam este meio de transporte. Como eram muito hábeis e criativos, logo se entretiveram a fabricar barcaças de todos os tipos, iguais em tudo àquelas que os nossos garotos tanto apreciam. Naturalmente que os seus brinquedos constituíram um maravilhoso divertimento: dávamo-nos ao luxo de escolher um veleiro de dez toneladas, na série dos muitos que os gigantes iam construindo. Comida não faltava: óptimos pêssegos de cinquenta quilos, cerejas que pareciam balões sumarentos, melancias tão grandes que podiam servir de habitação. De vez em quando deparava com um tripulante a dormir uma soneca à sombra de um pepino.
Os ciclopes debatiam-se porém com um grave problema: eram estéreis! Ignoravam a causa e a cura; pelas explicações deles, deduzimos que essa desgraça começara aí há uns quatrocentos anos atrás, visto que cada um podia viver até aos quinhentos anos ou mais. Calculavam perfeitamente o tempo que lhes restava até se extinguirem. Dei ordens aos nossos médicos para estudarem o fenómeno. Analisaram o sémen dos machos e concluíram que estava tudo normal. Ora, como não podiam utilizar os instrumentos de que se que servem para as nossas mulheres, introduziram-se eles próprios nas vulvas, à maneira dos espeleólogos, e estudaram in locu as trompas e os ovários, participando assim numa das mais impressionantes investigações científicas, segundo mo confessaram. Mas nada detectaram. Observaram os coitos, nada de invulgar, embora fossem praticados em pé e sem preliminares. Tornou-se para eles uma missão fascinante. Dedicaram-se com tanto afinco e saber, que acabaram por suspeitar que o mal talvez se encontrasse na alimentação, sólida ou liquida. Por exclusão de partes, analisaram as águas dos tais rios, que são para eles simples ribeiros. E foi aí mesmo que o “Eureka!” se verificou: continham uma alga, para eles invisível mas não para nós, que expelia um autêntico esterilizante. Explicamo-lhes o caso e imediatamente todos lançamos mão ao trabalho, nós fabricando um desinfectante e eles espalhando-o nas águas.
Ao fim de algum tempo os médicos puderam detectar embriões em crescimento no útero de muitas fêmeas. Subitamente tornaram-se alegres, esfuziantes, sociáveis uns com os outros, abraçando-se a toda a hora, dando eles afectuosas palmadas nos rabos delas que soavam como estampidos de canhões. Uma matrona brejeira colocou-me no colo e empurrou-me atrevidamente depois pelos peitos abaixo: sou obrigado a informar que foi um mamilo que me valeu, ao qual me segurei como um alpinista em apuros. Nunca vi outras criaturas que passassem tão depressa de uma solidão muda e resignada para uma explosão tão vibrante de felicidade! Lançaram-se em seguida ao trabalho de construção de torres mais amplas, mais confortáveis e mais vizinhas umas das outras. Ensinámo-lhes os planos de arranjo de berçários e jardins infantis. Imaginem berços do comprimento de um navio e baloiços da altura de uma catedral!
 Quiseram cobrir-nos de presentes, à nossa partida. Para além de tudo aquilo que sirva de objecto de estudo para a ciência, aceitámos apenas um mobiliário completo de madeira, que correspondia para os gigantes a um quarto de bonecas.
 Interroguei-me durante algum tempo sobre as vantagens e desvantagens que estabeleciam os horizontes de vida destes gigantes. Muito dificilmente poderão algum dia, das suas longas existências, navegar até outros astros, inclusivamente fruir do prazer de uma asa-delta; jamais terão porventura uma visão completa da sua planície extensíssima, nem da pequenez relativa dos seus confrades observados do alto. Não construirão altos e populosos prédios, gozando o alvoroço dos pátios comuns. Esforcei-me por conseguir que entendessem estas representações, os colossos encolheram os ombros e limitaram-se a sorrir. Interroguei-me sobre a mudança do seu comportamento, desde que descobriram de novo a procriação, desconhecendo completamente os trabalhos acrescidos, as responsabilidades, as dores físicas, as preocupações, que a acompanham inevitavelmente. Como se as espécies vivas, que se definem por essa replicação inclusa, fizessem disparar automatismos adequados para neutralizar esses inconvenientes, mesmo nos indivíduos mais conscientes. É a festa da vida. Para se reproduzir a natureza usa de estratagemas.
Neste mundo de colossos não topámos com nada que se assemelhasse às mensagens que temos vindo a encontrar. Excepto a estranha profusão do símbolo que representava uma mão aberta (o tal “Inch”), esculpido nas rochas e no tronco de enormes árvores...Ora, se os gigantes se comportavam com tanto individualismo, porque razão pareciam idolatrar a “mão aberta”?



 O planeta da fantasia

   No decorrer da travessia seguinte, que nos levou três meses e dois dias, sucederam-nos coisas extremamente infelizes. Em primeiro lugar chocámos contra um pedaço de gelo que, embora de pequenas dimensões, nos provocou uma fenda grave no casco. Em segundo lugar, faleceram dois dos nossos homens, que estiveram a trabalhar no arranjo exterior da nave. Atravessávamos o campo de gelo, tudo à nossa volta era uma espessa cortina de arestas e lâminas afiadas, e num estúpido acidente ambos os técnicos foram arrancados da superfície e estraçoados. Bob  Krick, o nosso estimado “pintor”, como o alcunhámos carinhosamente, e Andrei Vassilof, um engenheiro de gabarito que deixou três filhos na Terra. Recolhemos os seus restos e organizámos um funeral condigno. Foi então que a tristeza nos trouxe um sentimento generalizado de desalento. Na realidade não somos, de modo algum, heróis. Se acaso a nossa viagem vier a constituir-se como uma epopeia, tal dever-se-à exclusivamente aos polígrafos. De Ulisses temos apenas a errância, não o génio de quem o inventou.

 Deslocámo-nos a um par de planetas que orbitavam uma pequena estrela. Escolhemos um, à sorte, tão semelhantes nos pareceram ambos. A atmosfera  apresentava-se um pouco densa, rica de oxigénio. Sem os capacetes, o som das nossas vozes tornava-se estridente, talvez pela presença de hélio. Rimo-nos muito com isto. Estávamos cansados de tanto meditar, das recordações, e dos mortos. A verdade também cansa. Apetecia-nos a pura diversão. E comer e beber à grande. Foi o que fizemos naturalmente. O lugar apresentava-se rico de caça, de frutos e de água. Atacámos primeiramente um par de cabritos que assámos no espeto, a seguir um belo pescado com natas como só a Elizabete, a médica principal, sabe fazer, e bebemos de tudo que era bebível, dos mais variados sumos de frutos que colhemos.
Resolvemos em seguida explorar as redondezas. À nossa frente erguia-se uma muralha de vegetação. Incautos, sem antes avaliar a sua profundidade, demos uns passos em fila indiana. Quando escorreguei, todos foram atrás de mim, aos berros. Desabámos por ali abaixo, aos tombos, valeu-nos o solo ser lamacento. Encontrámo-nos  ao molhe, no fundo de uma ravina. Todos sujos, acabámos por rir como garotos. A Beatriz parecia um bolo de lama e eu comentei : “Estás mesmo apetecível!”. Olhámos em volta. Um vale, ou talvez uma várzea, muito agradável, oferecia-se em espectáculo. “Se existir água fresca, vamos tomar  uma banhoca!”, disse a Beatriz com voz estridente. Para nosso espanto alguma coisa nos respondeu. Olhámos para baixo e para cima e nada vimos. Excepto uma casal de papagaios. Mas esses pareciam alheados. Contudo, quando me dirigi para uma corrente de água, da qual já escutava o rumorejar, dei de caras com um enorme caracol. Media à vontade meio metro de altura. Espetava para mim os corninhos e movia os olhos com lentidão. Procurei passar de largo, para não incomodar sua excelência. Porém, pareceu-me vislumbrar nos olhitos uma expressão, um sinal de inteligência. Não querendo pensar mais no assunto, lancei-me às águas, onde todos os demais  chapinhavam e riam. De vez em quando disfarçava um olhar subreptício na direcção do caracol. Seria ele a espécie mais evoluída daquele astro?
A seguir, abandonámos os corpos àquela luz tépida, tendo alguns adormecido. Troquei impressões com a Beatriz sobre o estranho caracol, ao que ela me respondeu :” Aqui os caracóis devem ser papagaios, e os papagaios caracóis”. Não dissera coisa mais correcta. Tudo que nos sucedeu a seguir demonstrava este ponto de vista. E não eram somente as vozes, mas muitos outros comportamentos.
Um tripulante julgou que estava completamente embriagado, quando um esquilo lhe pediu um biscoito, apontando-lhe com um dedinho para o pacote. 
Por fim, ficámos todos convencidos que havíamos desembocado numa terra de fantasia, onde tudo parecia possível.
 Sobre o galho de uma árvore um gato fixava-nos com uns olhos verdes e cheios de manha que pareciam zombar da nossa ingenuidade.
Não sabíamos que dizer nem que fazer de surpresa em surpresa. Concluímos todos em uníssono que os sumos indígenas que bebêramos, deviam conter qualquer substância responsável por aquelas visões.
    Andando mais algum tempo, deparou-se-nos um concílio de escaravelhos. Eram grandes e ouviam-se nitidamente. A discussão parecia ser sobre o que haveriam de manjar. Não chegaram a nenhum consenso, porque se aperceberam que alguém estava em qualquer sítio a depositar aquilo que eles mais apreciam. E nós partimos adiante.
Perto da noite, quando a sede voltou a apertar, resolvemos beber unicamente da água dos nossos cantis, trazida da Quimera.
   Desembocámos numa pequena lagoa de água salgada. Foi então que, na margem, sobre uma praia de seixos, vimo-nos a todos nós! Eles olhavam para nós, vestiam-se da mesma maneira, sorriam do mesmo modo. Contudo, existia uma pequena diferença: eram mais velhos. Éramos mais velhos. O meu cabelo apresentava-se completamente grisalho e o meu sorriso era triste. Quanto iria sofrer para me tornar naquilo? Beatriz afastou-se a chorar. Contou-me, depois, que se vira a si mesma sentada à secretária de um escritório qualquer, com uma pilha de papeis à frente, alheada e triste, sonhando com um amor romântico. E, enquanto olhava o seu duplo, envelhecia rapidamente.

E de repente desfez-se o encanto. Descobrimos com surpresa que nos encontrávamos num descampado deserto, apenas aqui e acolá eriçado de plantas rasteiras e espinhosas. Por mais que caminhássemos, não encontrámos víveres alguns. Em nenhum lado era visível o lugar aprazível onde caçáramos e pescámos. Agora a própria certeza de que nos havíamos banqueteado, no princípio da manhã, tornara-se uma incógnita. Não haviam sido quaisquer frutos alienígenas que foram responsáveis por tais visões. Fora a própria atmosfera muito provavelmente. Surgiu-me um escaravelho debaixo dos pés, por pouco não o pisava, já não parecia de modo algum que falasse. Fazia rolar a sua bolinha de excremento. De resto, toda a paisagem tornou-se estranha. Não existiam cores, melhor dizendo existiam somente algumas, mas basto diferentes da nossa percepção habitual; distinguíamos o amarelo e o vermelho, por exemplo, mas excessivamente intensos e sem nuances. Uma experiência singular semelhante tivemo-la num outro corpo celeste; aí, eram os alienígenas, aqueles que possuíam linguagem articulada, que “viam” cores diferentes daquelas que nós percepcionávamos. Trata-se, como sabemos, de várias energias em diferentes partes do espectro electromagnético e de cérebros que processam diferentemente as estimulações.
 Regressámos, pois, à Quimera, com uma fome mais aterradora do que aquela com que arribáramos ali.





Sétima viagem - O planeta imóvel.

O nosso sustento tornava-se cada vez mais difícil. Sem os víveres que não havíamos conseguido trazer da última abordagem, a situação exigia medidas rápidas e eficazes. A disciplina deteriorava-se entre os membros da tripulação, já me eram remetidos constantemente protestos e reclamações. Por conseguinte, eu e a Beatriz elaborámos um plano de acordo com os dados fornecidos pelo Jacques. Nesse plano introduzíamos um austero racionamento, uma redução drástica da actividade dos tripulantes, e a “aterrissagem” no primeiro astro que apresentasse o mínimo de condições. O espaço longínquo parecia vazio. Hora após hora, dia após dia, fazíamos grandes esforços para não desesperar.
Por fim fomos alertados pela presença de dois focos de luz  no ecrã. O computador central considerou sem risco a aproximação suficiente para se extraírem informações. Tal como pensámos, os dois pontos luminosos eram duas estrelas de pequena dimensão. Não nos serviriam para nada, a menos que...foi então que verificámos a existência de um corpo maciço entre eles. Era um planeta, sem dúvida, mas não esférico, antes uma espécie de cone invertido, embora rugoso e rachado. Rapidamente os computadores explicaram o fenómeno: tratava-se de um corpo sem luz própria, “agarrado” por duas pequenas estrelas, que o “seguravam”, na medida em que ele se posicionava no ponto de equilíbrio de duas forças de atracção equivalentes. Abordámo-lo sem hesitação, informados de que a atmosfera era rala, mas não tóxica. Necessitávamos urgentemente de alimentos.
 No solo, uma multidão de criaturas curiosíssimas rodeou a nave. Eram de estatura meã, um pouco mais baixos do que nós, não possuíam braços mas, antes, um género de membrana larga ao redor dos pescoços, solta à maneira das capas dos pastores ou dos mexicanos, dotada de inúmeros pedúnculos, ou “dedos”, que se moviam constantemente. A “boca” situava-se no topo dos crânios. Possuíam uma “perna” apenas, finalizada por um “pé” com bem mais de meio metro de comprimento, em forma de pá. Com esse instrumento trabalhavam o solo argiloso até atingirem uma camada rica de nutrientes. Rasgavam sulcos, escavavam. E dormiam sobre o pé. Não conheciam a noite, visto que o planeta estava imóvel e permanentemente iluminado. Trabalhavam constantemente, porém não se podia aplicar com eles o dito “trabalham de sol a sol”.
O planeta não dispõe de oceanos; somente inúmeras lagoas que eles construíram, aproveitando os lençóis de águas subterrâneas; os poços eram incontáveis, muitos deles profundas rachas naturais na superfície. Nunca vimos gente a trabalhar tanto. Conhecemos mundos onde apenas se trabalhava tanto quanto apetecia; aqui, parece que eram movidos pela pulsão do trabalho, sem pararem nunca. O que nos afigurava ainda mais admirável, é que produziam, produziam, e acumulavam os excedentes em enormes reservatórios, caves fundas que conservavam uma temperatura adequada. Quando conseguimos entender alguma coisa do que diziam (falavam por sopros contínuos como quem sopra numa flauta), demos conta de que eles procediam assim porque acalentavam a crença, ou uma lenda, segundo a qual estavam obrigados a armazenar reservas, pois o “deus” deles haveria de castigá-los enviando uma terrífica praga de “gafanhotos” ( não diziam tal palavra, evidentemente, mas três sopros breves); realmente encontrámos uns enormes animais pouco semelhantes a gafanhotos, que devoravam tudo que podiam, mas eram escassos e reproduziam-se com dificuldade. Descontada a lenda, supusemos que fora inventada uma artimanha pelos seus antepassados, com o fito de os obrigar a trabalhar (aquela luz temperada e perpétua, de facto só convidava à sesta). Nós é que estávamos a salvo, finalmente, com tantas provisões.
Movidos pela curiosidade, ou por qualquer intuição, eu e uma equipa, decidimos explorar um dos poços, ou melhor, uma das rachas que fragmentavam a superfície. Equipámo-nos como espeleólogos e lançámo-nos à aventura. A fenda terminou ao fim de uns dez metros de profundidade, aproximadamente. Era muito estreita, como todas as outras que vimos, um “palmípede” não conseguiria caber ali com o seu pé descomunal. Deixámo-nos cair sobre um chão duro e escorregadio, que se prolongava num túnel para a frente e para trás. Quase tudo ali era argila, nuns casos muito endurecida; a humidade ressumava debaixo dos pés, provavelmente oriunda do lençol subterrâneo. Pareceu-nos escutar uns ruídos agudos, semelhantes a guinchos. Empunhámos as armas e acendemos os poderosos holofotes. Caminhámos cerca de cem metros, escorregando aqui e acolá. Os guinchos pareciam aproximar-se. Subitamente, demos de caras com uma caverna relativamente ampla; sob a luz dos holofotes distinguimos, abismados, dezenas e dezenas de ratos! O que estava ali à nossa frente era um autêntico berçário de roedores. Não exactamente como os nossos ratos do campo, porque não exibiam orelhas nem caudas; em tudo o mais eram idênticos. Não os eliminámos, visto que não sabíamos a função de equilíbrio que eles desempenhavam no sistema ecológico. Retirámo-nos, as mulheres com alguma pressa.
Mais tarde, à volta de uma fogueira, na companhia dos nossos hóspedes palmípedes, considerámos que a explicação mais convincente do modo de produção daquela gente, tinha seguramente a ver com os ratos; ou seja, trabalhavam para estes! Quer porque os seus antepassados acharam nisso a melhor maneira de conviverem com roedores, que poderiam tornar-se ferozes se tivessem fome, quer porque desconhecessem completamente a existência destes animais oportunistas. Julgando poupar e armazenar para um futuro apocalíptico, estavam, na realidade, a sustentar os espertalhões. Pelo nosso lado, empaturrámo-nos de boa comida, tanto cozinhada por nós, como pelos indígenas. A mãe-natureza é muito esperta: como não possuíam membros anteriores, serviam-se dos pedúnculos e do pé. De algum modo faziam quase tudo com a pá natural. Com ela juntaram a lenha e alimentaram o fogo. Produzem o fogo através de uma engrenagem movida pela água que faziam subir para um depósito: duas rodas de argila empedernida, roçando uma na outra, emitiam uma fonte de combustão. Com barro mole fabricavam os mais admiráveis utensílios e objectos decorativos. A cidade, que ficava na base do cone invertido, era um vasto casario de barro, algumas habitações chegavam a ter dez andares ou mesmo mais; subiam para as suas casas por meio de elevadores (de barro) movidos pela força da água; não conheciam o uso dos metais, os quais, realmente, eram muito escassos; os filhotes divertiam-se à brava deixando-se escorregar por rampas de argila molhada; quando algum se encolerizava, os seus pedúnculos agitavam-se freneticamente e a “boca” soprava como uma chaminé, ou uma orquestra de pífaros. Os machos dominavam claramente, visto que as fêmeas eram muito mais pequenas, com mais jeito para a olaria do que para os trabalhos duros do campo. Devemos a elas uma das melhores iguarias que jamais provámos na nossa peregrinações: um enorme “gafanhoto” grelhado.
  Transportámos o máximo de víveres, despedimo-nos e partimos com algum agrado daquele planeta onde jamais o sol se punha. Nada fizemos contra as ratazanas.
  A caminho do ignoto, ocupámo-nos a debater o tema aliciante de quantas e quais formas de agir e pensar havíamos encontrado e aquelas que provavelmente encontraríamos ainda. Diversas e espantosas, no entanto possuíam uma denominador comum : a aptidão para sobreviverem, isto é, a adaptação. Esta tese banal foi contestada por um pequeno grupo: a socióloga, um dos antropólogos, um filósofo e a Beatriz. Este grupo contrapunha que não parecia ser o caso em relação ao planeta dos jericos, e não fora seguramente o caso do asteróide morto pela poluição ; bastavam estas excepções para fazer desmoronar a tese geral, afirmavam. Reconheci-lhes alguma razão, que o meu ponto de vista estava ainda impregnado de teorias que trouxera da escola terrestre. Esquecera a lição de Aldhor : não basta ser dotado de inteligência, o que importa é o uso que desta fazemos; a estupidez pode ser proporcional ao grau de inteligência – quanto mais inteligentes, mais perigosamente imbecis. Seres humildes, pelo contrário, desprovidos de cultura científica, apresentavam-se extraordinariamente bem adaptados. Argumentei, porém, que estes seres vivos desapareceriam num instante se as condições do meio natural se alterassem. Mas isto já era outra questão. O que debatíamos era a diversidade imponderável do pensamento. Num planeta regiam-se pelo cálculo mais analítico que é possível imaginar-se, noutro governavam-se pela puro sentimento, em função de simpatias e antipatias, noutro eram hábeis na telepatia, como se ondas de energia penetrassem no cérebro alheio ( confirmando, de algum modo, o dito do filósofo Epicuro de que o pensamento é constituído por “átomos”). Os palmípedes de um só pé, cumpriam estritamente as suas tradições, sem mudanças qualitativas substanciais, que eles próprios, aliás, haviam fabricado e sedimentado durante milénios e milénios.
 Só aprendemos quando nos encontramos com a corda na garganta. Basta-nos um único homem aproximadamente bom, para logo construirmos uma religião e uma ética. Com papas e bolos se enganam os tolos.



 A bela crisálida

  Retomando a viagem, no termo de dois meses, faleceram mais dois companheiros, de doença implacável, para a qual não encontrámos antídoto algum. Elizabete, a médica, Joan, a bióloga, não descobriram a solução, e mantêm-se convencidas de que tal horrorosa enfermidade maligna fora contraída no planetas dos ratos. Lançámos os seus cadáveres para o espaço, no meio de muita tristeza.
Certo dia um pequeno ponto obscuro cresceu à nossa frente  e permitiu concluir-se que não era mais do que, aparentemente, um enorme calhau vogando no espaço. Desolados, tememos pela nossa sobrevivência, pois, como não o detectáramos a tempo, estávamos em risco de colisão. Contudo, após um exame mais aturado, os dados apontavam para a probabilidade de existência de vida orgânica. Qual, não sabíamos. Mas era de tentar a abordagem, se a força de gravidade fosse insuficiente para nos “chupar” sem hipótese.
Travámos ao máximo e orbitámos, por fim, o rochedo as vezes necessárias para assegurarmo-nos de que continha alguma vegetação e, portanto, água. Onde isto existe, alguma forma de vida há-de subsistir. Comestível, o que quer que fosse.
Descemos então sobre um manto de musgos, de onde se erguiam muito espaçadamente uns cactos robusto. Imediatamente procurámos extrair do solo o máximo de quantidade de líquens, fungos, um género de cogumelos e água. Andámos nisto um bom par de horas. A atmosfera era rala e as nossas energias eram menos que poucas.
A dada altura fomos informados, com alguma emoção, pelos camaradas que se mantinham na Quimera, de que haviam recebido sinais indiscutíveis de que algo se movia debaixo do solo. Decidimos primeiramente regressar à nave e cozinharmos os alimentos recolhidos. Após um razoável repasto, procurámos calcular o que esse algo pudesse ser. Escutávamos nitidamente ruídos que indicavam algum movimento e agitação. Constituímos uma equipa, bem armada, chefiada por mim, e lançámo-nos à aventura. A atmosfera era fresca, quase fria, a matéria vegetal denotava um solo pobre de ingredientes. Sem dúvida que aquele rochedo volante recebera em qualquer altura da sua viagem errante filamentos de DNA que andam soltos pelo espaço. Sondámos o subsolo. Os dados indicavam qualquer coisa de absurdo: que tudo aquilo era oco! Algo assim como uma cápsula que continha não sabíamos o quê. O mais insólito, porém, é que vários indicadores garantiam que a cápsula estava viva, ou seja, que se aparentava com um corpo (casulo?)! Todavia, por muito que a calcorreássemos, que lhe esburacássemos a superfície, em ponto algum se moveu ou deu de si. Andámos quilómetros, tudo em toda a parte se parecia, musgos, cactos, cogumelos. Remexendo-se neste manto apenas miríades de minúsculos insectos, moscas e formigas. Estas, por exemplo, não eram da variedade de construírem casamatas exteriores, mas, antes, daquelas que habitam e cavam no subsolo. Carne comestível não existia, portanto. A certa altura alguém vislumbrou, com os binóculos, uma larga massa orgânica achatada, um cacto provavelmente, apresentando uma larga abertura num dos lados. Quando nos aproximámos o bastante, assim era de facto. A abertura parecia natural, mas as sondas indicavam uma cavidade longa, talvez um túnel, a partir da entrada. Munimo-nos de iluminação e iniciámos a descida. Realmente era um túnel. Por vezes tão delgado que mal cabíamos. Enviámos um detector automático, do tamanho de um punho, movimentando-se sobre lagartas. Seguimo-lo, avaliando, deste modo de antemão, as dimensões do buraco. Subitamente o aparelho emitiu um sinal contínuo, como se caísse em queda livre e depois calou-se. Progredimos cuidadosamente até ao ponto da presumível queda. Sob a luz dos nossos holofotes ofereceu-se-nos um espectáculo aterrador: uma imensa caverna, sem parecer ter fim, enxameada de moscas!
Não nos pareceu viável usarmos cordas; utilizámos antes os propulsores a jacto individuais. Os fatos herméticos e as viseiras defendiam-nos das ferroadas do mosquedo. Dei ordens aos camaradas da Quimera para enviarem um dos nossos veículos todo-o-terreno, equipado de cabos, para o caso de ser necessário puxar para fora algum de nós. Não via necessidade, por enquanto, de utilização de grossa artilharia. As nossas armas pessoais bastariam, supunha. Os holofotes iam cobrindo vastas porções da caverna. Quando tentámos pousar, logo desistimos: um tapete compacto de baratas constituía o solo! Um grande nojo invadiu-nos; a Beatriz esforçava-se por não vomitar.
Entretanto, eu ia dando voltas à cabeça: se aquele rochedo mais parecia um casulo, que espécie de bicho habitaria o seu interior?
Não foi preciso muito para todo o horror se revelar. Ocupando metade do habitáculo remexia-se um corpo gigantesco, semi peludo, enrugado, mole e viscoso. Uma lagarta!
Possuía um par de olhos horrorosos, sem brilho, que procuravam seguir as luzes dos nossos holofotes. Estava deitada de barriga para cima, se é que me posso exprimir assim. As duas antenas que lhe saíam da cabeça verde, eram a única coisa que nela se agitava freneticamente. A bocarra era uma grotesca fenda que sorvia sem parar bolas de musgo, ou algo parecido, que as baratas transportavam. Estava ali montada uma autêntica cadeia alimentar: as baratas trabalhavam para a lagarta e, esta, fornecia-lhes a massa imunda que defecava.
Retirámo-nos para o exterior, quase precipitadamente. Beatriz vomitou. Um outro companheiro precisou de um sedativo, tanto ele tremia. Refugiados novamente na Quimera, discutimos o fenómeno e o que devíamos fazer. Submetidos todos os dados ao computador central, concluía-se que, muito presumivelmente, aquele monumental casulo ter-se-ia soltado por qualquer razão do planeta onde tais larvas habitavam; que, sendo um casulo, a larva haveria de metamorfosear-se necessariamente num insecto, alado ou não; que tal, ou tais, insectos, haveriam de ser de um tamanho descomunal. Analisámos várias hipóteses: 1) a larva, naquelas condições, jamais se tornaria “borboleta”, acabando por morrer, visto que não sobreviveria no exterior do casulo desmembrado; 2) podendo acontecer, contudo, que arribasse a algum planeta, onde, se chegasse viva, poderia provocar incalculáveis estragos; 3) o astro donde era oriunda deveria ser de grandes dimensões, verdadeiramente infernal, povoado por casulos e por insectos medonhamente vorazes. Provavelmente seriam dotados de alguma forma de consciência, e, então, governariam o planeta como seu império. Não permitiriam a concorrência fosse do que fosse. Todavia, dei comigo a imaginar um mundo sobrevoado constantemente por borboletas, enormes, colossais, de cores garridas, sobre campos de papoilas monumentais. Tremendos azuis, espantosos amarelos. E eu e tu, Beatriz, correríamos de mãos dadas, frágeis e ladinos como coelhos, sobre uma manta infinita de papoilas!
Decidimos nada fazer, e abandonar o bicho à sua voracidade, bem entrincheirado naquela cooperação vital com baratas, moscas e musgos, fenómeno que confirmava as nossas observações anteriores de que de muitas totalidades se faz o Todo.


Este mundo é uma fábula

A seguir a esta experiência chocante, desembarcámos num planeta com dimensões próximas das da Terra. Possuía uma excelente atmosfera. Os pólos estavam gelados, mas em tudo o mais presidiam dois tipos de clima: temperado e equatorial. A água era muito abundante, com apenas um continente e um único oceano, que ligava as suas águas ao sul –demos a essa ponta o nome de Cabo da Boa Esperança. Mares interiores, lagoas, pântanos, e chuvas regulares tanto nas zonas temperadas como nas outras. Nestas verificavam-se monções e terríveis ciclones. Numerosas montanhas cuspiam lava e confirmámos a existência de forte actividade tectónica. Na medida em que todas estas observações haviam sido executadas enquanto sobrevoávamos o planeta, escolhemos a região mais propícia para desembarcarmos. Já havíamos verificado que a vida pululava. A latitude que seleccionámos correspondia a um clima óptimo; instalámos o acampamento numa pequena planície defronte do mar, revestida de vegetação rasteira, apenas cortada aqui e acolá por algo que chamaríamos de cedros. Muito perto da costa perfilava-se um cordão de ilhéus. Vimos desde logo grandes mamíferos pastando pacificamente: semelhantes aos nossos mamutes extintos, apresentavam presas colossais. Asser, o engenheiro-chefe, sugeriu entusiasmado que carregássemos connosco pelo menos uma daquelas belas presas de marfim. Quando, mais tarde, visitámos a praia, ansiosos por tomar um banho, demos de caras com animais anfíbios, robustos e ariscos, muito hábeis a caçar tanto na água como em terra; no estreito, entre as ilhotas e a costa arenosa, desfilavam cortejos ruidosos de baleias, umas enormes criaturas muito espertas e sociáveis, assim como outros cetáceos idênticos aos nossos golfinhos. Os nossos conhecimentos sobre estes seres vivos que pareciam comportar-se como os nossos, permitiram-nos domesticar facilmente um par de golfinhos irrequietos e confiantes.
Instalámo-nos o melhor que pudemos no nosso acampamento. Tínhamos resolvido demorarmo-nos por aquelas bandas. Estávamos exaustos de viagens, a tensão havia alcançado níveis perigosos para o equilíbrio da equipagem. A morte de dois de nós, dera-nos cabo dos nervos e da alegria. “Vamos tirar um período de férias!”, dissera eu ao pessoal.  Havia peixe, carne, frutos, com fartura. A caça e a pesca converteram-se nos nossos passatempos preferidos, excepto para alguns tripulantes do sexo feminino que preferiam cozinhar. As tendas de campismo ficavam ao redor da nave, de modo que nos servíamos das instalações desta para o que necessitássemos. Hans, o director dos sistemas de áudio e vídeo, andava felicíssimo, filmando com arroubos de artista. À noite exibia-nos imagens que captara com mestria: um bando de leões soberbos matando um mamute; uma matilha de cães perseguindo um filhote de mamute até o estrangularem; um ave gigantesca, munida de dentes, erguendo nos ares um género de vitelo. A comida que melhor me sabia vinha de javalis que chafurdavam numa bouça ali perto.
Beatriz descontraíra-se e passava a maior parte do tempo na praia; quase nada comunicava comigo; cheio de ciúme, constatei que ela se fazia acompanhar, ou acompanhava, o castelhano Joaquím Figuera. Talvez por causa disso, a certa altura resolvi propor a um pequeno grupo uma exploração detalhada às zonas equatoriais. Comigo foi a médica sul-africana, Elizabete Mucava, o major Azim e o sargento português Adriano. Apetrechámo-nos com câmaras de filmar e tudo o mais que pudesse vir a ser necessário. Num belo dia rumámos em direcção aos trópicos. Naturalmente que o comportamento da Beatriz provocava-me profunda tristeza que, porém, ocultava dos meus camaradas.
Fizemos descer o veículo no sopé de uma elevada montanha, cujo cume coberto de neve se eriçava sobre uma compacta camada de nuvens. Nas faldas, perto da base, uma impenetrável floresta húmida apresentava-se como um desafio. Foi precisamente por aí que nos aventurámos. Montámos o acampamento numa clareira. Ali se escoaram os dois primeiros dias, que seriam magníficos se não andasse deprimido. Fiz por esquecer, procurando distrair-me com o espectáculo esplendoroso da selva. Os perigos eram muitos, porém, e só isso já chegava para nos ocupar. Tribos de macacos emboscavam-nos a cada passo, arremessavam sobre nós frutos que se esborrachavam como gelatina, nozes que pareciam balas ricocheteando nos nossos fatos protectores. O azar deles é que eram caçados de quando em vez, não por nós, mas por uns enormes felinos, género leopardo, que os emboscavam sobre os galhos das árvores. Tememos mais estes do que os macacos, embora os felinos se mostrassem mais cautelosos, perseguindo-nos na sombra e no silêncio, para nos estudarem. Outro perigo era constituído pelas cobras, de infindáveis formas e manhas.
Numa noite, à volta da fogueira, conversámos largamente sobre as condutas dos animais que já víramos. “Sem dó nem piedade” seria um bom título para essas histórias de morte e de sobrevivência. Dentes aguçados para rasgar as carnes, garras pontiagudas para estrincar as couraças, venenos imediatamente mortíferos ou paralizantes, chifres duplos ou unicórnios que serviam as mais das vezes para esventrar machos concorrentes, descargas potentes de energia que abatiam o mais forte. Por todo o lado carcaças ensanguentadas, vísceras escorrendo, ossos limpos e sem tutano, filhotes esperneando na bocarra de um predador. Parecia que o universo, que já víramos, exibia um terrífico espectáculo de violência e de sangue. No entanto, nenhuma culpa se poderia inculcar, nenhuma responsabilidade se poderia atribuir. Matar para não morrer. Encadeamentos de seres orgânicos que, subitamente, se rompiam para dar lugar a extinções em massa: um vulcão que desperta, uma seca que avança inexorável, um meteoro que cai.
Entretanto, nesta região, não deparámos com a presença daquilo que denominamos criaturas inteligentes; contudo, quanta inteligência não reinava por ali! Astuta, matreira, calculista, eficaz. Répteis que se confundiam com os galhos das árvores, ou com as folhas que juncavam o solo, todos dotados de um mimetismo espantoso. Em cada centímetro de terra, algo espreita e aguarda que o alimento lhe passe ao alcance.
Certa ocasião, ao terceiro dia, fui com a Elizabete procurar água potável. No caminho, e enquanto a luz não se esvaía, aproveitámos para filmar. Era tudo tão verde, a luz reverberava tão diáfana nas folhas alagadas, que segurámos a mão um do outro, numa carícia que se prolongou na margem pardacenta de um ribeiro. Num ápice, com um atrevimento perigoso, despimos a farda e entrámos na água fresca, salpicando-nos mutuamente como petizes. Quem me visse, julgaria que eu estava feliz e contente. Mas não estava. Era o meu instinto que se rebelava contra a agonia do ciúme e da perda. O corpo semi-nu de Elizabete revelava-se mais perfeito do que o de Beatriz, e mais maduro (levava dez anos sobre a Beatriz), mas o outro não me saía da cabeça. Fiz amor com ela imaginando que estava a fazer amor com Beatriz. O veneno do ciúme queria obrigar-me a escutar os gemidos de prazer dela sob o corpo de Joaquim. Elizabete adivinhou perfeitamente, mas evitou o assunto. “Partimos?”, sugeriu, enquanto cobria com pudor os seios com as duas mãos. Tem os olhos da cor da avelã, rasgados como uma deusa hindu, tem quase tudo desta, menos os quatro braços de Xiva; na verdade não me aterroriza, sendo como é a imagem viva da criação e da morte. Possui a arte de dissecar com o bisturi os chamados “bons sentimentos”, e esmigalhá-los em pó. Pó das estrelas. É uma mulher supinamente inteligente.
A noite já avançava. Regressámos pelo caminho que ajudáramos a abrir e que havíamos assinalado. Faltava pouco mais de cem metros para desembocarmos no acampamento, quando deparámos com a tragédia. Quase que bati com a cabeça no cadáver semi despedaçado. O sargento Adriano, ou o que dele restava, pendulava no ramo de uma árvore! Os macacos debandaram à nossa aproximação. Elizabete cobriu o rosto com o horror. Venci a emoção e com um esforço que sobrepus ao vómito, fiz tombar o despojo ensanguentado. Um profundo ferimento rasgava-o da cabeça ao tórax. Abandonei a ideia, que tivera de imediato, de que fora obra dos macacos. Qualquer coisa singular emboscara o infeliz, qualquer coisa que rondava por perto. Comuniquei com o major, que logo chegou, com o semblante carregado e as armas aperradas. Trocámos impressões. Concluímos que o predador só podia ser um felino possante, leopardo ou tigre. Contudo, não encontrámos, sob a luz das lanternas, vestígios do animal. Devia encontrar-se oculto na ramaria espessa; fora daí que atacara, e ainda aí estaria. Introduzimos no computador portátil os diversos elementos disponíveis: a imagem do ferimento, os odores corporais e ainda provavelmente remanescentes na atmosfera. Em menos de um minuto a máquina admitiu como provável a hipótese de predador aparentado com o leopardo, mas mais provável ainda a hipótese de um animal bípede, dotado de poderosas garras, realizando o ataque, não por meio de um salto sobre a vítima, mas no solo! Ficámos siderados. Então havia sido um macaco, um gorila!, pensámos.
Mal dormi toda a noite. Havíamos mantido uma fogueira acesa e instalado em todo o perímetro um círculo de sensores. Alternámos em três turnos a vigilância. Mal os primeiros raios de luz despontaram, sacudi o sono que nesta altura me atacava impiedosamente, e ergui-me. Elizabete dormia ao meu lado, na tenda hermética. Dei logo conta da ausência do major. Antes de nos deitarmos, havíamos conversado longamente sobre a ameaça que pesava sobre nós, a sua coragem habituada aos perigos dera-me alguma tranquilidade. E possuíamos armas poderosas. Os sensores indicavam que o major atravessara o perímetro. Foi atrevimento dele ir verter águas para fora das defesas, pensei, esboçando um leve sorriso. O detector de presença, que todos usávamos, assinalava-o algures, mas sem revelar movimento. Aguardei uns minutos. Depois concluí que mais alguma desgraça acontecera. Foi então que vi a coisa, no instante em que a luz do dia caiu em cheio: um monstro, um macaco gigantesco, a fronte baixa e avançada, uns sobrolhos peludos e ameaçadores, a bocarra soprando forte e expelindo uma massa de vapor, a pelagem espessa e ruiva. Eu segurei-me ao chão. Tinha a certeza de que o feixe de laser que interligava os sensores ao redor do acampamento bastava para o derrubar. O monstro pareceu firmar-se nas patas e subitamente deu um salto para a frente, as garras medonhas bem à vista. O laser atravessou-o literalmente. Um urro pavoroso, um crepitar de carnes, um odor a matéria queimada. Estrebuchou no solo, tentando agarrar-me. Morreu a dois centímetros das minhas botas. Elizabete espreitava do interior da tenda, com os olhos esbugalhados e uma arma na mão. Logo que me refiz, fui à procura do major. Encontrei-o logo adiante. Azim sucumbira numa poça de sangue. A sua autoconfiança custara-lhe a vida.
Chamei em nosso socorro uma equipa que depressa chegou num dos vários pequenos veículos a jacto de que dispomos, os salva-vidas da Quimera. Prospectaram toda a região, analisaram todo o habitat do monstro e em seguida transportaram este para a nave-mãe. Deste modo mostrá-lo-emos aí na Terra, se regressarmos. Concluídos os estudos, avançamos com a certeza de que estamos perante um exemplar de um austrolopitecus robustus, muitíssimo corpulento. Não encontrámos mais nenhum, mas estamos convencidos de que não era o único. Os companheiros partiram para o acampamento a norte; Elizabete e eu resolvemos abandonar a floresta em direcção à costa oriental.
A princípio julguei que o medo e o horror haviam debilitado a minha saúde, somados à depressão que trouxera. Comecei a sentir-me muito mal. Um acesso de febre tomara insidiosamente conta das já escassas forças anímicas que me sobravam. Decidimos, portanto, encaminharmo-nos para junto do mar. Sobrevoámos vastíssimas savanas, repletas de herbívoros quadrúpedes, vigiados por matilhas de hienas e bandos de leões. Escolhida a zona costeira, preparámo-nos para aterrissar. Foi então que os vimos: caminhavam sobre os pés, altaneiros, as frontes amplas e escorreitas, as mãos livres; habitavam em choças ao pé da praia; traziam tangas de pele; armavam-se de zagaias; fabricavam objectos de barro para uso doméstico; produziam o fogo batendo dois pedaços de sílex; organizavam-se em famílias; reinava sobre elas um chefe patriarcal.
 Foi relativamente fácil interpretarmos a linguagem deles: faziam uso de uma espécie de onomatopeias, imitando os sons da natureza, expressões vocais que significavam com perfeição as emoções. Tendo visto seres arborícolas, quase primatas, catarem-se e acariciarem-se mutuamente, não me surpreendeu que, entre estes, a carícia fosse um comportamento vulgar, tanto para acalmar o adversário, como para alegrar a progenitora das crias. Mas também vulgar era a cólera que, como palha ao sol, se incendiava facilmente. Elizabete teve de separar mais do que uma vez contendores em fúria. Tirando estes excessos, mostravam-se pacíficos, connosco sobretudo. Dedicavam-se principalmente à apanha de moluscos e sabiam agarrar um polvo com arte utilizando as azagaias: era curioso assistir a este confronto, entre o polvo, um dos animais mais espertos que conheço, e um bípede inteligente. Compreendi que o intenso fascínio que demonstravam pelo mar, não surgira desde há muito. Algo acontecera que lhes permitira, ou obrigara, a descobrir o oceano, do qual só conheciam até à linha do horizonte. Esse fascínio levou a Elizabete a dizer : “ Mais dia menos dia, esta gente acaba por inventar um modo de vencer as ondas. Um dia destes põem-se a emigrar!”. E dei-lhe razão. Uma nova humanidade perfilava-se ali, como se aquelas praias constituíssem o dealbar da colonização do planeta. Estes, com quem coabitámos, possuíam uma pele clara e alguns mesmo os olhos azuis. Mostravam-se extremamente agressivos com as outras tribos. Uma delas habitava na foz de uma grande rio, possuíam a pele avermelhada, os cabelos negros, utilizavam troncos escavados para se movimentaram sobre as águas fluviais; uma outra não se atrevia a descer do interior, tinha a epiderme muito escura e o cabelo encarapinhado; logo que os sobrevoámos puseram-se a fugir soltando grandes brados, refugiando-se em cubatas muito bem fabricadas.
Estas diversas etnias, que se mostravam diferentes em vários aspectos do comportamento social, praticavam, porém rituais relativamente parecidos. Todos eles inumavam os seus mortos, embora uns, à diferença de outros, fizessem acompanhar os mortos com objectos pessoais; de uma maneira geral, as sepulturas eram locais sagrados, muitas vezes grutas, em cujas paredes pintavam cenas do quotidiano, que julgavam corresponder ao mundo dos mortos. Nem todos mereciam as mesmas honras: destinavam-nas aos chefes guerreiros e aos grandes xamãs.
Entretanto, o meu mal-estar aumentava cada dia que passava, apesar dos cuidados de Elizabete e dos nossos hospedeiros, ou vizinhos com mais rigor. Foi preciso que saíssemos dali um pouco precipitadamente. Não lhes deixámos armas, oferecemos somente um anzol de metal. Connosco viajam documentos filmados que comprovam o contacto com esta alvorada do Homem.
Quando chegámos junto dos demais companheiros, recebi de todos eles conforto, incluindo de Beatriz. Rapidamente me dei conta de que ela realmente emparceirava com o Joaquim. A febre prostrara-me sem apelo nem agravo. Elizabete internou-me na enfermaria, e dois pilotos puseram a nave o mais alto que foi preciso, para que eu me libertasse de quaisquer miasmas. Colocado em regime de quarentena rigorosa, apenas Elizabete e as enfermeiras me faziam companhia. A causa da doença encontrava-se num género de malária, contraída certamente na selva húmida. Estive um mês acamado. Recebia notícias sobre o andamento das explorações. E nenhuma sobre Beatriz; de resto, evitei perguntar por ela; não creio que fosse de indiferença a atitude dela (hoje tenho mesmo essa certeza), a ninguém era indiferente a minha doença, obviamente. Elizabete acarinhou-me nesse período difícil, em que a morte me aparecia, à vezes, como bem vinda.
Fui acometido de muitos pesadelos; recordo um particularmente: Caminhava através de um longo e sombrio corredor, mais parecido com um túnel de metal, mas de cor negra; ao fundo uma luz fraca; dirigia-me para lá, cada passo que dava soltava-me no ar, parecia que nunca mais chegava, minutos estendidos como horas, de medo por aquilo que me angustiava enfrentar; por fim, um quarto; sobre uma cama que o ocupava todo, vi a Beatriz nos braços de um macaco monstruoso; debati-me entre a tentação de fugir ou de lançar-lhe as mãos ao pescoço; de repente, a cama transformou-se numa janela, um buraco circular e luminoso no céu negro; daí, Beatriz olhava-me rindo; a abertura foi-se afastando no vazio, sempre com ela a rir, até que se sumiu na escuridão impenetrável; encontrei-me, então, só, absolutamente só, sobre um rochedo inóspito vogando no espaço; a solidão, o sentimento de abandono que me invadiu, era tão compacto, visceral e doloroso, que acordei a chorar, banhado em suores frios...
Quando recuperei finalmente, propus à equipagem o regresso ao espaço, a caminho de casa.
Não fui apanhado de surpresa quando dois casais participaram a sua vontade de ali permanecerem. O que me deixou estupefacto foi ser um deles o Joaquim. A Beatriz não. Ficaram, pois, ele e a sua técnica adjunta, mais um auxiliar da cozinha e uma enfermeira. Nenhum deles era imprescindível para a prossecução da viagem de regresso. Aquilo que sucedeu entre Beatriz e o seu amigo, ainda hoje ignoro. Apesar do ciúme que o Joaquim me provocou, reconheço que perdemos um excelente camarada: era ele, sobretudo, que nos animava no decurso das longas e penosas viagens; um verdadeiro entertainer, excelentemente dotado para improvisar, nos espectáculos que montávamos, os mais expressivos e criativos jogos histriónicos, imensamente divertido. Era um típico self-made-man; não chegara a terminar nenhum curso superior; banqueteava-se à mesa dos ricos; comia-lhes a boa comida, acampava nos seus palácios com deliciosa desenvoltura, apostrofava, gozava-os com finura. Escolhera-o para a tripulação da Quimera, porque simpatizara com aquele ar gingão, de resistente da vida, sem escrúpulos, o perfil perfeito do marinheiro pirata, flibusteiro, não lhe faltando, sequer, a cicatriz na face. Em determinada ocasião questionei-o :” Olha lá, não tens problemas de consciência por bajulares os poderosos?”-“ Consciência?! Que é essa coisa?? Permite que se coma e beba com fartança? Meu comandante, pense bem: os ricos roubaram o que me oferecem! Não sou eu que os sirvo, são eles que me servem a mim. Divirto-os? Pois seja, e o que me divirto eu com eles? Com eles e com elas, se me permite...” – “Mas assim não te tornas numa espécie de bobo da corte?” – “ Porventura, e que mal vem ao mundo? O mundo é um circo, meu comandante, com a diferença de que entre o público há ursos, burros, camelos e alimárias. Eu faço momices e os macacos riem. O meu comandante, desculpe-me lá que lhe diga, com todo o respeito, mas é um idealista...”. Que me tinha respeito, disso não tenho dúvidas.
Não me espanta que Beatriz e Elizabete se hajam tornado grandes amigas. Ou devia espantar-me? A verdade é que já não sou íntimo de nenhuma. Se me pergunta qual delas desejo mais, eu respondo :”Beatriz”. No entanto, inibo-me de tal forma na sua presença que não sou capaz de tomar a iniciativa. Noto muitas vezes que me observa de esguelha e apanho-a a sorrir quando me mostro mais nervoso.
Nos seus aposentos deixei-lhe um poema. Não é meu, é do Poeta do planeta dos Asnos. Ela leu-o, com certeza, mas nunca o comentou comigo. Dizia isto :
“ Elly vati muhur, elly vati muhur! Fati die kaly, mori ka sa. Ally ma sa/ Ally ma fhur ! « ( Meu amor, meu amor, breves são os dias, mas esplêndida é a aurora da nossa tristeza!”).
Por uma vez segunda insisti. Como quem não quer a coisa, abandonei em cima da mesa do refeitório, ao pé dela, os versos seguintes:
 “ Procuro-te em cada fio de luz,/ em cada nuvem passageira. / Procuro-te em cada pedra, musgo na parede, neve da serra. / Procuro-te no lugar que te reservei à minha beira./ Procuro-te em cada sílaba, nesse teu jeito de querer e recear./ Em cada provérbio, adágio, ladainha./ Procuro-te num honesto sorriso, na mão que esconde a boca com cândida timidez,/ na fúria do forte de alma, no bravo que arremete audaz. /Procuro-te na vida que é morte daquele que não colhe o fruto./ Procuro-te no ventre tumefacto dos débeis,/ na boca dos sedentos,/ na cupidez do bruto./  Procuro-te no coração da dor :/ Porque sei que tu virás amanhã, doce Liberdade!”.
É claro que lhe omiti o último verso.
Meu comandante supremo: resista como puder aos factos que vou relatar! Não tenho tempo, não tenho mais tempo. É urgente que lhe transmita uma conduta terrível que eu cometi. Por ela o meu comandante verá que eu não sou o puro idealista que julga porventura que eu sou. Tentei matar o meu subordinado! É horrível, eu sei, mas tem que me ler até ao fim. Enlouqueci de ciúme. Tomei como certo que ele servira-se da Beatriz e que a largara a seguir como um despojo inútil. A filosofia da vida desse homem levara-me a admitir isto mesmo. Durante a noite em que na Quimera executávamos os preparativos para descolar, deixando em terra o Joaquim e os companheiros, dirigi-me à sua tenda; encontrei-o a ler qualquer coisa que acreditei ser uma carta da Beatriz; pareceu-me que sorria com desdém de predador sem escrúpulos. Surpreendeu-se quando me viu. Apontei-lhe o revólver, o rosto dele empalideceu; vi bem como as pernas lhe tremiam; nos olhos não era súplica que eu via, mas indescritível estupefacção. Murmurou apenas estas palavras :” Meu comandante, meu comandante, que faz? Pense no que vai fazer, vai destruir a sua vida, a missão...Vai perder-se por causa de um “merdas” como eu??”. Estaquei. A loucura que levava esmoreceu como um relâmpago medonho que golpeasse o solo e nele se fundisse. Lancei fora a arma com nojo. Com nojo de mim. Como foi possível descer tão baixo, cair a pique? Retirei-me, não sem antes escutar dele as seguintes palavras :” Sou um cínico, eu sei, mas, por favor, acredite-me em duas coisas: eu e toda a tripulação sentimos por si um verdadeiro afecto, qualquer um de nós teria dado a  vida pela sobrevivência da Quimera. A outra coisa, meu comandante, acredite-me se quiser: estime muito a Beatriz, porque é uma mulher muito só!...Adeus, senhor!”.
Remorsos? Muitos. Aprendi alguma coisa? Quero crer que sim. Eis tudo. Sujeito-me ao seu julgamento. Chega-me o remorso como castigo. Pressinto que vou morrer. Darei tudo, mesmo tudo, incluindo a minha vida, para impedir que mais alguém morra.

( Interrompo a leitura. Distendo as pernas. Já sinto notoriamente o peso dos anos, doem-me os rins. Mando vir uma ligeira refeição de dieta, acerco-me da janela enquanto repouso um pouco. Pela ampla vidraça inquebrável mal posso observar o sol poente, feio, encoberto por um manto sujo. No solo quase ninguém caminha; é no ar que se acotovelam os mais variados veículos. Inumeráveis câmaras dirigem, desde os edifícios, olhos vigilantes sobre o tráfego aéreo. A cada momento passa velozmente ora uma ambulância, ora um helicóptero da polícia. Assisto ao desfile da minha vida em fragmentos sem articulação. O tempo longínquo de estudante, um e outro casamento, violentos desastres emocionais e financeiros, a escalada gradual em direcção às chefias, calando, engolindo revoltas, tranquilizando governantes medíocres, trepando de tarimba em tarimba. Reservo as minhas ideias oposicionistas para os encontros clandestinos de “Os Iguais”. A idade já não me permite aventuras ousadas, dedico-me exclusivamente a redigir alguns dos manifestos políticos. O meu único momento de glória, de satisfação pessoal intensa, tive-o no período em que seleccionei os membros da grande viagem da Quimera e dirigi o plano da missão. Nesta altura, em que estou lendo o relatório, vejo-me novamente invadido por sentimentos nobres, tão nobres que transcendem o indivíduo oportunista que sempre fui. Agora, um ser humano, ao qual estava confiada uma empresa sem paralelo na história da humanidade, transmitia-me um relato fiel e comovente, dos confins do tempo e do espaço. Abre o seu coração como se não acreditasse que regresse jamais. Um ser humano pelo qual sinto um verdadeiro afecto paternal. Não dei filhos a ninguém. Este seria o filho que não tive.
Cofio a barba – evito cortá-la pela simples razão do temor pelo espectáculo da decrepitude -, e quase me surpreendo com as recordações esfiapadas que rodam, díspares e desavindas, como as faces de um pião: vejo-me a chorar pela minha mãe, ainda nem sequer um ano de vida eu tinha (espantoso conservar uma lembrança tão antiquíssima e primeva!), ela demorava-se, como poderia eu saber que nunca mais regressaria? Deixou-me aos cuidados de uma irmã, até sempre; vejo-me em seguida, tolhido de incompreensão radical, ao lado do cadáver do meu irmão deitado na urna, ainda não fizera quatro anos de idade, diminuto e inculpado como um anjo a quem a morte levou sem misericórdia; chegam-me os soluços das viúvas dos meus camaradas assassinados pela polícia do Regime; desfilam as mulheres que amei, sempre amores fortíssimos, mas perdidos aqui e acolá para todo o sempre. Uma recordação surgiu, rápida e luminosa como um revérbero de prata na babugem do mar: há muito, muito tempo, encontrava-me eu na casa dos cinquenta anos, resolvera em determinada ocasião navegar na net através daquela comunicação banal que nos permite conversar em tempo real com outros usuários, ocultos sob pseudónimos; fui contactado imediatamente por um cibernauta e entabulámos um parlatório inconsequente (eu sentia-me insuportavelmente só); por diversos serões, não sucessivos, falámos sobre livros e filmes; fomos avançando para confidências pessoais; a certa altura suspeitei que fosse um homem que estivesse do outro lado; numa determinada noite, insisti uma, duas vezes, que esse alguém me enviasse uma foto, mas sem resultado; acabei por colocar um ultimato: “Envio-te o meu número de telefone e, ou telefonas já, ou acabam-se aqui as nossas conversas!”; a pessoa protestou; no termo de longos minutos, telefonou mesmo: escutei, deliciado, uma voz de mulher, muito jovem, muito intimidada – que não correspondia de modo nenhum ao perfil que o interlocutor anónimo desenhara de si mesmo!- quase balbuciando “ Deixa-me fazer as coisas à minha maneira! Por favor, deixa fazer as coisas à minha maneira!”. Assombroso. Ela sempre soube, desde o primeiro instante, por mim mesmo, que o homem que parecia fasciná-la podia ser pai dela, pelo menos...e jogara comigo o mais armadilhado jogo de sedução! Porque estranho motivo se lembrava agora deste episódio?
E se eu jogasse às escondidas com o Tempo?
O silêncio cai sobre a cidade, como uma nódoa, como uma mortalha. O Tempo é uma aranha astuta que me prendeu na sua baba de ilusões. )



 Oitava viagem -Os farsantes

    Sentíamo-nos novamente excessivamente cansados, nervosos. Decidimos, por consequência, abordar um corpo celeste de tamanho médio. A atmosfera não era respirável. Equipámo-nos convenientemente. A paisagem electrizou-nos de admiração. Renques de árvores vermelhas ofereciam frutos de oiro; gazelas azuis trotavam de mansinho; cortinas de papagaios multicolores cobriam faixas de um céu cor de açafrão; ribeiros cantavam, fazendo rolar pedras preciosas; uma cumeada levantava para o alto a cabeleira de neve; fragas majestosas cortadas a pique; penedos risonhos. Que maravilha!
 Eis que, subitamente, um ser insólito, estranhíssimo, se materializa à nossa frente! Possui múltiplos braços e múltiplas pernas, toda a sua face é composta de um olho, imenso, e de uma boca carnuda, rubra, enorme. Ele ri, ri, e torce-se de tanto rir!
Aproximo-me, a mão no coldre. Eclipsa-se, como uma miragem, volatiliza-se. Desatámos a procurá-lo, nos arbustos de prata, entre os frutos de oiro, nas águas de um regato. De repente brotam do chão mais dois, e outro, e outro. São todos idênticos. Vestem indumentárias grotescas, ou talvez não, antes circenses, quero dizer, roupas de palhaço. Sim, as bocas são também de palhaço. Seguro num, fortemente, e ele abandona-se. É mole, contorce-se, transforma-se. É agora uma bola colorida. Os outros riem, riem. Procuro comunicar, exibo todos os sinais da paz e da concórdia universais. Espantosamente um deles põe-se a arrancar, literalmente, a pele do rosto! Tomba-lhe a máscara, e fica com outra precisamente igual! Parecem tão bons, tão alegres, tão inofensivos. Fogem, ou fingem fugir. Proíbo que alguém os persiga. Pode ser uma armadilha, advirto.
Erguemos as tendas ali mesmo. Banqueteamo-nos com os frutos, depois de analisados. A fome é imperiosa. Matámos uma corça azul. Carne deliciosa! Alguns adormecem, outros montam guarda.
 Pela madrugada, iniciámos a incursão. Bosques floridos, várzeas amenas. Tudo convidava ao repouso. Seguimos atentos, deslumbrados. O ar é quase sólido, mas brando, uma atmosfera fofa. Levitamos. Apetece-nos rir, uma vontade irreprimível de rir a bandeiras despregadas. Duas tripulantes põem-se a saltar à corda, não sei onde nem como a arranjaram. Invade-nos um apetite devorador, todos o confessam, em altos brados de riso. Desta vez foram coelhos, uma dúzia, que matámos a tiro, uns a competir com os outros. Os seus cadáveres são peludinhos como animais de estimação, uns são brancos, outros cor-de-rosa. Chiaram um pouco antes de morrerem. Assámo-los no espeto. Que apetitosos!
Begónias, amores-perfeitos, gardénias, cravinas, lilases, hortenses, goivos, açucenas. Quem nos dera aspirar tantos perfumes. Araucárias e amieiros (como é possível, sendo originárias de climas tão diferentes?), amendoeiras e mangais, faias e figueiras-da-índia. Surpreendente.
Sobre as fragas, asbestos; olivinas nas rochas sobranceiras ao rio; topázios sanguíneos; safiras cor do céu da minha terra; corações de rubi; malaquites e bauxites nas pedras soltas nos caminhos; ónix faiscando entre os seixos.
Leões convivendo com zebras relinchantes ; panteras negras espreitando curiosas à nossa passagem, com papagaios sobre o dorso; famílias de esquilos esgueirando-se por entre as patas de búfalos possantes e magnânimos...os coelhos brancos parecem vigiar, tão ingénuos e brancos que apetece estreitar ao peito.
Damos pequenas cotoveladas uns aos outros com carinho. Alguns de nós abraçam-se já, o volume dos fatos de protecção convertem os abraços em cenas de risada solta. Não resisto: beijo o vidro do meu capacete, querendo beijar Elizabete; tento repetir o beijo com Beatriz, mas ela está sendo beijada pelo operador de rádio. Damos as mãos e fazemos uma roda, dançante, como na tela de Matisse. Não estamos nus, como na tela, por isso achamos graça redobrada. Uma luz muito ténue no meu cérebro permite-me compreender, por breves segundos, como somos cómicos sem vontade própria, espectros, simulacros, fantoches. O oiro brilha nos frutos sumarentos. A prata fulge em canteiros. Uma estranha forma de árvore altíssima, liberta no espaço sementes enormes, roliças, transparentes, que vogam como balões.
Cai a noite. Serena. Cheia de doçura. Na curva de um caminho deparamos, subitamente, com um grande paredão. É liso, frio, é mármore. Toco na superfície. Uma porta desenha-se e convida-nos. Achamos graça. Que mal há em entrarmos? Não somos exploradores intrépidos?
Vislumbramos figuras ao longe, tão longe que lançamos mão dos binóculos equipados com infravermelhos. Levo um longo minuto para entender o que vejo. E o que vejo é monstruoso, inenarrável: uma pequena multidão de “palhaços” grelha em espetos seres humanos, e esses seres humanos são crianças! Horror dos horrores! Não resisto a uma náusea que me dobra pelos rins. Aceno vagamente aos meus companheiros para que não vejam mais. O operador de rádio parece desmaiar, ampara-se ao vizinho. Beatriz não vê, por isso não entende o que se passa. Elizabete demora-se na observação, como é forte esta mulher!
Quando me recompus, expliquei como pude aos camaradas a situação e ordenei que os liquidássemos de uma só vez. Fomos alertados, porém, por um grito agudo da Elizabete – “Atenção, há crianças vivas, um magote delas!” – “Onde?” – “Reunidas por detrás de uma cerca!” –“ Okei, então liquidamo-los um a um! Pontaria certeira camaradas!”. Distribuímos rapidamente os alvos entre todos nós. A um sinal meu, a fuzilaria rebentou em uníssono. Os palhaços estalaram como castanhas na fogueira, estralejaram como fogo de artifício. Elizabete gritava de alegria, vendo as crianças baterem palmas e erguerem os bracitos para o ar.
 Demorámos largos minutos a chegar ao local da carnificina. Sobre a fogueira ardiam as carnes calcinadas. Ao primeiro golpe de vista, estranhei que já não lembrassem de modo algum despojos humanos. Contudo, as crianças estavam lá, encostadas à cerca, silenciosas, expectantes. Estacámos de repente,  e soltámos todos murmúrios de estupefacção. São palhacinhos! Ostentam realmente um imenso olho que lhes ocupa o rostozinho quase todo, e uma boca de lábios grossos e vermelhos. Uma dúzia de olhos azuis fixam-nos sem terror, a sorrir. Que belos sorrisos!
 No solo da clareira jazem fragmentos dos canibais, pedacinhos de fitas multicolores, farrapitos de peles que se levantam e levitam naquela atmosfera compacta.
 Regressámos para o nosso veículo de transporte. Instalámos as tendas insufláveis, munidas de ar respirável. Colocámo-las em círculo, no meio deixámos os palhacinhos em liberdade. Habituados àquela atmosfera, não havia possibilidade de transportá-los na Quimera. Repartimo-nos em dois grupos. Um, ficou a guardar os palhacinhos, o outro partiu a explorar todo o globo, no vai-vém. Comandei este. Circulámos por toda a parte e em vários pontos dispersos observámos magotes de palhaços, acompanhados por vezes de palhacinhos, ou seja, de filhotes. Os factos impunham-se-nos ao espírito: naquele astro os adultos comiam os próprios filhos! Provavelmente seleccionariam alguns tantos para que chegassem, por sua vez, a adultos. Agora, as risadas deles estarreciam-nos. Haviam perdido toda a graça e, nós, toda a vontade de rir. A paisagem apresentava-se, mesmo assim, por todo o lado, absolutamente delirante, de cor, de luminosidade, de musicalidade.
Uma chamada urgente do comandante do pelotão que ficara de guarda, fez-nos regressar imediatamente. Que estaria a acontecer?
 Mal aterrissámos, largámos em passo de corrida para o acampamento. No interior do círculo não se encontravam mais os palhacinhos : no lugar deles saltitavam os tais coelhos brancos e cor-de-rosa! Uma explicação simples e fulminante atravessou-me a mente: os palhacinhos eram, na verdade, coelhos; os adultos que os trinchavam, teriam de ser coelhos logicamente. E nós, pobres de nós, havíamos comido palhacinhos também...
 Deixámos os coelhinhos em liberdade. Liberdade condicionada, era fácil prever que seriam presa novamente dos adultos. Que fazer?
Ninguém quis jantar. Alguém disse para o cozinheiro : “Nunca mais  me sirvas coelho, ouviste!”.
Durante um longo espaço de tempo permanecemos mudos; por fim, Elizabete, corajosa como sempre, apresentou a sua opinião sobre o assunto, que nos permitiu passar dos factos objectivos, científicos digamos assim, para complexas especulações sobre a “condição humana”. Os coelhinhos fofos metamorfoseiam-se em “humanos” para poderem variar de dieta.
 Tínhamos as mentes cansadas, os corpos não. Beatriz isolara-se a ouvir música, cortara as pontes com o exterior.
Elizabete foi ter comigo à tenda. Abraçámo-nos longamente. Os seus seios fartos confortam-me, despertam-me sentimentos oblíquos de ternura filial. É tão diferente da Beatriz! A inteligência experiente e amadurecida numa carne onde a velhice se insinua já, numa, e um projecto enigmático numa carne sensual que arde com o primeiro fósforo, na outra.  Quando o dia raiou, ainda não adormecêramos. Beatriz dormira toda a noite?

            ( Sinto um aumento excessivo da tensão arterial; engulo com um copo de água um comprimido de cloridrato de propranolol , que retiro de uma gaveta. Levanto-me, estico as pernas dormentes. Quando foi a última vez que experimentei o famoso “fogo que arde sem se ver”?)

         Senhor Director :
Este episódio que acabo de relatar, não sei precisar com rigor em que etapa da nossa viagem sucedeu. Escrevo ao sabor da pena; as recordações começam a juntar-se de acordo com as suas leis próprias; perdem-se já algumas, outras irrompem com uma clareza admirável. Creio que estou a envelhecer, só pode ser isso. Talvez redija já não sob o governo da área cortical, mas, antes, sob o império das emoções.
O conto dos palhacinhos canibais evoca um outro episódio (quando sucedeu?). Foi quando, há muito, muito tempo, passámos tangencialmente por um mundo com as dimensões de Marte; executámos um largo círculo, por causa da velocidade que levávamos, e voltámos para trás, cheios de curiosidade. O computador central detectara uma estrutura, algures naquele astro, que indiciava a existência de vida inteligente.
 A sonda vai-vém colocou-nos ao pé da estrutura. Era uma cúpula que nos surpreendia com as suas formas perfeitas. Não vislumbrámos nenhuma porta. Ao tacto, era mole, como borracha. O equipamento detectou imediatamente matéria orgânica de origem vegetal. Alguém comentou –“ Ora esta!”.
Tive uma ideia: e se cavássemos um pouco no ponto de intercepção da cúpula com o solo? Assim fizemos. Não foi preciso muito. O edifício era constituído por uma cúpula de paredes largas, provavelmente oca. A superfície possuía uns rebordos muito simétricos. O nosso botânico introduziu-se ousadamente no interior. Num instante comunicou que o que via era uma espécie de caule, segurando a cúpula. Transmitiu para o exterior as imagens que filmava. Foi rápido e conclusivo –“ Meu comandante, esta coisa é uma cogumelo!”. Sentámo-nos todos, com um ar de quem já não esperava mais nada que o surpreendesse. Admitimos placidamente o facto: estávamos perante uma planta criptogâmica, conhecida por tortulho – um bolor, ou uma túbera - medindo aí uns cinquenta metros de altura. O solo apresentava-se almofadado, flácido, grávido de húmus e de sementes.
O biólogo relatou-nos o que vira – sob as paredes da cúpula, autenticamente presos sob ela, habitavam diversas variedades de insectos, que se alimentavam do húmus fértil, que eles próprios ajudavam a fertilizar; montes de cartilagens secas, juncando o chão, demonstravam que jamais dali conseguiam libertar-se; provavelmente não o queriam fazer – “Desconfio, contudo, que eles simplesmente não podem. Creio mesmo que estão presos! Ali se reproduzem, e ali morrem. E mais: suspeito que o cogumelo se alimenta deles, quero dizer, come-os, vivos ou mortos...”.
  Tal conjectura encontraria outras provas em outros locais daquele misterioso mundo vegetal.
A mais dramática verificou-se quando, no exterior e no termo de uma larga caminhada, alguns de nós resolveram, com a minha permissão, descansar sob a ramagem de um género de carvalho. Trepei com a Elizabete a um pequeno maciço de argila dura e sentámo-nos no topo, a conversar. A certa altura a nossa médica comentou que nos sentáramos sobre uma casamata de formigas, uma termiteira de dois metros de altura –“Exactamente iguais àquelas que as térmitas fabricam em África! São vorazes estes bichos!”. Subitamente estremecemos com gritos de socorro. Acorremos num ápice. Deparámos então com o biólogo suspenso dos galhos do carvalho, agarrado por este num abraço que parecia mortal! Os reflexos actuam depressa: dei imediatamente uma ordem seca ao artilheiro para que disparasse uma rajada de grau 3 sobre o tronco da árvore, que se volatilizou em fumo e estilhaços. O biólogo tombou, aflito e dorido, mas sem ferimentos graves. Ficou ao cuidado de Elizabete.
Po este caso e outros mais que observámos,  concluímos que, naquele mundo, eram as espécies vegetais que impunham um império impiedoso. Num bosque de loureiros assistimos a um autêntico e inenarrável linchamento de dois macacos roncadores. Berraram que se fartaram. A seguir, numa brenha arborizada, uma raposa debatia-se desesperadamente no abraço mortífero de uma oliveira.
Árvores, arbustos, plantas habitualmente inofensivas, cogumelos, trepadeiras parasitas, silvas ofertantes de gordas amoras, tudo que vegeta fazia pela vida. O animal disfarçara-se de hortaliças e flores.
No alto, entre a folhagem de uma árvore colossal cuja copa mediria bem mais que um quilómetro e o tronco da altura de uma torre com dezenas de metros, no alto dessa portentosa criatura vegetal que parecia ser a rainha, eu vi, e vi com certeza, dois ou três seres , ora escondendo-se, ora saltando de ramo em ramo, cujas formas me fizeram pensar, com inquietação, em indivíduos da nossa espécie.

(Que finalidade governa os infinitos mundos?- Medito.- Como se pode sustentar uma filosofia que queira preservar toda e qualquer forma de vida, se a criação destrói, e a destruição cria? Porquê preservar a existência de infindáveis microorganismos que vivem da nossa morte de todos os dias, que atacam vorazmente cada órgão nosso, cada célula? De quantos desequilíbrios é feito o equilíbrio cósmico, de quanta desarmonia a harmonia universal?
-A verdadeira filosofia ainda está para nascer. Uma outra humanidade ainda está para vir.- Remato, e fico com a suspeita de que tudo me merece suspeita. Incluindo o que acabo de escrever. Sei apenas que se uma coisa aumenta ou diminui, facilita ou reduz a potência de agir do nosso corpo, a ideia dessa mesma coisa aumenta ou diminui, facilita ou reduz a potência de pensar da nossa mente. A vontade e a inteligência são uma só e a mesma coisa e o objecto da ideia que constitui a mente humana é o corpo, e não outra coisa. Que deseja na verdade qualquer indivíduo? Conservar-se, aumentando sempre a sua potência de agir.)




 Nona viagem- O Enigma.

    Transmito agora os últimos episódios das nossas viagens extraordinárias. Aproximava-se o ponto onde decidíramos tentar a “travessia”. Jacques, o computador central, escolhera-o, pelas condições que reunia. Sabíamos, portanto, que iríamos enfrentar o “buraco de verme”.
Dispusemos de muito tempo, no decurso dos muitos meses que precisávamos de percorrer até esse ponto, para reunir todas as informações obtidas e avaliar o rigor das nossas teorias. Nas reuniões preparatórias da nossa viagem, que realizámos consigo, senhor Director, aí na Terra, concluímos que a força de gravitação mostra-se ridiculamente fraca em relação às outras forças. Um pequeno íman de alguns gramas é suficiente para vencer os efeitos da gravitação exercida pelos seis mil biliões de biliões de toneladas do nosso planeta! Por conseguinte, a desproporção entre estas duas forças parecia-nos estranhamente enorme. Considerámos que as partículas e as forças são manifestações da vibração de minúsculas cordas que devem imperativamente vibrar em dez, talvez mesmo em doze dimensões ( e não apenas as quatro que conhecemos). Aquelas que não detectamos devem ser, portanto, colossalmente grandes. Onde se escondem? Ou sê-lo-ão incomensuravelmente pequenas?
Admitimos, então, que o espaço é curvo – faz um anel sobre si próprio – e, a ser assim as dimensões “deste” universo são finitas. Um universo-esfera. Lembro-me que V. utilizou até uma comparação clássica: o da formiga e do equilibrista. Sobre o fio, ou cabo, o equilibrista só pode avançar ou recuar; a formiga, porém, pode dar a volta ao fio esticado. Isto é, se percorrermos o universo, acabamos por regressar ao mesmo ponto. Existe em cada ponto do universo um pequeno (ou enorme?) anel, semelhante a um donut, enrodilhados uns nos outros, compondo uma espécie de bola de pano. Julgávamos que as partículas se duplicam indefinidamente em dimensões suplementares, e que poderíamos viajar por esses clones em diversos espaço-tempo. Para compreendermos o facto da força da gravitação parecer tão fraca, V. serviu-se novamente de uma metáfora: “Pensemos numa ribeira com uma corrente muito forte. Dividida em vários braços, a corrente enfraquece em cada braço. A gravitação enfraquece do mesmo modo, diluindo-se nas dimensões suplementares.” Para abreviar essas nossas longas lições, concluímos que era muito provável a existência doutros mundos paralelos a poucos milímetros, ou décimas de milímetro, de nós, não foi? Como alguém escreveu há muito tempo atrás: “O nosso universo é apenas um pequeno detalhe num espaço muito mais vasto.”
As dimensões temporais enroladas deveriam ser, segundo o V. ponto de vista, autênticas máquinas de viajar no tempo. Melhor dizendo: nos tempos. Fosse como fosse, entre um universo plano como uma membrana estendida, ou encurvado como uma bola enrugada ou um cilindro, todas as hipóteses pareciam prováveis. O que restava forte era a minha convicção de que  este universo não é o único, e que se originou pela colisão entre dois ou mais outros; e, finalmente, que poder-se-ia viajar em vários espaços-tempos. Confirmar esta hipótese convertera-se para mim numa completa obsessão. Ou para V., senhor Director?
Precisamente no termo de quase um ano de viagem, no decurso do qual a nossa excitação aumentava cada dia, o computador central transmitiu a informação de que se encontrava a “bombordo” um planeta de formidáveis dimensões, a trinta dias-luz de distância aproximadamente. Orbitando uma estrela anã, apenas o detectámos quando se posicionou na nossa direcção. A órbita que efectuava era estranhamente larga, dado o tamanho da estrela. Deduzimos que orbitava uma outra, porém não localizada, provavelmente morta e transformada num “buraco negro”. Os cálculos do computador não estariam errados, pois fora exactamente por causa disso que ele escolhera a região.
A previsão mostrou-se correcta quando nos aproximámos suficientemente para podermos detectar uma enormíssima fonte de radiação. Porém, não tínhamos aprendido que os “buracos negros” não emitiam radiação alguma??
Tínhamos, então, que evitar o “buraco negro” a todo o custo, ou “saltar” para o seu interior?
 Decidimos investigar o planeta gigantesco que nos fascinava, que nos atraía como um olho enigmático do ventre obscuro do nada. À distância de quinze dias, em velocidade de cruzeiro, enviámos uma sonda automática. Enquanto esperávamos os resultados, mudámos de rumo e estabelecemos um largo movimento em círculo. Não tirávamos os olhos do écran vigiando a marcha da sonda. Quarenta e oito horas depois, recebemos a seguinte mensagem, que nos deixou varados de espanto:
Não vos aproximeis! Sabemos quem sois, acompanhamos a vossa viagem desde há longa data. De nós já encontrastes sinais da nossa presença. Dispomos de meios capazes de vos destruir num ápice. Se o quiséssemos fazer, já o tínhamos feito a partir das diversas colónias instaladas pelo universo fora. Ficámos prisioneiros na periferia daquilo que chamais um “buraco negro”. Não foi propositadamente que o fizemos. Por tal motivo, espalhamos pelo cosmo a Vida. A nossa, evidentemente. Há muitos milhões de anos que procedemos à salvaguarda da nossa sobrevivência; alguns dos planetas que visitastes são apenas fruto das nossas experiências. Muitos mais existem, que jamais conhecereis. Sois demasiados pequenos para entenderdes os nossos segredos, a nossa origem e a nossa missão. Talvez um dia! Adeus e segui viagem.”
     Ficamos petrificados. Eu sou dos últimos a vencer o estupor. Consulto a tripulação, depois de confirmados todos os perigos com que Eles nos ameaçam. As ordens que levamos são claras: conservar intacta a nave a todo o custo. Por conseguinte, decidimos há poucas horas atrás responder com esta curta mensagem, e afastarmo-nos dali a toda a velocidade: “ A nave Quimera saúda-vos! Tendes com certeza conhecimento das nossas amistosas intenções. Por esse facto, surpreende que ignoreis que desejamos regressar ao nosso planeta Terra, por este lugar precisamente, porque foi este o lugar que seleccionámos para esse fim, no decurso da nossa viagem. Julgamos perceber agora os estranhos sinais da vossa actividade no universo. Neste universo, visto que começamos agora a admitir que não vindes deste mas de outro. Seja como for, transportaremos connosco o enigma que não decifrámos. Sede amistosos e permiti a nossa operação de regresso a casa”.
      As imagens gravadas pela sonda automática chegam em péssimas condições. Mesmo assim, pudemos registar algumas por meio do nosso telescópio de bordo. Aqui uma imagem vale por mil palavras. Em palavras, o melhor que consigo transmitir é o desenho fantasticamente colorido de uma imensa urbe que cobre todo o planeta descomunal! Imaginai, portanto, uma metrópole com milhões de km2, faiscante de luz, composta de cubos de dimensão incomensurável, encimados por torres cónicas, atravessados por uma rede inextricável de pontes angulosas, tudo construído em materiais que ignoramos absolutamente, esplandecente como oiro sobre o diamante! Naves impressionantes, que engoliriam facilmente a Quimera, navegam majestosamente num céu absolutamente luminoso, acompanhadas por miríades de pequenos veículos alados. Seja pelo espectáculo, seja pela luminescência, seja, enfim, pela grandiosidade, sentimos todos uma espécie de iluminação. Não compreendemos, mas sentimos! Estamos perfeitamente despertos, lúcidos, conscientes. Sentimo-nos pequenos e, simultaneamente, bafejados pela sorte, pela oportunidade primeira, e talvez única, do contacto com seres divinos, apetece dizer. Sobre as pontes, sobre o éter puríssimo, sobre as artérias daquele corpo vivo, penetrado por energias cósmicas, no interior dos incontáveis veículos que deslizam como pérolas num mar de sedas, não distinguimos nenhum organismo semelhante ao nosso ou àqueles que já víramos: somente pontos de luz, ondas gama e beta, oscilando harmoniosamente e interpenetrando-se como um plasma uniforme. Desejamos ardentemente aterrissar, mesmo correndo o risco de ardermos como tochas fátuas e inúteis; vibrar, nem que fosse pelo instante derradeiro, naquele fogueiro de Consciência! e morrer depois, no cruzamento do alfa e do ómega!
 Subitamente, o computador central, o nosso omnipresente Jacques, anuncia uma descoberta fenomenal: este planeta não o é verdadeiramente, mas antes é uma nave incomensurável! E mais notável ainda: no seu bojo oco passa-se qualquer coisa de extraordinário! O máximo que Jacques consegue prospectar é que ali o espaço-tempo não é já o mesmo!
 Perante este anúncio espantoso, decidimos em assembleia geral avançar para aquela nave planetária. Intuímos que havíamos alcançado o ponto de intercepção, o “atalho” que talvez nos conduza directamente para a Terra, ou para as suas proximidades. O ponto não era mais o “buraco negro”, mas aquele planeta de metal!
Não temos alternativa. Comunico ao “planeta” Jano ( como fica designado) o nosso propósito, solicitando passagem ( parece-se com uma fronteira, ou uma espécie de “portagem”!). Surpreendentemente acabam de nos dar permissão, avisando-nos, todavia, misteriosamente que iremos sofrer uma surpresa... Contudo, não haverá risco para as nossas vidas e para a nave Quimera, asseguram-nos.
Atravessamos agora a sua atmosfera, serpenteamos no emaranhado de veículos aéreos, por entre torres e cubos. Um monumental aeroporto abre-se, como um útero materno, deixando à vista uma espécie de túnel. Penetramos, percorremo-lo, conduzidos por uma energia poderosa que dispensa os nossos motores. Neste período de tempo infindável - séculos condensados em instantes? - estabelecemos a seguinte conversação com alguém da imensa nave inter-galáctica. Ignoro que posto é que este alguém ocupa no concerto deste mundo, mas, pela conversa, julgo que estou falando com toda a gente que aqui habita.
“ – Sois vós que largais mensagens de esperança e salvação pelo universo? ( pergunto, referindo-me ao Morcego do planeta das catacumbas, ao Poeta da ilha dos asnos, e a outros casos mais)
-          Negativo. Essas mensagens nascem espontaneamente em toda a parte onde houver desespero. Nosso é somente o símbolo.
-          E que representa o triângulo e o círculo?
-          A osmose perfeita do corpo e da mente. A harmonia.
-          Mesmo assim, acabais ou não por intervir?
-          Quase nunca directamente. Deixamos que os habitantes actuem. No caso do planeta moribundo, que denominaste “das Catacumbas”, já interviemos entretanto, porque não tinham outra saída.
-          Para onde os encaminhastes?
-          Só uma pequena parte, constituída por crianças. Quando dormiam, encaminhamo-los para o planeta habitado pelos tais dois irmãos que conhecestes.
-          Quem sois?
-          Aquilo que somos é o como somos. Somos máquinas com cérebros orgânicos, à semelhança do vosso, muito embora mais complexos. Dispensámos há muito os corpos, que constituem acessórios inúteis e demasiado exigentes.
-          Como podeis pensar sem sentimentos??
-          Também os possuímos, mas não os vossos. Sentimos o que pensamos e pensamos o que sentimos. E consumimos energia tal como vós.
-          Tendes hierarquias de mando e de poder?
-          Diferentes das vossas. Estamos unidos numa comunicação em rede, permanente. O que um pensa e sente, instantaneamente todos os outros sentem e pensam.
-          Então, cada um não é um ser singular, pessoal?
-          Somos uma totalidade uníssona e unívoca. Somos o uno e a unicidade. Dispensámos os corpos e os egos. De resto, o teu “eu” é uma ilusão pertinaz em que acreditas. A vossa identidade é uma metáfora, um mero pensamento do vosso corpo, uma variável. São as associações da vossa memória que vos levam a acreditar num eu. A nossa memória, pelo contrário, é absolutamente colectiva, una e única.
-          Essas variáveis que referis, apresentam-se para nós como uma entidade que não tencionamos abandonar de modo nenhum.
-          E os sofrimentos gratuitos?
-          Seja. Não queirais negar que a consciência pessoal é um belo e raro fenómeno da evolução...
-          Não tão raro como isso, e nem tão belo assim.
-          Donde vindes?
-          De todos os lados e de lado nenhum. De todos os tempos e de tempo nenhum. Como um todo, libertos da massa corporal, somos imortais. O tempo que compreende a vossa evolução terrestre, não é mais que um minuto na escala cósmica.
-          E saltais de um espaço-tempo para outro?
-          De certo modo. Esse facto fortaleceu a nossa imortalidade.
-          E um conhecimento de mundos que nós jamais alcançaremos pelos nossos meios...
-          Exactamente. Armazenamos e processamos um conhecimento que corresponde quase ao absoluto. Ao conhecimento do Todo.
-          Como aquele a quem chamamos Deus?
-          Depende de que Deus falas...Não somos ainda omnipresentes, omnipotentes e omniscientes. Mas trabalhamos para isso. Seremos, se o queres, um Deus em construção...Repara bem: não viajamos por todos os mundos por um inclassificável livre-arbítrio, mas por necessidade. A lei geral da matéria é expandir-se ou morrer.
-          Sois felizes?
-          Depende do que por tal entendes. Procuramos cumprir os nossos planos. Consideramos que a beatitude encontra-se, e somente aí se encontrará, na posse e uso do máximo poder.
-          Do conhecimento...
-          Do conhecimento que nos permite prever e agir.
-          Se podeis transformar os mundos, porque não o fazeis?
-          Ignoras como e quando o temos feito já. Mas julgamos entender a que transformação te referes: se interrompêssemos a corrente de destruição que percorre o universo, causaríamos o colapso dele. E bem violento. As guerras e a morte dos inocentes, devem-se a factores que não podemos controlar. Evitamo-las em nós, e é quanto basta. Repara bem: não somos a matéria toda, somos a sua parte mais consciente.
-          Às vezes, na nossa viagem, sentia que éramos sujeitos de “alguém” que nos observava, sujeito de experiências...
-          A liberdade resulta da potência do conhecer. Se conhecesses tudo a cada instante, todas as causas de todos os efeitos, e todas as implicações dos efeitos com as causas, serias absolutamente livre. Fora isso, ninguém vos policiou...nem somos salvadores... Certo é que, muito do que classificais como liberdade, não é senão fruto da vossa ignorância. Como seria fácil para nós aniquilar-vos já, ou transformar-vos em escravos!
-          E porque não o fazeis connosco?
-          Nem convosco nem com mais nada. Já utilizámos o poder para amedrontar, subjugar.. Desses tempos destruímos todos os dados, todos os ficheiros, toda a memória. Quando decidimos unir-nos como um só, destruímos tudo, de um passado de usurpadores, de comércio, de ocupação. Quanto mais progredíamos, mais julgávamos os demais como inferiores, ignorantes sempre prontos a obedecer. Que escolhes tu, o passado ou o presente?
-          Sem memória não seria eu, não haveria história, progresso, projecto, não seria possível o conhecimento que nos permitiu chegar aqui, nada aprenderíamos sem a experiência. Como se compreende que tu, ou vós, tão poderoso, tão sábio, tenhas ficado prisioneiro de um buraco negro?? Nem sequer o maior dos muitos buracos negros que esburacam o universo?
-          Pela simples razão de que eles são mais poderosos do que nós, eles e outros fenómenos do universo. E também porque os verdadeiros “buracos negros” não correspondem às vossas teorias...
-          Como é que sabeis? Sem contacto com a Terra como é possível conhecerdes as nossas teorias??
-          É possível, é. Bastou ligarmo-nos ao vosso computador...nem calculas a simpatia com que ele se colocou imediatamente ao nosso serviço.
-          O Jacques trabalha para vós?? Então, estamos realmente nas vossas mãos!Custa-me a crer. Conheces, portanto, com certeza absoluta, como contornar os “buracos negros”, como utilizar este e outros fenómenos naturais...viajais de universo em universo?
-          Certamente que viajamos, mas não através de buracos negros. Não levam a parte alguma, são a prova provada da morte, do nada. Isso aconteceu num tempo anterior à nossa actual forma, nesse tempo éramos apenas comerciantes que haviam descoberto como passar de um universo para outro. Na realidade não estamos verdadeiramente prisioneiros neste lugar, pois fazemos viajar as nossas naves para onde quisermos, e quando quisermos.
-          Suspeito que o buraco negro é o vosso oposto, a vossa negação, contrariedade principal, apetece dizer: sois a ordem, ele, ou eles, a desordem absoluta, o puro caos...A perfeição não existe!
-          Pois não, não existe. Porém, estás completamente errado: é o buraco negro que é a ordem absoluta, o universo é, pelo contrário, a desordem. O vosso erro deriva da vossa inclinação para acreditar que houve uma Criação e um Criador, que antes do Princípio existia apenas o caos. Na realidade o universo é a mais perfeita das desordens.
-          Isso contraria todo o determinismo em que acredito depois de ter viajado tanto.
-          Provavelmente é o teu determinismo que é estreito. Tudo que existe é efeito de alguma coisa que lhe permitiu acontecer, e é causa que produz novos efeitos. Se preferires, dir-te-ei então que há uma desordem produtiva. Nada é inerte, e por isso o nada não é nada. A realidade não se diz no singular: mesmo a mais pequena partícula busca imediatamente o grupo, e durará mais tempo quanto mais agrupada estiver. Por conseguinte, deves também concluir que a nossa força extraordinária, segundo os teus parâmetros, é relativa, porque existem forças ainda mais poderosas...o nosso poder é tanto maior quanto mais tempo conseguimos contê-las, ou evitá-las.
-          Referes-te a algo consciente?? Outra civilização, ou...
-          Não digas o resto porque nada dirás se utilizares as tuas palavras.
-          Como gostaria de encará-Lo face a face antes de morrer...
-          Impossível: encontra-se no futuro...
-          E o futuro, não o conheces?
-          Conhecemos possibilidades, umas são mais prováveis do que outras. Este universo está condenado a morrer, o vosso sol muito antes. A vossa teoria que afirma que este universo desenvolveu-se a partir de uma grande explosão, é correcta, ou parcialmente correcta. Na verdade este universo é a repetição de um outro anterior que se contraiu até explodir por fim. Pois bem, nós somos os sobreviventes da civilização mais adiantada desse universo perdido. Viemos do Tempo antes do tempo. Por isso acompanhamos o vosso progresso com muita atenção, porque tudo indica que estais a repetir aquilo que nós fomos e fizemos.
-          Ou seja, praticamos o mesmo Mal que vós já praticastes...
-          E o mesmo bem, mais ou menos. Que seria da Diferença, se não existisse a Repetição? A verdadeira sabedoria é a arte de poder escolher.
-          Preferia, então, que nos enviasses para o futuro.
-          Não posso colocar-vos no futuro. Escolhe.
-          Não vou decidir sozinho, apenas por mim. Por mim, escolheria o futuro, mas creio que todos os outros preferem o presente, depois destes anos todos, seja ele qual for.
-          Assim será.
-          Mal vejo já a estrutura da nave, mal vejo já os meus companheiros!...Se vamos morrer todos, morramos então! Mais vale deste modo do que em circunstâncias mais estúpidas!
-          Não morrereis. A vida é uma passagem...Repetimos: não somos salvadores de ninguém. “Messias” inventam-se em toda a parte, expressão para a impotência dos fracos. Muito do que vistes é pura ilusão, porque estivestes sós quase o tempo todo! O universo em que viajastes cabe num átomo. Para “baixo” cava-se o infinito, para “cima” outro tanto.”
                  O diálogo foi interrompido. Insistimos, mas não recebemos resposta. Ficámos a flutuar  sobre a superfície da formidável nave, sem nos ser possível efectuar qualquer movimento. Aproveitei este tempo para redigir o relatório. Transmiti-lo-ei no último instante com as últimas informações.
Nesta altura estamos a ser atraídos para a superfície por uma espantosa força magnética!
Senhor Director, é difícil descrever o que nos é dado observar! Movemo-nos lentamente sobre pináculos de cristal, colossais, edifícios em forma de cone, de um revérbero insuportável para os nossos olhos, alguns deles ostentam triângulos com um  círculo dentro... avistamos agora pradarias sem medida, de um verde intenso, e rios e lagos e um formidável oceano! Cruzamo-nos com inúmeros veículos aéreos, com uma espécie de escafandros no interior, será gente, serão máquinas? Reina, aparentemente pelo menos, uma esfuziante confusão, e, todavia, nem sinais de polícias e ambulâncias, o emaranhado trepidante de vida desloca-se numa atmosfera clara, limpa, diáfana dizendo melhor, e aves, muitas aves agrupadas em bandos, cujas cores percorrem toda a paleta de tonalidades, porque é tudo de uma beleza indescritível, os cumes das montanhas cobertos de neve, o espelho das águas, praias de uma brancura imaculada, aqui renques de palmeiras, ali atóis de coral, que espectáculo!

          É um túnel ou o abismo que se abre à minha frente? Que labirinto, que casa, que lar, que refúgio é este? Que luz é esta que incendeia cada célula do meu corpo? Imagens, recordações, avulsas, passam desfilando perante os meus olhos. E onde estão os meus olhos?  Colo-me à imagem evocada de Beatriz, reclinada nua sobre a areia da praia, acaricio-lhe a pele quente, sobre a penugem do ventre. O seu sexo é doloroso e aflito como uma chaga na minha memória. E logo a seguir, ó coisa estranha!, coloco-a na minha infância, sobre a erva da várzea, ao pé da casa onde nasci, sentada sobre miosótis e malmequeres, escutamos o rumorejar do ribeiro, a vinha exuberante de oiro, homens e mulheres mourejando ao sol de setembro...Não oiço o que digo, mas sei que o digo: amo-te...é amor esta paixão nunca saciada...Beatriz, Beatriz, onde estás? Não morras, meu amor, não morras...Estamos porventura já mortos? Será apenas a recordação da vida que a morte nos permite? Talvez já tenhamos morrido há muito, morremos em cada batalha inútil, em cada morte gratuita, em cada rosto desfigurado pela dor, somente existe a dor, dura por toda a parte, ó mãe torturada do universo, nenhuma alma te resiste, tudo que anda se curva, gatinha de novo, regressa num relâmpago ao útero, que fantasmas acenam para mim de janelas impossíveis?, correm sobre mim rios de lágrimas, pobre corpo sarcófago que deslizas sobre areias de ossos, pedacinhos de sonhos, tantos risos desperdiçados, tantos laços desatados, mergulho no segredo de todos os enigmas ou somente nos escombros da minha memória? Reabrem todas as mágoas como bocas de cadáveres, reavivam-se todos os fracassos como crateras fumegantes, plantas carnívoras, unhas de sangue, línguas bífidas, promessas atraiçoadas, reacendem-se todas as perdas como risadas de escárnio rindo de tanta estupidez...Condensam-se todas as memórias num único ponto, dirigem-se para aqui como estrelas atraídas por um buraco negro, imagens dolorosas que se desvanecem, resignações, ressentimentos, que falecem, como pedras lançadas sobre a face de um lago desenham ondas concêntricas e logo se vão, caio ou subo, morro ou renasço? Olho o meu corpo e está a apagar-se, pedaço por pedaço apaga-se como se alguém apagasse pouco a pouco um desenho com a borracha, e esqueço ... esqueço...até ao fim do mundo, à última palavra, à última gota da agonia. Meu amor, nunca mais.

   




O regresso


                    Termino a segunda leitura e ponho-me a coçar a cabeça. Levo a chávena de café à boca e aí a deixo ficar tomado de um verdadeiro estupor. Que haveria de comunicar aos outros elementos do Directório? Que a nave Quimera, tão sofisticada, que custou rios de dinheiro, transportando documentos fundamentais para a humanidade, se perdera? Desaparecera num ápice, misteriosamente, num qualquer ponto do “túnel”? Quem acreditará na transmissão do próprio relatório? Como estabelecer uma conexão lógica, factual, sem que eu próprio, Francis Bacon, não venha a ser também tomado por louco? Ou como o principal responsável por um erro dramático, e custoso para o orçamento, que agora procura encobrir a falta? A única explicação que se me impõe ao espírito é precisamente a mais absurda: um grupo de astronautas a caminho da Terra, atravessa um túnel do espaço-tempo e é sugado para o passado... Sendo assim, como se explica que este relatório tenha chegado ao seu destino? Quem o redigiu afinal de contas? Parecia-lhe, contudo, evidente que fora enviado pelo próprio Dos Santos; que, neste presente preciso em que eu, Bacon, o estou lendo,  muito provavelmente o seu autor estaria morto há muito tempo. Por que modo teriam as ondas percorrido dezenas de anos para diante, se a nave moveu-se para trás? Todavia, esta mensagem obriga a concluir que ele estava vivo nessa altura, embora tivesse perdido o contacto com todos os outros membros da tripulação; tendo ele “regressado” ao passado, provavelmente aos outros acontecera o mesmo. O universo encerra ainda demasiados mistérios.  Não era de excluir a hipótese de que a Quimera ficara atolada num vórtice, ou turbilhão, de diversos espaços-tempos. Considerando que, em rigor, o presente não existe, haveria de concluir-se necessariamente que ou se avança para o futuro ou se regride para o passado, sendo que a primeira possibilidade não é, de todo, uma conjectura verosímil. Resta a segunda probabilidade ou, remotamente, a probabilidade da existência simultânea de universos paralelos. Seja como for, era preciso resgatá-los de alguma maneira. Lanço mãos ao trabalho: consulto nos arquivos de diversos computadores todos os dados que me auxiliem a solucionar aquele problema nunca antes experimentado, mas para o qual haveria necessariamente um quadro teórico já formulado. Recorro inclusivamente à rede das melhores universidades e centros de pesquisa.
Mando vir umas sanduíches e ordeno que ninguém me incomode. A ampla janela do gabinete oferece-me sucessivamente o sol da tarde, o crepúsculo e, por fim, as miríades de luzes do vasto Instituto e das povoações ao redor. Luzeiros no céu anunciam o trânsito caótico das aeronaves que regressavam a casa.
No termo de esgotantes horas de trabalho, encontro uma explicação teórica da qual se podia deduzir uma solução, nunca antes testada. Tudo residia na possibilidade de enviar uma outra nave, mais recente do que a Quimera, mais pequena, mais rápida, mais poderosa, dirigindo-a para o ponto exacto da intercessão com o outro universo, ou com a outra dimensão do espaço-tempo. Se tudo corresse bem, o comandante Dos Santos receberia o contacto. Se estivessem vivos. Provavelmente estariam muito mais velhos no “lugar” onde se encontravam, mas é de admitir que retomariam a sua idade “real” quando fossem libertados do túnel. Em suma: era urgente libertá-los, não somente por eles, pelas suas vidas, mas pelos efeitos que o regresso da Quimera iria provocar na Terra . Presumo mesmo que uma autêntica revolução pôr-se-á em marcha. Que talvez dependa apenas de mim. A humanidade lá fora ignora completamente o que está a acontecer. Talvez amanhã as televisões acordem todo o mundo com a notícia mais revolucionária de todos os tempos. O universo, o nosso pelo menos, estava conhecido numa vasta extensão. Alguns planetas viriam a ser destinos comerciais e turísticos. Uma ampla literatura de crítica dos costumes da Terra haveria de brotar, por comparação com as culturas e civilizações dadas agora a conhecer. E alguma coisa haveria de mudar. O Movimento dos Iguais saberia aproveitar a ocasião para movimentar as classes descontentes com a Liga dos Accionistas.
Afinal de contas, em que consiste a nossa salvação, ou seja, a nossa felicidade ou liberdade? Num amor constante e eterno para com Deus; mas Deus é a natureza –Deus ou Natureza. Tudo que compreendemos pela razão, gozamo-lo com alegria, acompanhada da ideia de Deus-Natureza como causa. Deus está isento de paixões e não é afectado por nenhuma afecção de alegria ou de tristeza. Nós, pelo contrário, não gozamos da felicidade por refrearmos as paixões, mas, ao contrário, gozamos dela por podermos refrear as paixões. Na medida em que a mente conhece as coisas como necessárias, tem maior poder sobre as afecções, por outras palavras, sofre menos da parte delas.
Temos vindo a libertarmo-nos de ficções antropomórficas de Deus, e daqueles seres sobrenaturais, que mais não são que simples seres humanos, ou figuras que exprimem apenas a nossa impotência e os nossos desejos. Essa aprendizagem elevou o conhecimento humano a um patamar estupendo. Ainda que haja sido por caminhos e meios custosos e violentos. Todo essa acervo de conhecimentos está ao alcance de cada indivíduo, desde criança. E se ainda não está, a luta deve travar-se aí mesmo. Somente o conhecimento liberta o homem. Ninguém nasce livre. A vida é, só pode ser, um projecto de emancipação.

    Encerro o computador, verifico se a password está válida, mesmo assim fecho a caixa de aço do computador à chave. Não quero fugas de informação de modo nenhum. Fecho o gabinete, transmito as últimas ordens às duas secretárias, despeço-me. Envergo no compartimento respectivo o fato térmico de exterior e chamo o meu veículo pessoal. Sob o túnel de betão a temperatura está cálida, mas lá fora o frio é intenso. O veículo desliza suavemente sobre o monocarril magnético, a uma velocidade uniforme. O céu apresenta-se coberto por uma espessa cúpula de nuvens sombrias que ameaçam chuva. Uma chuva ácida. Os campos ao redor reverberam sob as cúpulas, ou estufas, de fibra de vidro, onde germinam as colheitas de verão. Dez quilómetros depois já se avista, sobre o vale, o largo e bonito edifício onde pernoitarei. Ultrapasso sucessivos apeadeiros, com uma ou outra vivenda ao pé, cercadas de altos muros encimados por vigias; habitações dos quadros mais graduados do Instituto do Espaço. Ao longe, por detrás da montanha, adivinho o mar, quase negro, poluído, excepto nos extensos viveiros cobertos que o cortam com ínsulas; pelas falésias desdobram-se as moradias dos Accionistas, apenas uma cidade entre muitas que eles ocupam pelo território fora, o império, os senhores daquela parte do mundo.  O veículo estaciona, sem que necessite de qualquer ordem. Vigio o local, sempre atento aos bandos de salteadores que pululam pela região. Com a guerrilha bem posso eu. Saco a arma do coldre e verifico se ela está em ordem. Decido-me finalmente a enfrentar os cem metros que me separam da mansão, cujas paredes rosa mal se distinguem do compacto arvoredo. Margarida já me espera. Com a sauna e as massagens. E aquela juventude que somente de uma prostituta me está ao alcance usufruir na minha idade.
 Foi então, enquanto caminho a pé observando as sombras ameaçadoras dos plátanos, que me surgiu a certeza de que a Quimera vitimada estava incólume, algures, aqui mesmo, na Terra, prisioneira do presente! Não do passado, nem do futuro, mas do presente. “O passado já não é; o futuro, ainda não. Somente o presente existe.”- comento em voz alta para a porta que se abriu automaticamente pelo som da minha voz. Mas não entro imediatamente. Recuo para o amplo terraço que acabo de atravessar. Encaro o turbilhão de nuvens que se juntam no céu como um enxame de ameaças. Chocam-se na minha mente soluções díspares para o drama que enfrento. Parto do princípio de que a gravidade é uma propriedade de um contínuo espaço-tempo que se encurva na presença de matéria. A massa composta pela nave Quimera deformou o espaço. Pensemos no exemplo de um lençol bem esticado: encurvará se sobre ele colocarmos uma pedra. Se lançarmos uma esfera maciça sobre o lençol encurvado, ela será desviada em direcção à pedra, por causa da depressão que existe em torno desta. Como proceder de modo a que a nave de resgate, viajando sobre o “lençol encurvado”, seja “desviada” em direcção à nave Quimera? Como consegui-lo rapidamente, encolhendo para um breve instante os muitos anos necessários? Não vislumbro outra solução senão atingir directamente o “túnel”, ou falando mais propriamente, o misterioso planeta-nave...porque, na realidade, não fora através do buraco negro que a travessia se realizara. Mesmo conhecendo, como agora conheço, as coordenadas do ponto onde eles se mergulharam, comunicação alguma poderia alcançá-los com a rapidez que a situação exigia. Que fazer?
A Terra parece gemer sob a vibração ininterrupta das incontáveis máquinas que a consomem. A noite negra, pesada, parece grávida de um futuro de monstruosidades.
 Inspiro profundamente, para conter a profunda comoção que subitamente me abate. Nada a fazer, excepto esperar que os senhores do planeta Jano, viajantes de universos paralelos, tivessem socorrido os náufragos da Quimera. Porque uma única explicação lógica se impõe: eles sabiam o que faziam, toda a viagem da Quimera fora, afinal de contas, obra deles, orientada por eles, e tudo que sucedera esteve conforme algum plano! Bem vistas as coisas, os membros da tripulação da astronave humana foram os sujeitos activos de uma viagem iniciática, permitindo a estes um conhecimento o mais amplo possível das variadas formas de evolução da vida no nosso universo. Os arquitectos de Jano (ou eram Jano eles próprios?) teriam aguardado milhares de anos, e em todo esse tempo vigiaram, até que a civilização humana, num lugar remoto do cosmo, alcançasse a capacidade de produção de uma nave como a Quimera. Realmente, segundo o relato da viagem, nenhuma outra civilização tal havia conseguido. Não abandonariam os humanos à morte, ou a um horrível destino. Contudo, sobravam dois complexos problemas por esclarecer :
Primeiro – Que objectivo tinham eles em mente, se acaso (e parecia ser este o caso) os viajantes da Quimera não pudessem relatar o que viram aos conterrâneos? Para que serviria tal plano aparentemente tão grandioso? Impunha-se a conclusão lógica de que fariam regressar à Terra a nave. Intacta. De que forma? Provavelmente, e mediante a teoria dos diversos espaço-tempo, fá-la-iam regressar ou no futuro ou no passado. Entre estes dois estados, prefiro decididamente o passado. Mas o passado, para os terrestres, equivalia ao presente para os seres do planeta de Jano!
Segunda – Admitindo que os senhores de Jano vigiavam a progressão das civilizações registadas no relatório, porque razão permitiram que os habitantes do planeta de Aldhor optassem por não investir nas viagens espaciais, quando, em boa verdade, estavam, ou estiveram muito tempo antes de nós, mais aptos do que os terrestres? Porque razão assistiram, impávidos e serenos, ao nosso desenvolvimento tecnológico à custa de tantos e horríveis sofrimentos da nossa espécie, quando talvez o pudéssemos ter conseguido por caminhos muitíssimo mais pacíficos e racionais? Tal facto apenas podia significar que eles não intervêm, excepto nos casos que eles próprios consideravam especiais. Vão deixando por todo o lado as tais mensagens de esperança (que cada um interpreta como entende). Em conclusão : eles sempre existiram, eles sempre souberam da nossa existência, mas sempre estivemos sós. Quanto ao plano, provavelmente concluíram que era mais sensato  deixar os terrestres na ignorância, e, quiçá, cortar a comunicação entre os “náufragos” da Quimera e os seus conterrâneos. Aqui, os progressos da técnica perseguem finalidades muito pouco inofensivas e eles acabariam por se ver obrigados a aplicar-nos um valente correctivo.
E encaminho-me de novo para a porta.
Quando Margarida me recebe com um abraço cheio de carinho, penso em Beatriz.
-          Quantas mulheres chamadas Beatriz conheces tu?
-          Algumas, porquê?
-          Conheces alguma que prefira gastar a vida por detrás de uma secretária empilhada de papeis?
-          Conheço bastantes, mas não se chamam Beatriz...ou chamam-se??
-          E porque preferem?
-          Francis, tenho o jantar ao lume! – E, enquanto arrumava no cabide o grosso sobretudo -: Ora, preferem, se calhar, por variadas razões: porque ganhar a vida ou gastá-la é a mesma coisa, não têm outro remédio, ou é mais seguro para elas...Tu é que devias saber, não és tu o cientista?
-          Mas tu é que és a mulher. Bom, vou tomar um banho. Enquanto jantamos, contar-te-ei a história de um indivíduo de têmpera excepcional que inventou uma Beatriz perfeitamente fictícia, para poder suportar uma viagem tremendamente penosa.
-          E isso fazia-o mais feliz?
-          A bem dizer, mais melancólico que feliz. Como se andasse à procura dela em todas as mulheres que amou. Como se a tal Beatriz encerrasse o enigma que era a Mulher para ele.
-          E decifrou o enigma por fim?
-          Até ver não. Pela simples razão de que não há aí enigma algum. As explicações são sempre as mais prosaicas, as razões quase sempre as mais medíocres, nós é que não as queremos ver.
Algum tempo depois Margarida perguntou, elevando a voz para se fazer ouvir da cozinha, se eu queria a massagem.- É claro que sim, minha querida! isso são perguntas que se façam?
Enquanto me massajava, e como se tivesse estado a matutar, disparou: - Mas olha lá uma coisa: se esse tal senhor de que falavas há pouco, é, ou era, tão especial, como é que não entendia o enigma da tal Beatriz? Era um grande cientista como tu?
- Boa questão, minha filha. Com aquilo que aprendeu nas viagens que fez já deve ser mais sábio do que eu e do que todos juntos. Mas a lógica com que trabalhava não é a mesma que se requer para os assuntos do coração.
-          Como assim? não costumas dizer que a ciência pode vir a explicar tudo?
-          E continuo a acreditar nisso; simplesmente o cientista também possui um corpo, e o corpo possui desejos e paixões...
-          Ah, bem te entendo. É mais fácil conhecer aquilo que não amamos...
-          Minha querida, se te tivesse conhecido há trinta anos, oferecia-te uma cátedra na universidade.
-          Há trinta anos a minha pessoa ainda não tinha nascido...

   
                     Na manhã seguinte desperto com o toque agudo do telefone. Margarida contorce-se como uma gata enfadada. “Faça favor de dizer!”, resmungo, fixando o rosto cavalar mas astuto que se mostra no ecrã. “ Senhor engenheiro, prepare-se para ouvir as piores notícias para si!”, avisou o secretário principal. “Mau, que sucedeu?”. “ O que sucedeu simplesmente, senhor engenheiro, é que foi demitido !”. “O quê? O quê? Está a brincar comigo??”. “De modo nenhum, infelizmente para si. O governo, pela pessoa do primeiro ministro, e ouvidos os pareceres dos outros directores, seus ex-colegas, decidiu afastá-lo das funções que desempenhava, porquê não sei, ou melhor, não me convém informá-lo disso, saberá logo que eles queiram...”. Levou a mão ao peito onde uma dor aguda se instala. Aquelas palavras sibilinas, aquele veneno, só podiam denunciar uma facto irremediável: fui descoberto! A polícia estava em cima dele! Consigo, mesmo assim, interpelar o outro, que espera como um abutre silencioso - “Alguém mexeu no meu cofre, no meu computador? O relatório que enviei chegou às mãos deles?”, interrogo com voz surda, tocada de inquietação e suspeita. “Qual relatório?! O senhor engenheiro não me fez transmitir relatório algum! E  já violaram o seu cofre, obviamente....”. Contenho a custo para não sufocar – “Como? Como é isso?! Não enviei nenhum relatório? No cofre não encontraram nenhum documento especial? porque você, meu sacana, sabe tudo, você é que foi à frente deles a violar todos os meus documentos, a minha password, tudo, seu asno, seu piolho!”. O outro ficou mudo um instante e retorquiu tranquilamente: “Não encontrámos qualquer documento importante ou com data de ontem...Porquê, devíamos encontrar? Não caia na asneira de sonegar documentos....”. “Não, é claro que  não havia documento algum...importante, quero dizer....referia-me a documentos de rotina...”. “Ah, bom!” – Disse o outro, e desligou.
  Margarida fita-me com preocupação. “Meu querido, importa-me pouco que deixes de ser director, já tens mais do que direito à reforma, importa-me mais o teu estado de saúde....Estás bem do coração?”. “Perfeitamente.”- respondo –“ As coisas que eu sonhei hoje! Quando te contar...”. Olho-a com carinho e profiro estas palavras enigmáticas : “ Os asnos não descobriram o relatório...minha querida, vais guardar para mim uma coisa, de maneira que apenas tu e eu saberemos da sua existência, fazes-me esse favor?...Ou melhor : vais enviá-la para a morada que vais decorar, fazes-me isso?”
  Uma hora mais tarde, despeço-me de Margarida. Num lugar da casa que ela vai encontrar, coloquei o meu testamento, pelo qual deixo-lhe tudo. Aperto-a tanto, que ela estranha. “Até pareces mais novo!”, comenta, sorrindo-me com ternura. Vendo-me partir energicamente, há-de ficar a matutar se é desta que eu não regresso mais.
E se a parte final do relatório não tivesse sido senão um produto do inconsciente de John? Tal como a ficção de uma medíocre Beatriz dividida entre o gosto pela cama e o ninho protector paterno...Tudo congeminações de uma mente desorientada pelo pânico da mais absoluta das solidões?
Bom, temos pelo menos como certas a existência das primeiras civilizações extra-terrestres que ele descobriu. Mas é claro que aquilo que eu quero confirmar é a parte final, o corpo celeste, ou melhor, a nave inter-temporal de Jano. Se não existir de facto estou simplesmente lixado. Enfim, contento-me com o Planeta das comunas. Mas é a eternidade que eu preciso, a eternidade!

 A nave em que embarco sozinho é superior à Quimera, embora muitíssimo mais pequena. O combustível é, desta vez, praticamente eterno, por extracção contínua da anti-matéria, ou matéria negra. Passo calmamente pelos guardas, que me reconhecem e cumprimentam respeitosamente. Não passará pela cabeça da polícia que eu tente uma fuga através de uma nave inter-galáctica... De qualquer modo, se já possuíssem provas flagrantes de que eu andava envolvido com os inimigos do sistema, já me teriam caçado.
Entretanto, a Margarida já estará a remeter a cópia do documento para os “outros”. Dar-lhes-á esperança e um significado redobrado para continuarem a luta.
Transporto comigo as melhores e as mais secretas informações sobre o poderio técnico e militar da Terra, que transmitirei aos construtores de Jano. Repudiado injustamente pela Cidade que ajudei a tornar-se poderosa, oferecerei os meus serviços à Cidade inimiga. O grande estratego ateniense Alcibíades assim procedeu, e se a alguém gostaria que me comparassem, era com ele.
Não tenciono parar em parte alguma. Transporto víveres suficientes. De resto, na maior parte do tempo estarei ligado à máquina, reduzido às funções vitais. O meu destino é o planeta Jano. Para passar o tempo em que estarei desperto , acompanho-me da minha obra preferida: o Fausto, de Goethe.
Entretanto, já pudera concluir que a nave Quimera encontra-se algures na Terra, e no presente. Grande parte do relatório fora escrito e transmitido daqui. Somente assim poderia ter-lhe chegado praticamente no mesmo instante em que fora enviado. Porém, encontra-se seguramente noutra dimensão, embora bem ao pé, ou ao lado...invisível.
FIM